A História das Histórias em Quadrinhos: a Era de Prata

Silver-Age-Collection-600x879O final dos anos 40 e início dos 50 foram o crepúsculo dos super-heróis. Depois de uma era expansão de vendas e abundância de títulos, a famosa Era de Ouro, o interesse do público sobre esses deuses e semideuses da indústria cultural foi rareando.

Os quadrinhos mais populares eram sobre temas policiais, terror e piratas. Naqueles anos, os únicos quadrinhos que vendiam relativamente bem, com direito a título próprio, era a Santíssima Trindade da National Comics (hoje DC Comics): Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Os motivos do desinteresse são difíceis de precisar, mas o fato é que super-heróis não eram mais tão populares. Mas isso estava prestes a mudar…

Em 1954 o psiquiatra Frederic Wertham publica seu famigerado livro Seduction of the Innocent (saiba mais aqui). A tese de Wertham era de que os quadrinhos levavam à delinquência da juventude, incentivando comportamentos moralmente condenáveis na época, como a homossexualidade e o sadomasoquismo, e também a delinquência juvenil. O livro causou um verdadeiro pânico nos Estados Unidos. O risco de uma caça às bruxas sobre as editoras de quadrinhos era iminente. Então foi criado o igualmente famigerado Comics Code Authority (CCA), um código de autocensura das editoras de histórias em quadrinhos. O selo do CCA era a garantia para os pais de que seus filhos não seriam corrompidos pelos quadrinhos!

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Algumas restrições do CCA (que você pode ler na íntegra aqui):

Crimes nunca devem ser apresentados de modo a criar simpatia pelo criminoso, promover a desconfianças das forças da lei e justiça ou inspirar outros com o desejo de imitar o criminoso.

Nenhum comic deve apresentar explicitamente detalhes e métodos de um crime.

Cenas de violência excessiva devem ser proibidas.

Nenhum comic deve usar a palavra horror ou terror em seu título

Todas as cenas de terror, derramamento de sangue excessivo, crimes sangrentos ou macabros, depravação, luxúria, sadismo, masoquismo não são permitidos.

Inclusão de histórias lidando com o Mal devem ser usadas ou publicadas apenas com a intenção de ilustrar uma lição de moral e em nenhuma hipótese o Mal deve ser apresentado como atrativo ou ferir a sensibilidade do leitor [responsável pela tão falada “inocência” dos quadrinhos da Era de Prata].

Cenas que lidam com, ou instrumentos associados a, mortos vivos, tortura, vampiros, vampirismo, ghouls, canibalismo e licantropia são proibidos [praticamente pondo fim aos quadrinhos de terror tão populares na época].

Muita gente diz que o CCA foi um golpe duro aos quadrinhos, um período de trevas. Ledo engano! Na verdade ele é um dos responsáveis indiretos pela volta da popularidade dos super-heróis. Repare como muitos dos artigos do CCA fazem alusão expressa a proibições do gênero terror e policial, que eram os mais vendidos.

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As restrições eram tantas que a EC Comics, responsável por editar títulos de terror de sucesso – só para ficarmos com um exemplo clássico, Tales From The Crypt, ou Contos da Cripta – foi obrigada a fechar as portas. Parecia o fim dos quadrinhos até que o lendário editor Julius Schwartz, da National Comics teve uma ideia brilhante: ressuscitar um antigo herói da Era de Ouro (saiba mais sobre essa era aqui): o Flash!

Na nossa série Guerra dos Roteiristas comentamos em detalhes a obra desse monstro sagrado dos quadrinhos, sobre a Era de Prata e o CCA:

A ideia de reformular um personagem antigo com uma pegada de ficção científica fez muito sucesso. Agora o Flash não era mais Jay Garrick, que se parecia com um Hermes moderno, mas Barry Allen, da polícia científica (no termo da moda, um CSI) atingido por um raio que lhe deu poderes!

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Schwartz conseguiu captar o crescente interesse das pessoas por ciência e tecnologia num contexto onde a Bomba Atômica e a Corrida Espacial simbolizavam, respectivamente, o pior e o melhor que o avanço tecnológico poderia trazer. Um misto de fascinação e medo cercava tudo o que fosse relacionado à Ciência e Schwartz trouxe isso ao mundo dos super-heróis, tornando-os novamente relevantes.

O Flash foi um sucesso e sua estreia em Showcase #4 em 1956 é considerada pela maioria dos estudiosos de quadrinhos como o início da Era de Prata. Logo outros heróis da Era de Ouro foram reformulados com essa pegada da ficção científica: o Lanterna Verde (1959) agora era membro de uma força policial espacial e seus poderes não eram mais mágicos, mas frutos de seu anel movido à força de vontade!

O que, parando para pensar, não deixar de ser muito parecido com magia, mas vamos lembrar daquela famosa regra de Arthur C. Clarke que diz que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia...

O que, parando para pensar, não deixa de ser muito parecido com magia, mas vamos lembrar daquela famosa regra de Arthur C. Clarke que diz que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia…

O Gavião Negro (1961) não era mais um príncipe egípcio reencarnado, mas um policial alienígena vindo do planeta Thanagar!

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Uma nova Era para os quadrinhos de super-heróis havia surgido: a Era de Prata!

E óbvio, se os antigos heróis da Era de Ouro reformulados fizeram sucesso em suas carreiras solo, por que não ressuscitar a ideia de uma super-equipe? E a assim a Sociedade da Justiça renasceu como a Liga da Justiça (1960).

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Foi durante a Era de Prata que uma das características mais marcantes da DC Comics surgiu: o multiverso! Você pode conhecer um pouco mais sobre isso aqui.

Mas é claro que a Era de Prata não se resume à DC Comics, ou National Comics. Outro editor lendário já estava no mercado nessa época: Martin Goodman, fundador de diversas editoras cujo material hoje em dia pertence à Marvel Comics (detalhes aqui). Goodman também tinha uma estratégia bem definida: inspirar-se em ideias de sucesso.

Veja bem: foi após o sucesso da Liga da Justiça que Stan Lee e Jack Kirby receberam de Goodman a ordem de criar um supergrupo e assim surgiu o Quarteto Fantástico (1961). Assim como os heróis da National Comics o novo grupo também tinha uma relação forte com a ficção científica e seus próprios heróis da Era de Ouro reformulados: um novo Tocha Humana e um personagem com os mesmos poderes do Homem-Borracha.

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O sucesso do Quarteto criou uma demanda de mais super-heróis pelas mãos da dupla Lee/Kirby e outros surgiram, dessa vez com suas origens ligadas ao fascínio e medo que a bomba atômica inspirava: Homem-Aranha (1962), picado por aranha radioativa; Hulk (1962), fruto de um acidente nuclear,  os X-Men (1963), com suas mutações (e também inspirados em outro grupo da National Comics, Doom Patrol), e outros tantos que fica impossível mencionar em um único post.

Claro que nem todos os heróis tinham uma origem ligada à energia nuclear ou à tecnologia – como o Homem de Ferro (1963). Thor (1962), com sua origem mitológica, é uma exceção.

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Outra editora importante do período foi a Charlton Comics. Ela publicava heróis cujos direitos atualmente pertencem à DC, como Questão e Besouro Azul.

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As histórias da Era de Prata ficaram conhecidas por um certo tom de maravilhamento e inocência, devido em parte às restrições impostas pelo CCA.

Muitos dos autores mais aclamados atualmente fazem questão de homenagear e referenciar a Era de Prata em seus trabalhos – afinal foi nessa época em que começaram a ler quadrinhos. Apenas dois exemplos: Brad Meltzer e Mark Waid (se você gosta do trabalho dele, não deixe de ler esse post), que já comentamos em detalhes na Guerra dos Roteiristas:

A Era de Prata foi a segunda aurora dos super-heróis. Mas em meados dos anos 60 alguns títulos começaram a ser cancelados, o que apontava para um cansaço dos leitores. O público ainda gostava de super-heróis, mas o mundo estava mudando e os super-heróis deveriam mudar novamente.

Em 1971 o CCA foi revisado, permitindo, por exemplo, mostrar a corrupção de agentes públicos (mas desde que fosse mostrado, também, que estes seriam punidos). Essa revisão sinalizou o surgimento de histórias inspiradas em questões políticas e sociais.

Era o início da Era de Bronze…

***

Se você se interessa pelas Eras dos quadrinhos de super-heróis clique aqui e conheça nosso livro sobre o assunto!

 

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