Menos supers e mais humanos: a importância do coadjuvante

Gordon-Dark-KnightPor que nenhum protagonista vai conseguir superar um coadjuvante?

 

 

 

Hoje é difícil imaginar que qualquer um que tenha lido um gibi ou pago o ingresso para assistir um filme de super-heróis pela primeira vez tenha se interessado no assunto sem nunca ter ouvido falar no personagem principal. É o gibi “Dr. Fulano”, o filme do “Capitão Sicrano” ou “N” variações do mesmo acorde. O grande público busca histórias daquele herói, este ideal com certidão de nascimento extraviada de propósito.

Explicações para essa busca do modelo são inúmeras. Incontáveis são ligadas ao marketing, outras tantas à mitologia e religião. Há até explicações que dialogam com a psiquiatria e a neurociência. Não se trata apenas da busca por um personagem, mas o reconhecimento instantâneo de uma ideia, de uma função, um padrão, manifestado em formas simétricas, cores primárias, valores e condutas “boas” que qualquer pessoa aspira alcançar e se igualar.

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Buscar e reconhecer heróis não é apenas uma tentativa de escapismo, um “desligar” da realidade em nome da diversão. Até o fã menos entusiasmado tem que reconhecer, a atração pelos heróis pode ser também uma procura por algo de sagrado dentro de cada um. Mas…

A maioria dos filmes e gibis jamais podem mostrar nem admitir, mas os heróis (ou personagens) coadjuvantes serão sempre mais fascinantes em sua modesta humanidade do que aqueles que têm revista própria ou provocam filas enormes no cinema.

Não precisa ser nenhum gênio para entender. Os heróis principais, como o Superman, o Capitão América ou a Mulher-Maravilha, são emblemas, ícones, ou arquétipos, termo que vem do grego arkhetypon, o “primeiro modelo”, uma corruptela de arkhom, “o governante”.

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Mas assim como qualquer governante, estes heróis estão “enjaulados” pelas suas responsabilidades, pelos papéis que desempenham, pelos conceitos que representam. A eles cabe atender às expectativas dos papéis que desempenham, realizar feitos de impossível perfeição, coisas que apenas aqueles que são “mais que os humanos” são capazes. Isso não quer dizer apenas proezas físicas, que são evidentes e qualquer criança ou adulto é capaz de reconhecer, mas também aquelas de raízes emocionais profundas, atos que nenhum de nós teria capacidade de fazer.

Quem, além de Steve Rogers, é capaz de retrucar a um Caveira Vermelha que “não tem nada de especial, sou só um garoto do Brooklin”? Como, alguém além de Tony Stark, pode se curar de um alcoolismo flagrante de forma quase instantânea apenas porque assistiu uma velha gravação deixada pelo pai? De que forma, alguém além de Bruce Wayne, teria coragem de se meter numa penitenciária no c** da China apenas “para entender como funciona a mente criminosa”?

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Isso sem falar em consertar a espinha quebrada fazendo flexão de braço

Mas eles são super-heróis, é por isso que eles nos inspiram”, diria o crica. Sem dúvida. Mas é justamente por eles ocuparem este “pódio” moral que nenhuma história pode arranhar a superfície da perfeição que eles representam.

Claro, há exceções em como eles são representados, como nas histórias dos Supremos, de Mark Millar, ou no arco Crise de Identidade, de Brad Meltzer. Mas mesmo ali, havia pouca margem para divergência que leve os heróis para longe das suas “jaulas” arquetípicas. Naquelas histórias, ao fim e ao cabo, eles continuam sendo heróis, exatamente como se esperaria dos modelos da Era de Ouro ou da Era de Prata. Icônicos e capazes de realizar o que ninguém mais é capaz.

Por outro lado os heróis/personagens coadjuvantes e camadas de personalidade  como nenhum protagonista consegue ter.

Pense bem: Alfred Pennyworth, Comissário Gordon, Tia May, Cristal (Dazzler), Vampira, Psylocke, Pietro e Wanda Maximoff, Jessica Jones, John Constantine, Wally West (Flash), Dick Grayson (Asa Noturna), John Stewart (Lanterna Verde), Donna Troy, J.J. Jameson, Ben Urich, Foggy Nelson – e dezenas de outros, todos, ao longo de anos de histórias, cresceram tanto ou muito mais do que os heróis principais das revistas que aparecem.

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E por que?

Por um lado porque os enredos exigem que haja um “fiador” humano nas histórias. Do contrário, sem essa âncora, a escalada de poder e conhecimento que marcam a jornada dos heróis da ficção seria tão estranha para um leitor quanto é alienígena para uma formiga entender a destruição de seu formigueiro por uma criança desajeitada. É necessária uma medida humana para o herói – e o leitor – entenderem a dimensão da ameaça que se apresenta diante deles. O que seria da Terra se o Homem de Aço não fosse apaixonado por Lois Lane? Namorados e namoradas são o ponto focal da empatia da atuação de vários heróis para salvar o planeta.

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Aliás algo dito com todas as letras pelo Arquiteto em Matrix Reloaded

Por outro lado, deliberadamente ou porque se torna uma demanda do público, os personagens “menores”, que não sofrem com o peso das mesmas amarras que os protagonistas, podem desprender-se dos papéis que são impostos no começo das histórias.

De modo quase invariável, a jornada deles não é na direção da salvação de uma sociedade ou na domesticação de um poder incrível. A única missão deles na história é evoluírem dentro das suas imperfeições, de suas limitações humanas, essas, sim, impossíveis de vencer. Logo, suas dores e sacrifícios são até mais dolorosas para o público precisamente porque são tão fáceis de se entender e solidarizar.

A morte de um amigo. A partida de uma amada. A perda de uma antiga fé. A busca por si mesmo – são temas que, embora não sejam exclusivos dos coadjuvantes ou heróis “menores”, têm uma tonalidade mais vívida naqueles personagens que não possuem nada além da opção de crescerem como pessoas.

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Além do aspecto narrativo, do ponto de vista editorial, estes personagens de tonalidade humana oferecem uma segunda linha de vantagem ao enfrentarem suas limitações. O destaque deles, devidamente mascarado como uma presença periférica na história do herói principal, é um recurso que atrai diferentes tipos de leitores. Uma vez que os coadjuvantes não são regidos pelas mesmas regras e têm mais liberdade para serem modificados, nada impede que novas interpretações, novos estilos, diferentes formas de serem retratados possa ser um recurso a ser empregado ao sabor do “Zeitgeist”, dos valores e necessidades de outros tempos.

Tome-se como exemplo a Cristal, citada acima. Antiga membro dos X-Men, heroína “bucha” por excelência, ela foi criada segundo o estilo e maneirismos da disco music dos anos 70, passou a representar a moda das academias de aeróbica dos anos 80, mudou para uma estética trash grunge nos anos 90 e hoje aparece com tonalidades de um “punk nu-metal-geração Y”. Menos que um avatar do senso comum, Cristal está longe de ser alguém volúvel. Acompanhar as entrelinhas nas histórias em que ela aparece revela uma linearidade inconfundível, mesmo que pareça uma mudança extrema de personalidade. Mas ela não é a única.

Na sua origem, todos os heróis nascem precisamente na mesma condição. Senão como coadjuvantes, todos surgem como, na falta de termo melhor, “buchas”. Praticamente todos os X-Men – em especial o Wolverine, personagem pra lá de secundário nas histórias do Hulk, cada um dos Vingadores, além da recém celebrada Jessica Jones, Batman ou Constantine, são heróis que não foram concebidos lá com grandes perspectivas de sucesso, tampouco se tornarem algum tipo de arquétipo. Mas, ao ir além, ao se transformarem em marcas, estes antigos personagens buchas se tornaram um bem valioso demais para as detentoras de seus direitos de publicação.

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