A Primeira Guerra Mundial em Quadrinhos: Era a Guerra das Trincheiras de Jacques Tardi

 E nessa semana temos um Red Shirt altamente gabaritado, autor de várias publicações sobre quadrinhos. Fodão como Tony Stark, ele não precisa de uma identidade secreta! Com vocês…

 Túlio Vilela*

Sir Meme

Jacques Tardi é um veterano dos quadrinhos franceses. Apesar disso, não é um nome tão conhecido no Brasil quanto outros compatriotas como o saudoso Moébius, pseudônimo de Jean Giraud,  ou os criadores de Asterix, o saudoso René Goscinny e Albert Uderzo. No Brasil, um dos seus poucos trabalhos publicados é O Grito do Povo, adaptação do livro do também francês Jean Vaultrin, publicado em dois volumes pela Conrad e que trata da Comuna de Paris.

Curiosamente, a adaptação cinematográfica de uma das histórias em quadrinhos de Tardi chegou a ser exibida no Brasil em alguns canais pagos: Aventuras de Adèle Blanc-Sec,cuja protagonista é uma arqueóloga. Essa adaptação foi dirigida pelo cineasta Luc Besson,cuja trama envolve múmias egípcias e até um pterodátilo que voltam à vida. Felizmente, mais uma obra de Tardi foi traduzida e lançada no mercado brasileiro pela editora Nemo: Era a Guerra das Trincheiras, que trata de um tema pelo qual é fascinado: a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Guerra de Trincheiras

Tardi teve uma infância marcada pela guerra. Nascido em 1946, ou seja, pouco depois do final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), testemunhou os anos de reconstrução e ouviu muita coisa de parentes sobre a dureza e o sofrimento causado pelo conflito (já que as memórias sobre a ocupação nazista ainda eram recentes). Como sabemos, a Segunda Guerra Mundial foi uma das consequências da Primeira. Afinal, a “Grande Guerra” – como ficou conhecido o conflito que durou de 1914 a 1918 – plantou as sementes que favoreceram o surgimento do nazismo. O interesse específico de Tardi pela Primeira Guerra Mundial surgiu com as histórias que ouvia do avô, veterano do conflito.

Em sua obra não há espaço para uma visão romântica da guerra e nem para ufanismos. Tardi mostra que na guerra há perdedores em todos os lados: soldados mortos ou mutilados; famílias arrasadas; crianças vitimadas… Os soldados lutam por uma causa que não é a deles, mas dos líderes de seus respectivos países. Mostra que as histórias e experiências são semelhantes, independentemente da nacionalidade: franceses, ingleses, alemães e até dos soldados vindos das colônias francesas e inglesas na Ásia e na África, indianos, argelinos, entre outros. O sofrimento desses combatentes mostrado nos quadrinhos é tanto o físico quanto o psicológico.

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Os desenhos de Tardi casam bem com o tom pessimista e melancólico do texto, combinando protagonistas desenhados de forma caricata com ambientações desenhadas de forma “fotográfica”. Ao representar os soldados dessa forma, o autor contribui para aumentar o tom realista, pois seus soldados não são “super-homens”, apenas homens comuns uniformizados. Assim, os soldados mostrados são narigudos, alguns com orelhas de abano, outros calvos ou com algumas entradas ou falhas no cabelo, barrigudos etc. A arte em preto, branco e tons de cinza contribui para tornar o clima mais sombrio e nos faz lembrar de antigas fotografias da época.

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Para produzir essa obra, Tardi combinou pesquisa histórica (ele procurou a ajuda de um historiador para consultoria, para o qual telefonava constantemente para tirar dúvidas e ao qual agradece no início), as memórias do avô e influências de outras obras ficcionais (ou nem tanto) que tratam do tema, dentre as quais podemos destacar o romance Nada de novo no front do escritor alemão Erich Maria Remarque (cujo livro foi banido da Alemanha durante o governo nazista por conter uma mensagem antimilitarista) e o filme Glória feita de sangue, dirigido por Stanley Kubrick e estrelado por Kirk Douglas.

Por tudo isso é uma obra que deve ser lida, que ganha mais importância e relevância uma vez que ajuda a preencher uma lacuna em nossas livrarias e bibliotecas: se por um lado temos muitos quadrinhos ambientados na Segunda Guerra Mundial, o mesmo ainda não se pode dizer em relação à Primeira.

* Túlio Vilela é formado em História pela Universidade de São Paulo e professor na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Pela Editora Contexto, é um dos coautores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula e Quadrinhos na Educação. Pela Editora Devir, é um dos coautores de Muito Além dos Quadrinhos.

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3 respostas para A Primeira Guerra Mundial em Quadrinhos: Era a Guerra das Trincheiras de Jacques Tardi

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