O lixo da história: sensibilidade e humor na obra de Angeli

Diversas vezes nos pegamos tentando entender tudo que acontece ao nosso redor. A arte é a ferramenta de maior sensibilidade. A nona arte então, é a mais sublime. Alinhando a temporalidade do cinema com o texto do livro e a beleza das artes gráficas, os quadrinhos ocupam um lugar único no contar do tempo. Falar dos fatos com os quadradinhos exige uma certa elevação de consciência.

Claro que nem todos atingem tal elevação. Muitos quadrinistas deixam passar momentos importantes. E por isso vejo o autor que trabalha com as tirinhas semanais um dos mais completos. A mesma pessoa tem que ser jornalista, analista, desenhista, roteirista e até mesmo historiador.

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O registro que nos é deixado é único. Por circular num veículo de massa, no caso das charges políticas dos grandes jornais, o autor acaba atingindo um público maior com a visão de mundo expressa na tirinha. Claro que não a única ou a mais correta, mas é clara nas suas intenções.

Um dos artistas que mais admiro é o grande Angeli. Tento acompanhar tudo que ele produz. Tive inclusive a oportunidade de uma vez cumprimentá-lo, mesmo que brevemente, e elogiar seu trabalho. Há uma imensa sensibilidade e humor em sua obra. Dá muito bem para falar sério fazendo piada.

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Podemos ver isso muito bem no livro O lixo da História – uma compilação das tiras de Angeli publicadas entre os anos 2001 e 2012 no jornal Folha de São Paulo. A genialidade transborda nas páginas do livro. As imagens são de um único quadro e quando lidas na sua sequencia completa contam a história recente.

Iniciando com os ataques de 11/9, Angeli percorre uma série de incontáveis crises e disputas. Da vingança de Bush às revoltas árabes vamos vendo como o mundo segue sempre sendo comandado pelos mesmos  moldes. A crítica da desumanização está estampada na capa e na contracapa, com desenhos que apelam justamente à morte.

São 10 anos de acontecimentos intensos, em suas mudanças e permanências. Uma nova fase do mundo, mas que manteve muitos de seus problemas. Ainda temos ditaduras. Ainda temos vidas confusas. Ainda temos as linhas duras. Ainda vemos sangue escorrendo das mãos dos jovens soldados, enviados para a guerra pelos velhos políticos. Ainda vemos pessoas sendo tratadas como lixo.

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Sempre que releio a obra penso no quanto somos prepotentes. Acreditamos que podemos gerar a paz com conflitos. Temos a fé de que somos capazes de decidir quem morre ou quem vive. Temos a convicção de que estamos, como indivíduos, sempre certos, mas que o outro está sempre errado. Onde vamos parar? Pelo que Angeli mostra, vamos parar em uma piada de muito mal gosto…

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