Nem sexo, nem dinheiro, só um texto mesmo: obrigado, Angeli

angeli capa quadrinheiros

Em quase 50 anos mostrando o que há de mais repugnante – e divertido – no Brasil e no mundo.

Por Iberê Moreno Rosário e Barros*

No dia 20 de Abril de 2022 Angeli encerrou um ciclo de praticamente 50 anos de trabalho. Em função da Afasia Progressiva Primária o cartunista do udigrudi (como ficou conhecido o movimento de produção independente, o underground, brasileiro) se despede da imprensa cotidiana.  Depois de ter encerrado um ciclo 33 anos de publicação diária (1983-2016) na Folha, agora o artista não colaborará mais com o jornal. Claro que ainda encontraremos produções, comentários e aparições de uma das maiores figuras da crítica e do humor, mas com uma frequência bem menor.

A Afasia Progressiva Primária é uma condição ligada à comunicação. Pouco a pouco o paciente vai perdendo a sua capacidade de falar e mesmo de se comunicar por outros meios. É sempre amargo ler uma situação como essa. E ainda tomaremos algum tempo para absorver de fato essa nova fase. 

É necessário olharmos para a situação como um momento de rever e celebrar essa carreira e seus feitos. Sem dúvida poucas figuras públicas de tamanho impacto cultural se mantiveram por tanto tempo em circulação.

Mas quem é Angeli?

angeli tirinha

Arnaldo Angeli Filho é um martelador da Casa Verde, filho de um funileiro, neto de um ferreiro, bisneto de um fundidor. Criado na Casa Verde, muito cedo teve a oportunidade de apresentar seu trabalho e escapar de um futuro um tanto incerto que poderia encarar. Logo em 1973 começa a trabalhar na Folha, produzindo charges de política. Depois de 10 anos atuando no jornal, Angeli iniciou a publicação da tira Chiclete com Banana, que posteriormente seria o nome da sua revista.

Em 1985, através da Circo Editorial de seu amigo de infância e experiente editor Toninho Mendes, inicia a publicação da sua revista autoral fruto das tiras, a lendária Chiclete com Banana. Foram 5 anos de publicações bimensais que marcaram o mercado de banca, tanto pelo seu sucesso como pelo seu formato. Traziam para o público uma mistura de diferentes produções como fotonovelas, resenhas, quadrinhos, tirinhas e listagens, com um discurso ácido e até niilista, que se tornou a característica desse estilo de humor, e que acompanhava o comportamento transgressor da juventude paulistana do período.

chiclete com banana capa
Esse fenômeno editorial, naturalmente, não estava descolado do seu tempo. Os anos de 1980, principalmente a segunda metade, foram um período de alta produção e manifestação política e cultural. Com o processo de reabertura política brasileira atingindo uma nova etapa com o governo Sarney (1985-1990) após fim o fim da Ditadura Civil-Militar (1964-1985), Angeli se permite deixar de dedicar a maior parte de sua crítica e humor diretamente sobre  política para direcioná-las para o o cotidiano.

assim caminha a humanidade angeli tirinha

Apesar da influência direta e reconhecida de Robert Crumb sobre o trabalho de Angeli, é importantíssimo reconhecermos que o cartunista da Casa Verde herda e perpetua um trabalho de humor gráfico que pode ser identificado desde o Amigo da Onça, passando por Millôr Fernandes e O Pasquim, além de figuras como Henfil. Da mesma forma que esses predecessores foram centrais tanto em abrir caminho como em apoiar o desenvolvimento da geração de Angeli, a geração desse Humor Paulistano também foi responsável por formar e apoiar novos nomes que vão desde Adão Iturrusgarai até Orlandeli, além do pessoal da TV Quase ou mesmo os gêmeos Moon e Bá. 

A Circo Editorial e seus cartunistas representaram uma efervescência dos anos 1980, foram tanto parte de um movimento quanto um ponto de encontro de outras tribos. As mobilizações Punk e Hip Hop são duas das principais que podemos identificar como contemporâneas da revista. Muitos dos principais nomes desses cenários sociais e musicais se beneficiaram dos espaços de cartas da revista, além de muitas vezes se sentirem representados nos discursos dos personagens. 

circo8

Mesmo com o fechamento da editora (1995), os personagens assim como seus autores continuaram na ativa. Nos anos 1990, além das republicações da Chiclete com Banana, foram lançados outros trabalhos de compilações a partir dos jornais. Foi um momento de também se envolver com redação para TV, trabalhando na TV Cultura e em programas como TV Colosso

Durante a primeira década dos anos 2000 Angeli trabalhou na produção de uma série de animações sobre seus personagens, sendo em 2006 uma animação sobre Wood&Stock, dois anos depois o Dossiê Rê Bordosa, no qual apresenta um Documentário Irônico para o autor dar explicações sobre o assassinato de sua principal personagem.

Nas charges da primeira década do Séc. XXI dedicou especial atenção ao cenário internacional. Em 2013 publicou O Lixo da História que compilou charges suas sobre o tema publicadas entre 2001 e 2012. Cabe também destaque para o trabalho de 2012 sobre o mensalão com o roteiro de Mario Cesar Carvalho e a edição de Diogo Bercito. Um dos usos mais interessantes de um jornalismo investigativo com um bom roteiro e uma sensibilidade no modo de traduzir alguns conceitos. 

Além da Ocupação Angeli no Itaú cultural em 2012, ainda houve diversas participações em exposições que foram desde charges gigantescas penduradas nos postes da calçada central da Av. Paulista até um banheiro e um setor generoso na exposição do MIS sobre quadrinhos em 2018. 

Percursos de leitura

Depois desse relato todo, queria apontar algumas sugestões de percurso de leitura da obra de Angeli. Sem dúvida buscar a Revista Chiclete com Banana é um bom ponto inicial. Todas as edições constam na Gibiteca Henfil e estão em um bom estado, vale algumas visitas ao arquivo para ler no original. Caso não consiga acessar esse material, as republicações de suas produções como as coletâneas “Toda Rê Bordosa” “Todo Bob Cuspe” e “Todo Wood Stock” são de mais fácil acesso. Lembrando que já foi anunciada uma nova obra, em dois volumes, com mais de 1000 trabalhos dos mais variados tipos, inclusive alguns inéditos, pela Cia das Letras. 

todo bob cuspe re bordosa wood stock angeli

De acordo com a própria Folha, ainda serão publicados trabalhos do cartunista até 2023, fazendo com que ele de fato conclua 50 anos de contribuição no jornal. Talvez apenas personagens de ficção sejam capazes de perdurar por tanto tempo no mercado, e é por isso que o próprio autor se tornou um personagem em seu último filme que comentarei mais a frente.

Acredito também que duas recentes produções sejam cruciais para conhecer esse universo. A primeira recomendação é o documentário “São Paulo Meu Humor”, do diretor Pedro Urizzi, que infelizmente não está disponível em nenhuma plataforma de streaming, apesar de estar sendo constantemente reprisado no canal Arte1. Valeria a pena a campanha para que ele estivesse em outras plataformas, afinal a obra é incrível para conhecer mais a fundo não apenas Angeli, mas também Toninho Mendes.

Um segundo trabalho que é bem interessante para observar esse momento de uma carreira é a animação em Stop Motion “Bob Cuspe: Nós não gostamos de Gente”. Sem dúvida a produção capta, em diferentes aspectos, muito do que Angeli sempre argumentou e apresenta de uma forma única e irônica. Principalmente ao trabalharem a imagem do velho cartunista, acredito que conseguiram fazer as pazes do autor com suas produções.

Para quem estiver no pique de uma leitura mais sobre o artista do que a sua obra, indicaria começar pelo “Humor Paulistano”, que foi organizado pelo Toninho Mendes com ajuda dos pesquisadores do Observatório dos Quadrinhos da USP. Além do trabalho de contextualizar muito da produção, a publicação traz uma série de histórias completas das diferentes produções da Editora Circo, além de uma obra poética de Toninho, até então inédita.

Ainda não foi lançado, mas já está prometido, o terceiro volume da “Guerra dos Gibis” de Gonçalo Junior, que tratará também dos quadrinhos dos anos 80, com especial atenção para as publicações da Circo Editorial. Nesse mesmo caminho caberiam uma série de referências, mais do que devidas, a todas as pesquisas de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado que já trataram sobre a Chiclete com Banana e seus autores. Minha pesquisa de doutorado está disponível aqui para consulta.

Uma figura pública como Angeli sair dos holofotes é realmente um episódio marcante da história dos quadrinhos brasileiros. Um crítico da política e do comportamento como ele sem dúvida fará falta não apenas para seus fãs, mas para o cenário cultural como um todo. Foram 50 anos de produções que acompanharam tanto os costumes quanto a política institucional brasileira.

angeli

Poucas figuras observaram as movimentações da sociedade do ponto de vista que Angeli pôde acessar. Desde 1973 trabalhando com as críticas dos editoriais, travando diálogos com os noticiários da política, nacional e internacional, o modo como o cartunista foi construindo seu traço e suas falas mudaram, assim como a sociedade sobre a qual ele falava.

Na segunda metade dos anos 1980 o artista conseguiu apresentar sua capacidade produtiva enquanto subversivo cartunista do udigrudi, o que o tornou ícone desse período e das diversas tribos ali caricaturizadas. Suas críticas fincaram raízes em toda uma geração que até hoje repercute suas provocações. Se hoje temos uma produção de crítica política através do humor ácido e niilista, se tivemos uma produção beat em seu sentido original, Angeli fez parte disso. 

Abaixo uma fala do próprio Angeli, na 23ª Edição da Chiclete com Banana, quando ele já externalizava cansaço com frustração. Essa finalização demorou apenas uns 30 anos a mais para se efetivar…

batom sombra e água fresca angeli

* Professor de História Global e das Relações Internacionais, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, Mestre em Comunicação Social pela UMESP, Mestre em História Social pela PUC-SP, Doutor em História Social pela PUC-SP. Membro fundador dos Quadrinheiros e pesquisador de humor e política. Leitor de quadrinhos alternativos, mas nunca deixou de ser fã do Homem Morcego.

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Uma resposta para Nem sexo, nem dinheiro, só um texto mesmo: obrigado, Angeli

  1. Heude Suely disse:

    Parabéns pelo texto!

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