Seria o Superman um fascista?

Um comentário ao artigo e livro de Rogério de Campos.

A hipótese de que o Superman, e, por consequência, todos os super-heróis são fascistas sem dúvida é interessante. E não é ninguém menos que Rogério de Campos quem a sustenta em artigo publicado em 13 de abril para a Folha de S. Paulo, Fortão que bota ordem na casa, Superman é acusado de ser fascista há 80 anos, na verdade um excerto de seu mais novo livro Super-Homem e o Romantismo de Aço.

O artigo e o livro devem ser colocados no campo do ensaio. Ou seja, a hipótese ali levantada deve ser verificada e posta à prova, por mais tentador que seja simplesmente acatá-la.

Para responder à pergunta do início de seu texto, Como uma subcultura juvenil que parecia condenada ao desaparecimento transforma-se na cultura dominante do nosso tempo? Rogério de Campos conjura Alan Moore, autoridade máxima dos quadrinhos e dos quadrinhos de super-heróis, autor, juntamente com David Gibbons, da obra-prima que não só fez a mais contundente crítica aos super-heróis como também deu um novo fôlego ao gênero, Watchmen.

No trecho citado por Campos, Moore traz a ideia de que diante da dificuldade de entender a realidade complexa na qual se vive, o público volta-se aos universos ficcionais da Marvel e DC por oferecer um mundo ao menos inteligível. Para Moore, os super-heróis impedem que o nosso tempo desenvolva uma cultura própria, relevante, e que dê conta de responder às questões contemporâneas.

Ora, não é o objeto que cria a capacidade interpretativa no sujeito, mas este que o interpreta com base em seu repertório. Dito de outro modo, um objeto será tão simples ou complexo quanto o repertório de quem o interpreta. Um exemplo: posso ler o quadrinho Guerra Civil simplesmente como a repetição de um clichê clássico do gênero, a uma briga entre super-heróis, ou como uma alegoria para as questões entre liberdade e segurança que vieram à tona na sociedade americana sobretudo após o 11 de Setembro. Histórias de super-heróis – como qualquer obra de arte – permitem várias camadas de leituras e podem, sim, responder questões contemporâneas. Se super-heróis servirão como escapismo ou meio de compreender melhor a realidade que se vive, apenas o sujeito que os consome pode responder.

Rogério de Campos prossegue em seu texto inventariando todas as vezes em que o Superman foi acusado de fascista e/ou nazista: pela Igreja Católica, por Walter J. Ong, por Gershom Legman, pelo psiquiatra Fredric Wertham (responsável pela histeria anti-quadrinhos que tomou os EUA nos anos 50 e resultou no Comics Code Authority – a autocensura que regulou a produção de quadrinhos mainstream dos EUA até bem pouco tempo).

Wertham chegou mesmo a cunhar o termo “complexo de Superman”, para caracterizar o sadismo em punir o outro enquanto fica-se impune, lembra Campos. Porém, a pesquisadora Carol L. Tilley já demonstrou em alguns artigos que Wertham manipulou deliberadamente os dados utilizados em sua pesquisa para confirmar suas teses.

Adiante no texto de Campos há um breve inventário dos motivos pelos quais o Superman poderia ser chamado de fascista. Diz ele, as acusações mais constantes aos quadrinhos “[…] são de que naturalizam a violência como melhor forma de resolver problemas, inclusive os sociais, e, claro, de que há um autoritarismo intrínseco na ideia de ser preciso um homem forte para botar ordem na sociedade”.

Sem dúvida, se há uma constante nos quadrinhos do Superman e nos quadrinhos de super-heróis em geral é o apelo à violência. Até as questões mais simples podem – e com frequência são – resolvidas por meio da violência nas aventuras do Homem de Aço. Talvez essa seja a única constante em seus mais de 80 anos – ainda que amenizadas durante a Era de Prata e nem sempre presente.

Mas essa não é uma característica exclusiva dos quadrinhos de super-heróis. Há muitos fatores que atuam para a presença da violência no gênero super-heróis (como o apelo à ação), mas talvez o mais importante deles é que a violência está presente em obras fundantes da tradição ocidental, como a Ilíada, Odisseia e Eneida e não são poucas as histórias nas diversas mitologias que contém algum tipo de violência, como em A Epopeia de Gilgamesh e mesmo nos Vedas. A violência nas histórias dos super-heróis parece mais uma característica herdada de uma tradição que poderíamos chamar de épica, heroica ou mitológica do que propriamente um traço fascista. Esta visão, aliás, vai ao encontro de uma visão bastante comum nos estudiosos de super-heróis que os encaram como uma espécie de mitologia moderna.

É possível que haja de fato algo como um autoritarismo intrínseco na ideia de que é preciso um homem forte para botar ordem na sociedade. Mas autoritarismo não é fascismo, e é preciso dizer que quando o Superman – e os super-heróis em geral – age ele está legitimado pelos valores sociais vigentes – ainda que nem sempre pelas leis.

Na revista Action Comics #1 (1938) uma pessoa inocente está prestes a perecer sob a pena de morte e o Superman, em posse de provas para inocentá-la, avança implacavelmente quebrando diversas leis para chegar ao governador, único que pode barrar a execução. Note-se que o Superman poderia simplesmente ir até o local onde seria a execução e salvar o inocente, mas escolhe ir até o governador, que tem autoridade legal para fazê-lo.

Em Action Comics #12 (1939), após a morte de um pedestre, Superman inicia uma cruzada contra motoristas imprudentes, desafiando as autoridades e quebrando diversas leis. E o Homem de Aço é claro: motoristas homicidas responderão a ele. Superman está agindo contra a lei, mas em nome de um valor ético universal: a preservação da vida humana.

Outro argumento de Campos, diz ele que “[…] Também se apontou o desprezo pelas instituições criadas em torno do voto, o elogio das autoridades não eleitas (militares, policiais, juízes), uma rebeldia juvenil contra a desordem e a promoção de novas elites”.

Aqui há um problema. Sugere a leitura, se há o desprezo pelas instituições criadas em torno do voto, o Superman é fascista. Se há elogio às autoridades não eleitas, o Superman é fascista. Mas se há uma rebeldia contra a desordem, ela é juvenil, então o Superman é fascista! Parece que não importa o que o Superman faça, ele é fascista. Os exemplos acima mostram que a postura do Superman frente ao status quo é no mínimo dúbia. Isso se deve à natureza do personagem construída ao longo das narrativas desde seu surgimento.

Durante a trajetória do Homem do Amanhã as mudanças são mais constantes que as permanências, e isso torna qualquer análise do personagem fadada ao equívoco caso não se leve em conta sua historicidade.

Grant Morrison, célebre roteirista de quadrinhos, que teve a oportunidade de escrever o personagem diversas vezes, resumiu essa historicidade em seu livro Supergods. Nos anos 30 ele lutava contra a injustiça social (chegando até mesmo a afirmar que ele é um herói da classe proletária), nos anos 40 e durante a Guerra Fria transformou-se num patriota (o american way incorporou-se aos valores defendidos pelo personagem, junto com a Verdade e a Justiça) e nos anos 80 num yuppie. Morrison tentou resgatar os valores dos anos 30 na recente fase Novos 52 do personagem, sem muito sucesso. A atual versão nos quadrinhos é um Superman pai de família, mostrando não só o amadurecimento do personagem, mas também de seus leitores.

Diz Rogério de Campos que a própria escolha de Clark Kent como contraponto ao homem de aço diz muito: “[…] fraco, covarde, intelectual incapaz da ação, alguém que jamais resolveria qualquer problema, um homem comum. Pior que isso, Clark Kent é um homem que se submete à mulher.”

Aqui é retomado o filme Kill Bill vol.2 de Quentin Tarantino, onde o personagem Bill sustenta a ideia de que Clark Kent é a crítica do Superman à humanidade. Mas, se existe certo fundamento na afirmação, ela está ultrapassada. Há muito Clark Kent deixou de ser inseguro para tornar-se um profissional de sucesso, assertivo, e seu relacionamento com Lois Lane vai muito mais na direção de uma parceria entre iguais.

Campos afirma que mesmo a crítica ao Estado em várias dessas HQs seria de extrema direita, que “o Estado surge como vilão porque, dominado por fracos e covardes, impede os seres superiores de exercer seu poder livremente”.

Aqui vale o que foi apontado acima, mesmo agindo contra a leis, o Superman e os super-heróis em geral, agem de acordo com o princípio pelas quais foram criadas. Um exemplo simples: quando impede um assalto à banco usando de violência, a rigor, um super-herói está agindo contra a lei e ocupando o lugar de um Estado que não pode trazer segurança, ainda que esteja agindo para garantir vários direitos que o Estado não é capaz de garantir, como a segurança e a vida de seus cidadãos, a proteção à propriedade privada etc. Se fosse simplesmente uma questão de exercer o poder livremente, isso não ocorreria. Podemos dizer que o Superman está livre do Estado (afinal, a própria existência de um ser tão poderoso e querido pela população romperia o monopólio do uso legítimo da violência que o caracteriza), mas está preso aos valores sociais que o sustenta – e esses valores estão constantemente em mudança.

Em dada passagem, Rogério de Campos identifica o que chamou de “marketing autossustentável”, descrição para quando o mercado de quadrinhos promove super-heróis negros, gays, latinos ou super-heroínas como forma de escapar dessas críticas.

As soluções apontadas para tais acusações de fato conduziram a uma maior representatividade na indústria dos super-heróis e sem dúvida pode ser vista como um marketing autossustentável. No entanto, a importância de seus efeitos não deve ser menosprezada, como nos mostrou as diversas vertentes do movimento negro que assinalaram a relevância do filme do Pantera Negra.

Mas essa não foi a única solução concebida pela indústria. As críticas não afetaram a venda dos gibis do gênero, mas foram incorporadas. A resposta foi dada, também, nas próprias páginas dos gibis do Superman.

Em O Reino do Amanhã de Mark Waid e Alex Ross (1996) podemos ver o Superman exercendo seu poder como um soberano autoritário para manter a ordem, ainda que ao final da trama recue para dar lugar às instituições democráticas.

Já em Action Comics #9 (2012), com roteiro de Grant Morrison, numa história que se passa em um dos universos paralelos tão caros à DC e cheia de metalinguagem, Clark Kent, Lois Lane e Jimmy Olsen são os criadores do Superman. E sobre sua criação diz Lois Lane: “Tentamos imaginar um campeão, um redentor alimentado por pensamentos capaz de salvar o mundo. Um messias inventado.”

Mas então o trio decide vender sua ideia a uma corporação. E Lois Lane pondera que, nas mãos de equipes especializadas em vendas, símbolos e marcas, “montaram um anti-herói violento, problemático e sem rosto que escondia uma vida secreta trágica, um ícone de marketing global. Todo mundo usa sua marca. Faz as pessoas se sentirem parte de algo grande, novo e maneiro. O Superman ajuda eles a esquecer a realidade da vida banal, solitária e obediente que levam”.

Na história ainda há um Superman maligno que Lex Luthor – seu maior inimigo – ajuda a derrotar. É Luthor que desvenda esta versão maligna quando o encara: “É a essência bruta, a fera dentro do Superman. O menino presunçoso valentão fascista que sempre vi ali!”. Somente o maior inimigo do personagem poderia ter uma percepção tão clara do que há de pior nele.

Na mesma hq também é revelada qual seria a maldição do Superman: ele se torna qualquer coisa que se deseje. Morrison abordou nessa história diversas leituras possíveis para o personagem: um campeão, um redentor, um messias, um valentão, um fascista. E são possíveis justamente por conta de suas mudanças ao longo do tempo. Mais que recurso de roteiro, isso é a própria indústria assimilando e respondendo às críticas.

Seguindo no texto, Campos cita um documento da SS em que afirma a milícia enxergava o Superman como uma “imitação do nazismo”. Lendo o documento na íntegra pode-se notar que se a SS de fato percebia o personagem de Siegel e Shuster como inspirados pelos movimentos fascista e nazista, era como uma visão deturpada de seus ideais.

Campos ainda cita o pesquisador Chris Gavalier ao lembrar que o super-herói surge por causa do fascismo. “Sem Adolf Hitler,” cita Campos, “jamais o Super-Homem teria conseguido chegar à capa do Action Comics em 1938. […] Os super-heróis, paradoxalmente, defendiam a democracia com métodos antidemocráticos. Eram fascistas lutando contra fascistas”.

Não há referência sobre onde o pesquisador teria escrito essas palavras no artigo. No livro Super-Homem e o romantismo de aço são citadas duas obras, On the origin of superheroes – from the Big Bang to Action Comics n.1 (2015) e Superhero comics (2018). Em nenhum dos dois é possível encontrar a frase entre aspas. Há, no entanto, o parágrafo abaixo no segundo livro, páginas 101-102 (tradução e grifos meus):

“[….] Os super-heróis dos comics foram concebidos durante a ameaça do fascismo, alcançaram sua popularidade e expansão na guerra contra o fascismo, que começou a diminuir ao final daquela guerra e aos primeiros sinais de uma ainda distante vitória. Apesar desse tipo de personagem e a progressão de sua popularidade deverem ser compreendidos dentro de uma confluência de forças e fatores culturais, o paralelo com o surgimento e queda do fascismo provê uma perspectiva na concepção desse tipo de herói”.

Ainda que o pesquisador analise as raízes fascistas da criação dos super-heróis é preciso dizer que as relações levantadas são muito mais de correlação do que causalidade e mesmo o pesquisador reconhece que existem múltiplos fatores em jogo na criação do gênero, como destacado acima.

É possível, sim, encontrar traços fascistas na história do Superman e no gênero super-heróis. É possível também encontrar histórias pontuais e versões fascistas de personagens da e na indústria, como o clássico O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.

É a maldição do Superman. Ele é o que quisermos que ele seja. Mas esse querer não é pessoal, ele é histórico. O Superman e todo o gênero super-herói expressam de maneira ímpar os valores do contexto no qual estão imersos. Mas isso poderia ser dito de qualquer tipo de produção artística.

O que torna o Superman e todo o gênero super-herói único é sua longevidade. Observar como o mesmo personagem se atualiza, a dinâmica das permanências e mudanças, isso é o que torna esses personagens tão interessantes.

O Superman é fascista como cogita Rogério de Campos? Sim. Mas não mais do que um messias, um patriota, um yuppie ou um pai de família. E só o tempo poderá dizer o que será o Homem do Amanhã.

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Sobre Bruno "Nerdbully" Andreotti

Aficionado por super-heróis em geral desde a série do Batman estrelada por Adam West e mais ainda pela mídia na qual nasceram, os quadrinhos. Historiador e professor de História. Mestre em Ciências Socias e em Zen Nerdismo.
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4 respostas para Seria o Superman um fascista?

  1. Lair Amaro disse:

    Excelente texto! Eu acrescentaria, no âmbito das mitologias que empregam violência, a Bíblia judaico-cristã.

  2. Rapaz, que textaço hein? Adoraria ter algo a acrescentar, mas só me vejo aplaudindo de pé. É realmente difícil ser categórico em relação a um personagem de um meio que está em constante transformação. Nesse sentido, falar do Superman é como falar do James Bond.
    Pensando aqui comigo, será que, como a Beatriz Sequeira comentou naquela análise de Maus, esse tipo de análise mais “rígida” poderia ter algo a ver com uma certa dificuldade de se entender os quadrinhos como diferente da literatura pura e simples?

    • Bruno "Nerdbully" Andreotti disse:

      Ola, Henrí. Obrigado. Acho que no caso do livro e artigo do Rogério de Campos o problema está em criar uma dicotomia entre “quadrinho industrial” e quadrinho autoral, desvalorizando o primeiro. Nesse sentido, tem a ver com o texto da Beatriz quando ela aborda a questão da legitimação cultural que um determinado objeto possui ou não.

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