As tiras bergmanianas de Laerte Coutinho

Um cara é atingido de raspão por uma moto que passa rápido pelas ruas caóticas da cidade grande. Quando chega em casa ele se sente mal, cai de quatro no chão da sala e suas tripas despencam da barriga como se nada as segurasse. Lentamente ele vai se transformando em uma moto.

Essa cena é uma história em quadrinhos sem balões de texto que muito me impressionou. Arte e roteiro assinados por Laerte Coutinho, publicada na revista Chiclete com Banana nos anos 80 (não sei o número nem o ano exato, porque eu não “tinha idade” pra esse tipo de leitura, então eu lia escondido quando ia na casa dos meus primos).

A metamorfose daquela história me tomou de assalto a memória anos depois quando li Kafka, numa engenharia reversa que me fez começar a perceber as influências e as escolhas narrativas desse artista. A partir daí foi impossível não pensar nos Piratas do Tietê sem pensar na Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson, ou no Peter Pan de J. M. Barrie. Overman e todas as referências a clichês de histórias em quadrinhos de super heróis. Lola e os pintinhos e as Fábulas de Esopo, os Limeriques de Edward Lear e suas tiras nonsense. Os gatos e os casais neuróticos de Woody Allen no cinema.

Laerte (esq) e Woody Allen – Contos de Nova York (dir) – não confundam!

Aliás é no cinema que mais vejo o Laerte. Para além da narração da história, quadrinhos e tiras são imagens. Escolhas de enquadramento e iluminação, controle do tempo, sequência. Tiras em especial são um exercício interessante porque uma sequência de 3 quadros são um grande desafio pra experimentalismos estéticos. Funcionam sem dúvida para o humor gag, cinema mudo, pastelão ou o nonsense, mas não são assim tão simples para criar uma atmosfera narrativa noir ou expressionista.

Nos seus trabalhos mais recentes percebe-se que há uma busca por novas possibilidades e embora ainda faça com maestria a crítica aos costumes, o humor inteligente, a charge política, suas tiras mergulham na filosofia, no existencialismo, e se aproximam de autores como Federico Fellini, Andrei Tarkovsky e Ingmar Bergman.

Esse último parece uma fonte mais recorrente, não só pela forma (enquadramentos), mas principalmente pelos temas como Deus, o silêncio (a incomunicabilidade), o relógio (tempo), os casais, o espelho, as mulheres mais fortes que os homens. Bergman era um encenador teatral que fez cinema e televisão, e por isso ampliou as duas últimas por trazer elementos da primeira. Nesse caso as linguagens são próximas e a influência é evidente. Laerte, como Bergman, é um multi artista que incorpora todos os aspectos da sua vida no seu trabalho, do ativismo político à critica as ideologias, do trabalho como roteirista de tv à sua sexualidade. Ele renova as tiras por trazer suas experiências e suas referências pro papel e faz essa linguagem conversar com tudo, como um espelho da cacofonia contemporânea.

É claro que essa é a leitura que eu faço do trabalho do Laerte. Pode ser que ele tenha usados outras fontes ou que essa inspiração seja inconsciente. Mas eu gosto de pensar que ele faz esse passeio pela tradição narrativa, reciclando e reinventando, desde a charge de ativismo sindical, passando pelos limeriques e a literatura inglesa, o pulp americano, o cinema de arte, as fábulas, a crônica política, a arte contemporânea. Transformando tudo em quadrinhos, resumindo tudo isso numa sequência de poucos quadros, nos apresentando de forma certeira a cultura ocidental em drops diários.

Acompanhem o mestre – http://manualdominotauro.blogspot.com.br/

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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3 respostas para As tiras bergmanianas de Laerte Coutinho

  1. Fatima Barreto disse:

    Onde houver algo sobre o Laerte estarei ligada. Laerte é arte, mas é sobretudo uma usina que tenta fazer a sua parte ou seja: processar a existência do humano que nos resta. Fatima/Laguna/SC

  2. Pingback: Laerte – todas as narrativas em preto, branco e cinza | Quadrinheiros

  3. Pingback: Melhores posts até agora – 2 anos de Quadrinheiros | Quadrinheiros

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