Umberto Eco: cultura de massa e quadrinhos

Branco-525x340Como já indicamos várias vezes, quadrinhos são diversão pura. Sem frescura nem pré-requisito, quem lê, gosta porque… fala sério, é legal pra cacete e tem pra todo gosto, como filme de cinema, série de televisão ou jogo futebol.

E assim como time de futebol tem centroavante, meio-de campo, lateral e zagueiro, Quadrinheiros também buscam a taça, “com humildade, trabalho coletivo e a ajuda de Deus”. Enquanto os atacantes dão goleada, a zaga se organiza aqui. Olho no lance!

Quadrinhos, ou gibi, como você prefirir, é coisa dos últimos 150 ou 200 anos. Nesse tempo, as diferenças entre grupos “de elite” e “pobres” se reduziu como nunca antes (guarde suas pedras: isso é verdade se comparar ao que era a sociedade antes do século 18, quando as diferenças entre esses grupos eram muito mais demarcadas). As distâncias entre tudo e todos ficaram menores. Ficamos mais pertinhos uns dos outros – queira você ou não.

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O odor do progresso.

Além de revoluções, progresso técnico, democracia, bibibi e bobobó, um dos maiores responsáveis por essa “aproximação” foram os meios de comunicação de massa, incluindo os quadrinhos.  A ideia não é minha, mas de um cara legal, o italiano Umberto Eco, referência importante pra quem estuda “cultura de massa”.

Numa obra clássica chamada “Apocalípticos e Integrados”, ele fez um mapeamento dos aspectos positivos e negativos da cultura de massa, ou como ele se refere, “mass media”.

Na cabeça dele, ele tentou ser breve. Mas, de “a” até “o” (15 itens!), para Umberto Eco eram características negativas da mass media (e dos quadrinhos):

a) o direcionamento a um público heterogêneo, o que leva a evitar “soluções originais” para os produtos;

b) a destruição das características próprias de cada grupo nacional ou étnico;

c) o direcionamento a um grupo “incônscio” de si mesmo e que portanto não pode exigir nada para aqueles que produzem a obra;

d) a tendência da cultura de massa em oficializar tradições de estilo já consagradas sem causar renovações das sensibilidades;

e) a tendência a “entregar” emoções ao invés de incitá-las por meio da imitação (leia Aristóteles pra entender);

f) a inserção das obras artísticas num circuito comercial de oferta e demanda, ou seja, visando o lucro;

g) a “compressão” de conteúdos de modo a não provocar nenhum esforço do leitor, fazendo com que o pensamento seja resumido a “fórmulas”;

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“Grandes poderes trazem grandes responsabilidades?” Alguém discorda?

h) o nivelamento dos produtos da cultura superior (a fina arte, como a pintura ou as sinfonias) com outros produtos de entretenimento (como o gibi) no mesmo patamar;

i) o encorajamento de uma visão passiva e acrítica do mundo por meio da cultura de massa;

j) o “bombardeamento” de informações sobre o presente entorpecendo qualquer consciência histórica;

k) a composição da obra (em quadrinhos, inclusive) feita para o lazer, apenas para desempenhar o nível superficial das atenções e portanto uma obra que provoca vícios, como a absorção “epidérmica” de uma sinfonia, por exemplo;

l) a tendência da cultura de massa a impor símbolos e mitos de fácil universalidade com “tipos” prontamente reconhecíveis;

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Tipo o logo do Superman e do Batman

m) a tendência das obras em explorar apenas opiniões do senso comum, portanto funcionam como uma reafirmação do que já se pensa;

n) os conteúdos da cultura de massa se desenvolvem no mais absoluto conformismo, mesmo aparentando ausência de preconceitos;

o) seus conteúdos das obras são apresentados como instrumento educativo de uma sociedade de fundo paternalista. (ECO, 2001, pp. 36-39).

Sobre este último item Umberto Eco assinala que é um aspecto negativo da cultura de massa a sua aparência individualista e democrática, que assume modos exteriores de uma cultura popular, mas invés de crescerem espontaneamente de baixo, são impostos de cima e “[…] da cultura genuinamente popular não possuem nem o sal nem o humor, nem a vitalíssima e sã vulgaridade”. (ECO, 2001, pp. 40-43).

Ok. Vitalíssima.

Ok. Vitalíssima.

Depois de agredir o afeto mais sincero do fã de quadrinhos pelos seus gibis, Eco dá uma amenizada e chama atenção para tudo aquilo que ele acha de bom na cultura de massa.

Mais curtinho porque sabia que as pessoas tinham mais a fazer durante o dia, Eco apontou como aspectos positivos da cultura de massa:

a) a cultura de massa não é exclusiva ao regime capitalista, uma vez que na própria China de Mao “[…] as grandes polêmicas políticas se desenvolvem por meio de cartazes de estórias em quadrinhos” e que na própria União Soviética “[…] a cultura artística […] é uma típica cultura de massa, com todos os seus defeitos, entre os quais o conservantismo estético, o nivelamento do gosto pela média, a estrutura paternalista da comunicação dos valores.” (ECO, 2001, p. 44).

Ok, o livro foi escrito em 1972 e tinha umas ideias meio datadas (mas o barba tinha razão)

Ok, o livro foi escrito em 1972 e tinha umas ideias meio datadas – mas o cara tinha razão

b) a cultura de massa não destruiu uma “cultura superior”, mas apenas aproximou essa cultura daqueles que antes não tinham acesso a bens culturais (como ouvir Beethoven pelo rádio, por exemplo);

c) o aumento de informação, mesmo sob a capa do entretenimento, abre espaço para a possibilidade de formação (é nóis na fita);

d) apesar de criar bens culturais julgados de baixo valor (como os quadrinhos, revistas de sacanagem, lutas de UFC ou programas de TV que apelam aos instintos sádicos do grande público como Big Brother), a cultura de massa tem um valor positivo pois “[…] desde que o mundo é mundo, as multidões amaram os circenses” (ECO, 2001, p. 47) e é bom que as lutas de gladiadores tenham sido substituídas por formas de entretenimento menores;

e) a homogeneização do gosto pela cultura de massas contribuiria para eliminar as diferenças de casta e unir sensibilidades nacionais desenvolvendo “[…] funções de descongestionamento anticolonialista em muitas partes do globo” (ECO, 2001, p. 47);

f) a publicação de revistas em capa mole (os digests) permitem a divulgação de conceitos e obras culturais, como a Mona Lisa, a preços baixos;

g) apesar de “lesionar capacidades receptivas”, a cultura de massa também leva à institucionalização da crítica especializada, cujos produtos são eles também transformados em slogans.

Jovem Nerd, estamos olhando pra você

Jovem Nerd, estamos olhando pra você

h) apesar de oferecer um acervo de informações indiscriminado, a cultura de massa leva a uma maior sensibilização dos indivíduos a realidades externas às deles e os colocam como participantes de uma vida inter-associada. Facebook é o altar desse fenômeno;

i) não é verdade que a cultura de massa seja conservadora do ponto de vista do estilo ou da cultura, uma vez que introduz novos modos de falar, novas linguagens, novas gramáticas, e esquemas de percepção.

Para quem não conhece, Umberto Eco é autor, entre outros, de O Nome da Rosa. O livro virou um filme com Sean Connery em 1988. O italiano, por mais que pareça descer o pau na cultura de massa, é um tremendo entusiasta dos quadrinhos e conhece o assunto a fundo.

Dono de uma barba nervosona

E dono de uma barba nervosona

Para ele, os quadrinhos estão em vantagem ainda maior do que qualquer outra linguagem típica da cultura de massas. Diferente do cinema, do rádio ou da televisão, que colocam o espectador numa posição de passividade, os quadrinhos exigem uma “pró-atividade” do leitor. Afinal é ele que, por meio da direção dos olhos, rege a ordenação das cenas. É o leitor que dá o tom da voz dos personagens. É o leitor que regula as pausas entre os quadros. Por conta disso, diz Eco, é que os quadrinhos provocam um envolvimento maior, daí o seu sucesso.

Bom, tudo isso é uma exploração teórica, uma maneira de ver os quadrinhos. Ou você pode concordar que quadrinhos são legais pra cacete. Ponto.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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7 respostas para Umberto Eco: cultura de massa e quadrinhos

  1. fexbio disse:

    Já li dois romances dele. Se, para escrever literatura, ele afunda na pesquisa de uma maneira que poucos acadêmicos o fazem, imagine num trabalho acadêmico.

    Vou procurar por esta obra.

    • Luiz disse:

      Umberto Eco é muito melhor teórico do que escritor de ficção, especialmente no ramo da semiótica e teoria literária.

      • Velho Quadrinheiro disse:

        Preciso ler mais romances dele…
        Mas os livros teóricos são ótimos. Sempre caem como luva nos meus trabalhos.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Fexbio,

      considere que na escala do “academicismo”, Apocalípticos e Integrados tá no level advance plus, é bem cascudo. Mas não pior por causa disso.

      Um outro mais light dele é o Viagem à Irrealidade Cotidiana. Aborda quase os mesmos assuntos, mas bem mais suave. =]

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