The Dark Knight Rises e Occupy Wall Street: o sonho equivocado de Žižek

Slavoj Žižek é um intelectual pop. Sua mistura de marxismo com psicologia lacaniana dando pitacos sobre o futuro da esquerda e cultura de massa consegue agradar muitos intelectuais não só aqui como lá fora. Fiel a esse sucesso, o filósofo dispara uma crítica ao Batman: The Dark Knight Rises (TDKR), que você pode ler aqui. E ela é uma crítica absolutamente equivocada. (Daqui para frente há spoilers do filme… só avisando, porque qualquer leitor desse blog já deve ter visto pelo menos umas duas vezes o filme).

Žižek vê no caos causado por Bane em Gotham uma representação cinematográfica do movimento Occupy Wall Street (OWS), do povo no poder, da ditadura do proletariado etc. Na verdade essa ideia nem é dele, e sim de outro texto que você pode ler aqui.

Isso não é só equivocado, é um erro grosseiro. O OWS iniciou-se em 17 de setembro de 2011; já Nolan terminou o roteiro de TDKR em fevereiro de 2010, o início das filmagens foi em maio de 2011, encerrando-se em novembro do mesmo ano. Será que Nolan reescreveu o roteiro no set de filmagens vendo o movimento pela televisão? Pouco provável.

Mas vamos descartar a viagem no tempo feita por Žižek ou por Nolan. Vamos esquecer o OWS e pensar em como o povo no poder é mostrado no filme.

Žižek  afirma que tanto TDKR quanto os movimentos de emancipação radical foram incapazes de imaginar uma autêntica tomada do poder pelo povo; mas o problema do filme  está em reduzir essa tomada de poder a um ato de violência e horror homicida. De fato, os “tribunais do povo” vistos em TDKR remetem  ao Terror jacobino (faltou ou dormiu nessa aula de história? Azar).

Outra ideia interessante, mas que também não é de Žižek (que você pode ler aqui) é que o Coringa seria anarquista, pregando a destruição e o caos sem nenhuma direção, e Bane a vanguarda organizada que leva o proletariado ao poder. Assim Bane seria muito mais perigoso e letal, e por isso seria um adversário tratado com mais rigor. Curioso lembrar, aliás, que quem manda um balaço de canhão no peito do Bane é a Mulher-Gato. Na visão de Žižek ela é uma espécie de Robin Hood de Gothan… mas não me lembro exatamente dela distribuindo a riqueza como fazia o ladino de Sherwood… vocês lembram?

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Meios libertários levam a fins libertários, meios autoritários levam a fins autoritários.”, esclarecia a anarquista Emma Goldman.  Ela chamava atenção contra a falácia de dizer que anarquistas e marxistas almejavam o mesmo fim com métodos diferentes (aposto que você ouviu essa pérola em alguma aula de escola ou até mesmo na faculdade). Não é de se espantar que os métodos utilizados por Bane para dar o poder ao povo de Gotham, de acordo com Žižek, culmine em violência, uma violência vingativa e ressentida do povo contra seus dominadores. E pensemos: o que é a revolução se não a restauração do soberano? O povo oprimido agora quer oprimir.

Žižek termina o texto remetendo ao inconsciente freudiano, “o que importa não é um juízo negativo sobre algo, mas o simples fato que esse algo seja mencionado”, ou seja, o poder do povo. E pergunta “Por que sequer sonhar com o Occupy Wall Street culminando com uma violenta tomada de poder?”.  Questão colocada não para Nolan, que não poderia ter referenciado o OWS (a menos que tenha, de fato, viajado no tempo) e sim para Žižek. Então a pergunta é: Por que Žižek sonha em ver o OWS em TDKR?

A reflexão de Žižek sobre o poder do povo pode até ser interessante, mesmo com vários elementos vindos de outros autores (o que é a vida acadêmica?), mas colar isso ao OWS em TDKR é forçar a barra. Às vezes é melhor deixar Freud de lado e manter o princípio Vicente Matheus: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Não vamos confundir.

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Sobre Nerdbully

Mestre do Zen Nerdismo.
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13 respostas para The Dark Knight Rises e Occupy Wall Street: o sonho equivocado de Žižek

  1. Pingback: Mais louco do que o Batman (por culpa de Christopher Nolan e Slavoj Žižek)… | Contestações

  2. Pingback: O paradigma do morcego: Porque Batman é o melhor personagem de todos os tempos (por Tarcisio Gomes) | Quadrinheiros

  3. Evandro disse:

    Olá, Nerdbully. Resolvi prestigiar sua crítica que possivelmente teve acessos, mas aparentemente não motivou nenhum comentário, apenas indiferença. Ao contrário de você, eu não tenho relação apaixonada por nenhum personagem de ficção, tampouco por alguma história específica. Gosto de alguns personagens, gosto de algumas histórias, mas procuro separar o que é delírio e o que tem serventia. Penso que você sente como ofensa pessoal os ataques ao “establishment” de suas crenças, as verdades impostas por ideologias disseminadas pelos criadores ficcionais americanos, consciente ou inconscientemente imbuídos em preservar “o estilo de vida americano” – que nada mais é do que manipular todo o resto a fim de manter um padrão de vida “confortável” aos cidadãos daquele país. Minha discussão não tem interesse político, talvez mais filosófico. Embora tardia, minha leitura do artigo citado foi somente hoje, por sorte após ter assistido ao filme, coisa que fiz há poucos dias também. Não tive a mesma visão que você. Entendi que o autor procurou relacionar eventos à história, mas não condicionou a elaboração do roteiro ao OWS, por exemplo. Entendi que ele percebeu uma reação dos autores americanos (em especial no filme resenhado) que anteviu acontecimentos que eclodiriam posteriormente através da percepção aos movimentos sociais que já se manifestavam naquele país. Portanto, o que a história poderia sugerir – como é típico no cinema estadounidense, a preocupação em perder o controle sobre o pensamento alheio, conduzido há décadas em favor do interesse institucional (e não governamental) que visa beneficiar o “estilo de vida americano”. Há de se considerar que o cinema americano é feito para os americanos (América para os americanos), apesar de exportar o produto para o mundo inteiro, a intenção é exatamente essa: difundir e defender os interesses que permeiam toda e qualquer obra de nível comercial americana. A metáfora é clara durante a trilogia: o oriente condena o estilo de vida americano = terroristas; batman discorda e defende a bondade que existe em Gotham = povo americano (coitadinho). Vi vários comentários no artigo citado onde amantes do Batman defendem a virtude imaculada de Bruce Wayne, repudiando o argumento que ele é traficante de armas. Perfeito, ele pode não ser traficante para o inimigo, mas fabrica navios e aviões de guerra para o governo (vive e se retroalimenta do comércio armamentista). Quanto às atitudes humanitárias e escrúpulos, não passa de artifício ilusionista para amenizar a real fonte de riqueza, uma cortina de fumaça para esconder a fabricação e venda de armas, a especulação financeira, a exploração de capital baseada no mais forte sobre o mais fraco; um eufemismo para a fiel representação dos Estados Unidos. Ah, mas não é ele quem faz, é um sórdido e ordinário dirigente contrário à bondade dele. Bullshit.

  4. Nerdbully disse:

    Então, a minha crítica ao Zizek é justamente o fato de ser anacrônico, querer imputar ao filme algo que simplesmente não está lá. Segundo você, o Zizek “percebeu uma reação dos autores americanos (em especial no filme resenhado) que anteviu acontecimentos que eclodiriam posteriormente através da percepção aos movimentos sociais que já se manifestavam naquele país”. Uma coisa é você fazer uma analogia, um paralelo etc. mas se vc voltar ao texto do Zizek verá que trata sim o filme como se falasse diretamente ao OWS. A própria pergunta que ele faz ao final, pergunta que retomo no texto, mostra isso.

    Se quiser há outros textos meus sobre o Batman aqui: https://quadrinheiros.wordpress.com/2013/03/09/destruindo-classicos-o-cavaleiro-das-trevas-de-frank-miller-parte-1-o-fascismo-do-cavaleiro-das-trevas/ e aqui https://quadrinheiros.wordpress.com/2012/11/25/batman-um-problema-social-ou-mental/ . É sempre bom um debate.

    De mais vejo que você embarcou na máquina do tempo do Zizek ou do Nolan. Mande minhas lembranças ao Marty McFly.

    • Evandro disse:

      Hahaha… meu Delorean tá lavando agora, mas assim que eu pegar te convido para dar uma volta. Bom, de fato ele deu uma escorregada no final e forçou uma ligação que não deve ter sido previamente planejada – o plot com o evento OWS. Ainda assim compreendo o teor dos argumentos dele no sentido que expus antes: os movimentos sociais estavam latentes e já eram percebidos. Esses caras não são bobos. Sem suscitar uma teoria conspiratória (deixo isso para os americanos), entendo que o papel do cinemão estadunidense é manter a ordem das coisas “como devem ser”. Essa indústria sempre serviu a tal propósito e sempre com eficiência. O audiovisual aplicado desta forma é perfeito para seguir a cartilha da lavagem cerebral. De certa forma, teve êxito e abafou sequência nas manifestações. Se bem que nos EUA não precisa muito para convencê-los de que a melhor e mais democrática forma de governo acontece lá: eles mandam e o mundo obedece. Não conheço a fundo o autor, admito, mas o que sei é que se trata de um pensador fora do padrão robotizado, que utiliza recursos midiáticos populares para atingir massas. Ele tem uma visão exagerada? Talvez, mas ao despontar como uma liderança pensante, oriundo de um cenário desfavorável e ainda conturbado como o país dele, se não tiver polêmica e contundência, não será ouvido. Certos argumentos são estratégias retóricas para chegar a uma visão mais ampla. OK, eu viajo também. Mas fico incomodado ao ver a manipulação que os EUA exercem, especialmente seduzindo a juventude. Eles são mestres, é fato. Tudo é encenação, um grande musical, um filme de espionagem, um faroeste. Quanto aos artigos, li por alto o do Frank Miller (discordo alguma coisa mas não é suficiente para um debate, rs) e li com mais atenção o segundo. Aparentemente, e fiquei satisfeito com isso, você não é um defensor inglório “da verdade, justiça e estilo de vida americano” como se vê em outros HQ fans radicais por aí. É bom trocar ideia com quem pensa e se expressa coerentemente. E a tirinha é muito boa, rs.

  5. Nerdbully disse:

    Como disse, é sempre bom um debate. Apareça sempre.

  6. Michele disse:

    Olá!
    Acho interessante o debate inserido aqui, questionar o que parece ser legitimado enriquece aqueles que se propõe a pensar… Concordo plenamente com Evandro e acho muito legitima a crítica deste blog, entretanto, gostaria de pontuar uma ressalva. O que a principio parece lógico, – que Nolan teria de viajar no tempo para fazer referência aos acontecimentos ocorridos simultaneamente, no caso o OWS, pelo simples fato do roteiro ter sido finalizado meses antes – na realidade, não é e por uma questão simples: o forma de produção de um produto audiovisual. Primeiramente, é mais do que comum um roteiro ser modificado por n motivos que surgem durante as filmagens, seja por falta de verba, seja por falta de tempo, ou até mesmo para modificar uma ideia ultrapassada. Além disso, filmes não são, nem nunca serão, os seus roteiros pura e simplesmente, eles são compostos por toda a estética fomentada pelos demais departamentos (fotografia, arte – figurino, cenário e maquiagem -, desenho de som, edição, etc.), a junção de todos esses elementos dão força e fazem do cinema meio de reprodução muito complexo e manipulativo (muito atrativo também). Se focarmos especialmente na edição, a produção fílmica e a sua análise feita acima ficam bem mais complicadas, pois um filme pode mudar completamente em relação a sua forma original (idealizada no roteiro) quando se trabalha em uma ilha de edição ou em uma moviola (por sinal, já ouviu falar em efeito kurleshov?). Enfim, este comentário não tem o objetivo de deslegitimar a sua argumentação em relação à crítica de Zizek (reiterando o que eu afirmei no início do comentário, acho muito válida a sua postura contrária ao que este filósofo contemporâneo afirma), apenas venho ressaltar que pode ter ocorrido diversas mudanças que nós, espectadores e consumidores, nem imaginamos e que, dificilmente, no meio cinematográfico o que se conclui em produto é exatamente o que foi pensado de ante-mão (no roteiro, por exemplo), quem dera se fosse.

  7. Nerdbully disse:

    Michele, obrigado pelo comentário. Entendo tudo o que você colocou, e é plenamente pertinente para a discussão sobre filmes em geral, mas não foi o que aconteceu no caso no TDKR, aqui está o script original: http://www.imsdb.com/scripts/Dark-Knight-Rises,-The.html

    Tem acompanhado o blog?

    Abraços.

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