Star Trek Countdown: o futuro passado em quadrinhos

Espaço, a fronteira final.” Desde 1966, na exibição do 1º episódio de Star Trek, essas palavras apontavam uma direção pra imaginação. Era o espaço, o “não-lugar” sem fronteira, o destino “final” da nave estelar Enterprise. 43 anos depois, na direção de J.J. Abrams no cinema, a audaz tripulação da Frota Estelar voltou à ativa, rejuvenescida e ansiosa pelo desafio.

O destino era o mesmo. Mas ele já tinha sido explorado e cartografado minuciosamente por vários capitães, oficiais e naves diferentes. Se o espaço era o destino, o futuro estava no passado, em dezenas de filmes, séries e livros.

Mas foram os quadrinhos, e nenhuma outra mídia, que revelaram, como um mapa de navegação, a ligação entre o passado (futuro) e o futuro (passado) de Star Trek. E quase ninguém sabe disso.

Meses antes da estréia do 11º filme de Star Trek no cinema em 2009, a editora americana IDW publicou uma série de 4 edições chamadas Countdown que narravam o que antecedeu ao início do filme.

Nelas  é a tripulação da Nova Geração, liderada por Jean-Luc Picard, que estão às voltas com o-ainda-não-vilão Nero. Este, é revelado, era um simples minerador romulano que assistiu seu planeta ser obliterado pela explosão de uma estela vizinha a Romulus, tudo após a omissão de Vulcano e da Frota Estelar em impedir o desastre.

As tensões diplomáticas entre a Federação, Vulcano e Romulus diante da catástrofe são os temas e cenário de Countdown. Ambientada alguns anos após o último filme com a tripulação da Nova Geração (o incômodo Star Trek: Nêmesis, de 2002), a série mostra a evolução daqueles personagens: o androide Data como o novo capitão da Enterprise E; o engenheiro Geordi LaForge, criador da Jellyfish (nave usada por Spock); o agora general klingon Worf; o embaixador da Federação em Vulcano, Jean-Luc Picard e seu colega de ofício em Romulus, o veteraníssimo Spock.

Diferente de muitos quadrinhos de Star Trek, Countdown é narrativamente densa. Ao retratar os personagens e situações é fiel aos melhores momentos da série. Spock, consistente com os cânones de todos os filmes e séries, é um militante da reunificação entre Vulcano e Romulus, algo como um diplomata da OTAN na Palestina defendendo a paz com Israel. Picard, igualmente, é um austero pacifista, que usa sua reputação como capitão da Frota para impedir o massacre de Nero e seus companheiros pela defesa planetária de Vulcano.

Pra quem gosta, Countdown é um prato cheio. É esmerada em detalhes saborosos para fãs, como a evolução das naves, insígnias, uniformes, protocolos e referências. É elegante ao narrar uma “mera” ficção científica com cuidado e respeito. É trágica pois mostra um desfecho inevitável daquele que não passa de um herói injustiçado, Nero (interpretado ingloriamente por Eric Bana no cinema).

Importante lembrar, Countdown é fruto de Roberto Orci e Alex Kurtzman, os roteiristas do filme de 2009 e trekkers xiitas, do tipo que usavam uniformes da Federação em convenções.

Star Trek, além de uma franquia, um produto de extração de consumo e lucro, tornou-se uma narrativa sólida, um campo bem estabelecido do imaginário social dos últimos quase 50 anos.

A natureza episódica da série, que acumula preceitos e cânones (mesmo que sejam bem flexíveis no caso da fantasia científica), exige um ritual de rememoração, que inclui os novos espectadores e os exime de conhecer minúcias das histórias passadas (daí todo filme ou episódio repetir a mesma frase “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”…).

O cinema, com seus efeitos e cores, é o campo da experiência visual do espaço,  “a fronteira final”. Os quadrinhos ganharam a função de campo sensorial do tempo, que preserva e une o futuro passado, In illo tempore ab origine  (“naqueles dias do passado”, como diria Reinhardt Kosseleck).

De seu estaleiro, em órbita estacionária acima de São Francisco, a nave estelar Enterprise partia rumo ao espaço profundo e desconhecido. Deixou para trás, para aqueles que zelam pela memória, o destino de seu futuro.

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Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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