O Incrivel Hulk, Mr. Hide e Frankenstein – ciência e religião

Uma possível leitura psicológica do estranho caso do Dr. Bruce Banner poderia ser:

Uma agorafobia, consequência do descontrole da ansiedade que pode levar a crises de pânico e consequentes ataques de fúria descontrolada. As sensações de perseguição, de estar sendo manipulado consolidam um comportamento paranoico que distorce a realidade. Qualquer abordagem terapêutica pode levar o paciente a um quadro de estresse que resultará em descontrole e fúria. Recomenda-se extrema cautela.”

Mas essa análise psicológica não é tudo o que se pode tirar do personagem. Na sua criação conviviam abordagens internas e externas, existenciais e universais, ciência e religião.

ÍndiceUma das inspirações de Stan Lee para a criação do personagem é o livro – O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – de Robert Louis Stevenson (1886). Com várias adaptações para o cinema, esse clássico da literatura passou a fazer parte da cultura pop desde o seu nascimento. Apareceu em vários desenhos animados (Pernalonga, Tom e Jerry e mais recentemente em Monster High) e séries de TV como a premiada Jekyll (do mesmo roteirista de Dr Who – Steven Moffat).

 

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1373141498_tumblr_lux568VDNT1r2sj20o1_500Outra fonte é o também clássico da literatura de terror – Frankenstein ou o Prometeu Moderno  – de Mary Shelley (1818), que também foi uma das primeiras historias a compor o cânone da cultura pop no século XX. Teve adaptações para o cinema, aparições em desenhos animados, quadrinhos, séries de TV e, mais recentemente, no teatro numa peça de Danny Boyle (de Trainspotting e Quem quer ser um milionário?) com Benedict Cumberbatch no papel do monstro (muito elogiado e provável escolha de Gillermo Del Toro para seu futuro filme Crimson Peak baseado no livro de Shelley).

Os dois livros estão diretamente ligados as transformações históricas do século XIX. É evidente que Stevenson se inspira em Mary Shelley para escrever a história do Médico e o Monstro, mas enquanto a abordagem de Shelley é mais filosófica (fazendo referência ao mito de Prometeu), a dele é mais psicológica.

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O Dr. Victor Frankenstein dá vida a uma criatura, mas através dos avanços da ciência (que inadvertidamente o iguala a Deus). Seu filho/monstro o persegue matando todos ao seu redor até que seu criador morre. Assim como Prometeu (o semi-deus que roubou o fogo dos deuses para dar aos homens) Victor é punido por fazer o que só os deuses poderiam fazer, “soprar vida” sobre a ausência de vida. A motivação dele é o avanço da ciência e portanto o bem comum.

Em 1818, as cinzas da Revolução Francesa ainda crepitavam. Os reis escolhidos por “vontade divina” foram arrancados do trono sob os gritos de multidões rancorosas. “Deus” perdia seu lugar em nome de uma nova fé: a ciência. A ciência passa a ser a nova promessa de emancipação do homem, e Mary Shelley faz a sua advertência.

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De meados do século XIX em diante, auge da Revolução Industrial, a ciência assume o lugar de dogma e sentencia: o homem não foi criado por Deus a partir do barro (A Origem das Espécies, Charles Darwin, 1859), Deus está morto (A Gaia Ciência, Friedrich Nietzsche, 1882), a religião é o ópio do povo (Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Karl Marx, 1843). A velha relação do homem com Deus passa a ser secundária. Em seu lugar o que importava era investigar a relação do homem com ele mesmo (existencialismo, psicologismo) para superar aquilo que nos torna fracos até emergirmos como super homens (Übermensch).

Stevenson nos adverte sobre esse novo mundo, nos apresentando um homem da ciência que cria uma formula que divide sua personalidade. Todos os seus impulsos agressivos/lascivos/maus ficam presos nessa segunda personalidade (Mr. Hide), até que a sua personalidade principal (Jekyll) perde o controle e sucumbe.

tumblr_mpcc527a9W1rx5px6o1_500Em O Incrível Hulk os dois pólos dessa identidade (controle/descontrole) estão presentes.  O controle das emoções, a ansiedade e os ataques de fúria são mais evidentes para nós leitores do final do século XX [o traço de um Kirby, Buscema, George Perez, McFarlane também ajudam]. As investigações a respeito do EU e as tentativas de controle (normalidade) através da ciência (médica/farmacológica) são parte do nosso cotidiano e quase não são mais questionadas. Já os excessos da ciência, o bem comum e os perigos de se igualar a Deus são temas menos candentes  nesse nosso mundo cada vez mais individualista, mas aparecem mais claramente quando sabemos que o personagem é católico.

hulkeO jornal do Vaticano publicou recentemente uma reportagem sobre qual seria a religião dos super heróis dos quadrinhos. Baseado num site sobre quadrinhos que aponta a prática religiosa dos heróis, o L`Osservatore Romano mostra que o Hulk dos Vingadores da linha Ultimate segurava um terço e que na linha principal a personagem Betty Ross abandona o convento e se casa com Bruce Banner numa cerimônia católica.

É interessante pensar que o Banner é um personagem torturado, que através da ciência põe para fora o seu monstro interior (assim como o Dr. Jekyll de Stevenson), mas ao mesmo tempo se arrepende (culpa católica) e tenta fazer o bem (seja como Dr. Banner, seja como o Hulk). É como se seus atos heroicos compensem todo o mal que fez ao brincar de Deus, uma forma de expiar pecados. O catolicismo do cientista é uma forma de buscar a redenção já que essa religião prega que a confissão e o arrependimento são os únicos meios necessários para a salvação.

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Exagero? Isso foi deliberado ou um ato falho dos nossos tempos?

Tente acompanhar a cronologia do personagem e se deparar com Betty Ross, amor da vida do “herói”. Recentemente ela foi transformada em She-Hulk. Difícil se esquivar dessa: a referencia iconográfica é muito próxima a uma diaba, lembrando que ela havia quase se tornado freira e que no imaginário católico a mulher tem um caráter dualista, a “virgem mãe” ou a “Eva” pecadora e desencaminhadora de beatos.

Para finalizar um encontro clássico entre Hulk e Thor (na série de TV do Hulk) que serve como um crash course das relações históricas entre a Igreja Católica e as religiões pagãs.

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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7 respostas para O Incrivel Hulk, Mr. Hide e Frankenstein – ciência e religião

  1. Essa questão de personalidades distintas dentro de uma mesma pessoa sempre me intrigou (levando-me até a escolher aleatoriamente o tema “Transtorno Dissociativo de Identidade” em um trabalho na faculdade, mas isso é outra história…). Confesso que o Hulk sempre foi o personagem que eu menos admirei no Universo Marvel, mas a ideia na qual ele foi baseado, todo o conflito mental envolvido, o bem, o mal, o “mal” que luta pelo bem, é algo extremamente interessante. Acho que até podemos considerar que uma personalidade que assume o controle sobre a outra em determinadas situações é uma fórmula já ultrapassada, muito utilizada, mas se esse conflito bondade x maldade, religião x ciência, Sentinela x Vácuo (hein? rs), continuar a inspirar boas histórias, ele será sempre bem vindo.

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