Cinco pensamentos de Jack Kirby sobre a Marvel, arte e narrativa

Porque nem tudo saiu da cabeça do Stan Lee.

Para quem acha que Stan Lee é o gênio indomável por trás do império cultural que a Marvel se tornou nos dias de hoje, fundamental lembrar do “pai” do Capitão América, Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Thor, Hulk e tantos outros heróis, o verdadeiro e legítimo rei dos quadrinhos, Jack Kirby.

Em meados de 1989, pouco depois de um acordo jurídico sigiloso com a Marvel pelos direitos autorais de milhares de páginas originais, Jack Kirby concedeu uma longa entrevista para Gary Groth para a edição n. 134 de The Comics Journal (TCU). Republicada em The Comics Journal Library vol. 1 (Seattle, 2002), o “Rei” revelou muito da sua juventude, dos seus ressentimentos, das influências e, importante lembrar quando o filme Vingadores Ultimato quebra recordes de sucesso, cinco razões para criar alguns dos heróis mais conhecidos de todo o planeta.

 

 

1. Lembrando da infância barra pesada em Lower East Side de Nova York e o Capitão América (p.21):

TCJ: O que é uma ‘luta escalada’?

Kirby: Uma luta de ‘escalada’ é onde você escala um prédio. Você sobe escadas de incêndio. Você sobe até o topo do prédio. Você luta no telhado, e você luta todo caminho abaixo de novo. Você luta pelas escadas de madeira, sabe? E, claro, eu não ganhava todas as brigas. Você lutava limpo. Se o outro cara quer lutar e você nocauteava ele, você fazia o melhor por ele depois. Você não ia mais machucá-lo. Houve uma vez que eles me nocautearam e me colocaram sentado na porta da casa da minha mãe. E pra não assustar ela, eles ajustaram meu casaco e esticaram os amassados da roupa e eu parecia muito confortável ali sentado na porta, então quando minha mãe abrisse a porta não ia ficar tão chocada.

TCJ: Você apanhou até ficar inconsciente?

Kirby: Bem, sim. […]

TCJ: Você era como o Capitão América.

Kirby: Sim. O Capitão América tentaria lutar com dez caras. Aí falei, ‘Como você luta com dez caras?’ As lutas [na revista do] Capitão América  eram muito sérias. Se você olha com atenção, elas são lutas reais. Eu diria, ‘O que acontece com este cara enquanto o Capitão luta com os outros quatro?’ E eu percebi que é como um ballet. Seria mesmo como um ballet. […]

 

 

2. Sobre Hulk (p. 39)

 TCJ: O próximo personagem foi o Hulk. Você pode falar um pouco sobre seu envolvimento na criação do Hulk?

Kirby: Eu criei o Hulk quando eu vi uma mulher levantar um carro. O bebê dela ficou preso embaixo d paralama de um carro. A criança estava brincando num bueiro, indo para calçada e ficou presa no paralama. A mãe ficou horrorizada. Ela olhou do vidro de trás do carro, e essa mulher desesperada levantou a traseira. De repente percebi que no desespero todos nós podemos fazer isso – podemos derrubar paredes, podemos enlouquecer, o que de fato fazemos. Você sabe o que acontece quando estamos em fúria – você pode despedaçar uma casa. Eu criei um personagem que fazia tudo isso e chamei de Hulk. Eu o inseri em várias histórias que estava criando.

Tudo que o Hulk era naquele começo veio daquele incidente. Um personagem, pra mim, não pode ser contido. Eu não gosto de personagens comportados. Eles têm que ter um elemento de veracidade. Aquela mulher me provou que a pessoa comum em circunstâncias desesperadas pode se transcender e fazer aquilo que normalmente jamais faria. Eu já fiz. Eu dobrei aço. 

 

3. Sobre o Pantera Negra (p. 41):

TCJ: Como você inventou o Pantera Negra?

Kirby: Eu bolei o Pantera Negra porque percebi que não tinha nenhum negro nas minhas histórias. Eu nunca havia desenhado um negro. Eu precisava de um negro. De repente eu descobri que tinha muitos leitores negros. Meu primeiro amigo era negro! E lá estava eu os ignorando porque estava pensando em todo mundo fora eles. De repente me veio à tona – acredite, foi por razões bem humanas – eu percebi que ninguém estava desenhando heróis negros. E lá estava eu, um dos principais cartunistas, sem fazer um herói negro. Eu fui o primeiro a desenhar um asiático. Aí me dei conta que havia uma ampla variedade de diferenças. Lembre-se, no meu tempo, desenhar um asiático era desenhar o Fu Manchu – este era o único asiático que eles conheciam. Os asiáticos eram astutos…

 

4. Sobre Thor (p. 45)

TCJ: Na verdade há mais um personagem que eu penso sobre, que é o Thor. Sua passagem pelo Thor foi um período incrivelmente imaginativo, que durou vários números.

Kirby: Sim. Eu adorava Thor porque eu eu adorava lendas. Eu sempre adorei lendas. Stan Lee era o tipo de cara que nunca saberia nada sobre Balder e sobre o resto dos personagens. Eu tive que construir a lenda do Thor nos quadrinhos.

TCJ: Toda a Asgard.

Kirby: Sim, toda a companhia Asgardiana, sabe? Eu construí o Loki. Eu apenas entendo o Loki como o vilao clássico e, é claro, todos os demais. Eu até inseri um pouco dos Três Mosqueteiros. Tirei eles de figuras Shakespearianas. Combinei Shakespear com os Três Mosqueteiros e criei este trio de amigos que complementavam o Thor e companhia – pequenos passos criativos assim..

 

5. Sobre o início da Marvel (p. 42)

TCJ: Havia uma sensação de excitação durante aquele período que a Marvel estava começando a decolar?

Kirby: Não, não havia excitação. Era uma sensação horrível, uma atmosfera mórbida. Você pode até achar excitante este tipo de atmosfera – a excitação do medo. A excitação do, ‘O que vamos fazer agora?’. A excitação do que está além. E esta é a excitação que sempre existiu neste meio. O que eu vou fazer agora que não vou fazer mais nada para esta editora? Eu posso ir pra outra editora. Eu tenho que ganhar a vida.

TCJ: É uma ‘excitação’ nascida do desespero.

Kirby: Aquilo era desespero, mas um desespero criativo. Era desespero criativo porque quando alguém realmente começa a pensar, e claro que isso me remete à criação do Hulk e à história da mulher que levantou um carro. Se você quiser, pode levantar um prédio. Não digo que você pode, nem digo que você deve ficar com hérnia, mas não elimino a chance de que, se você encontrar o nicho certo, possa levantar um prédio. Talvez não muito. Talvez um centímetro acima do chão. Talvez não seja um prédio muito grande, mas você consegue.

Eu vi a humanidade fazer tudo. Eu acho que o homem é o tipo de animal que é capaz de fazer qualquer coisa, seja boa ou hedionda, seja ela fácil ou horrivelmente difícil.

Além dos trechos da entrevista destacados, lá estão inúmeras outras opiniões de Jack Kirby sobre uma série de acontecimentos fundamentais na história dos quadrinhos. Mas acima de tudo, a entrevista tornou-se célebre especialmente por deixar claro o ressentimento que Kirby sentia por Stan Lee ao dizer com todas as letras que nunca viu Lee escrever uma linha sequer das histórias dos heróis da Marvel (p.37).

Sempre bom lembrar, a história reside entre as memórias diferentes sobre um mesmo fato. E o fato é que Jack Kirby ajudou a transformar o que pra ele não passava de uma expressão estritamente americana em um fenômeno global de convergência cultural.

Para encerrar, ao comentar sobre belas artes e os quadrinhos (p.22), diz ele:

Kirby: Eu aprendi sozinho como desenhar, e logo descobri o que eu realmente queria fazer. Eu não achava que ia criar nada grandioso, obras de arte como as de Rembrandt ou Gaugin. Eu pensava que quadrinhos era uma forma como de arte e estritamente Americana na minha avaliação, porque a América era a terra do homem comum, e me mostre um homem comum incapaz de desenhar um quadrinho. Assim quadrinhos são uma forma de arte americana que qualquer um pode fazer com um lápis e um pedaço de papel.

TCJ: É uma arte democrática.

Kirby: É uma arte democrática. Não é uma arte formal. Eu sinto que um artista formal nunca termina seu trabalho, porque nunca fica perfeito pra ele.

TCJ: Você não acha que encontrou um tipo de perfeição no seu próprio trabalho? 

Kirby:  Sim, eu encontrei. Alcancei perfeição, meu tipo de perfeição – narrativa visual. Narrativa visual é meu estilo. Como artistas, mas não como um auto-proclamado grande artista, apenas um homem comum que trabalhou uma forma de arte que agora é universal. […] 

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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