O Capitão América de Ta-Nehisi Coates

O aclamado roteirista do Pantera Negra, agora escrevendo o Sentinela da Liberdade!

Para quem acompanha os quadrinhos de super-heróis nos Estados Unidos a semana passada trouxe edições marcantes. Ou ao menos deveria.

Na DC, tivemos  Batman #50 por Tom King, que tinha a promessa de trazer o tão aguardado casamento do Batman com a Mulher-Gato, que, como você deve saber, não aconteceu, e também a conclusão da minissérie Man of Steel, que marcou o início da fase de Brian Michael Bendis com o Superman, também sem grandes surpresas ou revelações.

Na Marvel tivemos a estreia de Ta-Nehisi Coates à frente do título do Capitão América numa data muito significativa, a independência dos Estados Unidos, único título que merece realmente destaque.

Coates estreou como roteirista de quadrinhos em 2016 quando assumiu o título do Pantera Negra. Embora não tivesse escrito quadrinhos antes, sua obra já o gabaritava para escrever o personagem que traz consigo uma grande carga política: jornalista e escritor renomado e premiado, militante em campanhas por reparações históricas para os afro-americanos, considerado um dos mais importantes comentaristas sobre questões raciais nos Estados Unidos. Assim como o Pantera Negra, é impossível dissociar o Capitão América de questões políticas, e é isso que o título traz de melhor.

Ta-Nehisi Coates

É interessante como Coates o Capitão:

O Capitão América começa como Steve Rogers – um homem com o coração de um deus e o corpo de um fracote. O coração e o corpo são alinhados por meio do Soro do Super-Soldado, que transforma Rogers no ápice físico da espécie humana. Como Capitão América, Rogers se torna a personificação do ideais igualitários de seu país – um Horatio Alger que graças à sua bravura e às maravilhas da ciência torna-se um herói nacional.

Horatio Alger foi um escritor americano que fez muito sucesso por suas narrativas monotemáticas para jovens adultos. Há inclusive um termo chamado Horatio Alger myth que descreve a essência dessas narrativas: um garoto adolescente trabalha duro para sair da pobreza. Muitas vezes não é exatamente o “trabalho duro” que o tira da situação, mas um ato de extrema honestidade ou bravura, basicamente personificando uma ideia tão cara aos Estados Unidos, a do self made man, expressão cunhada por Benjamin Franklin, considerado um dos Pais Fundadores da nação americana, para designar aquele que vence por meio de seu caráter honesto e trabalho duro.

Para Coates, o Soro do Super-Soldado apenas deu à Steve Rogers os meios para tornar-se o que ele já era em essência.

Prossegue Coates:

Ele [o Capitão América] é um “homem fora do tempo”, um emblema ambulante de propaganda da “greatest generation” trazido à vida nesse tempo pós-moderno fraturado. Portanto, O Capitão América não está atrelado à América como ela é, mas a uma América imaginária do passado. 

O termo greatest generation foi criado pelo escritor Tom Brokaw para designar a geração que cresceu em meio à Grande Depressão criada pela quebra da bolsa de Nova York e lutou na 2ª Guerra Mundial. No imaginário norte-americano, essa geração está ligada à valores como responsabilidade, humildade, ética no trabalho, prudência e comprometimento frente à Nação. Essencialmente uma geração que nunca existiu como tal, tão anacrônica à América de Donald Trump quanto Steve Rogers, que a personifica.

Não por acaso, o primeiro inimigo do Capitão América no quadrinho é um grupo formado por pessoas que lutavam contra a dominação da HYDRA sobre os Estados Unidos (que acontece na saga Império Secreto, atualmente sendo publicada no Brasil) com a imagem da bandeira estampada em seus rostos, mas que se rebelam contra a população, marcando o estado de confusão que o país se encontra.

O fato do próprio Capitão ter sido revelado como comandante supremo da HYDRA durante a saga (obviamente não sendo o verdadeiro Steve Rogers) mostra a nação perdida, que não pode confiar mais em seu maior herói, como também não pode confiar em seu presidente.

Coates ainda recupera uma citação do Capitão América em Daredevil #233, escrita por Frank Miller em 1986, momento em que os Estados Unidos passavam por uma crise em seus ideais na Era Reagan e às vésperas do fim da Guerra Fria:

Eu não sou leal a nada, exceto ao Sonho

O sonho americano é uma espécie de ethos idealizado da nação, definido por James T. Adams em seu livro The Epic of America (1931) como o sonho de uma terra onde a vida deveria ser melhor, mais rica e mais repleta, com oportunidade para todos, onde qualquer pessoa poderia desenvolver sua capacidades e ser reconhecida por isso, independentemente do nascimento ou posição social.

Lembremos que no passado distópico de Watchmen, o sonho americano estava realizado em meio ao caos, de acordo com Alan Moore por meio do Comediante, e essa é a pergunta que se faz Coates: por que alguém acreditaria nesse sonho? Para ele, o Capitão traz consigo uma espécie de otimismo que encontra eco em Abraham Lincoln, talvez evocando a capacidade do líder em manter a nação unida e seu caráter reconciliador.

Juntamente com toda essa carga política, temos também a ação frenética que caracteriza o gênero super-herói e também a promessa de um grande antagonista na organização Power Elite. Brian Michael Bendis afirmou em uma entrevista que ao escrever uma história, é a própria história que deve vir em primeiro e a “mensagem” deve estar em segundo plano, mas as melhores são as que têm as duas coisas.

Por esse critério o Capitão América de Ta-Nehisi Coates tem tudo para figurar entre as melhores fases do personagem.

Nota: todos os trechos citados de Ta-Nehisi Coates podem ser vistos no original aqui.

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Sobre Bruno "Nerdbully" Andreotti

Aficionado por super-heróis em geral desde a série do Batman estrelada por Adam West e mais ainda pela mídia na qual nasceram, os quadrinhos. Historiador e professor de História. Mestre em Ciências Socias e em Zen Nerdismo.
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2 respostas para O Capitão América de Ta-Nehisi Coates

  1. Jorge disse:

    Como sempre os quadrinheiros me possibilitando a conhecer um pouco mais deste unverso fantástico que são os quadrinhos. Nunca li ou ouvi dizer sobre o “Horatio Alger myth” graças a vocês aprendi mais uma, valeu!

  2. Bruno "Nerdbully" Andreotti disse:

    Nós que agradecemos a leitura, Jorge. Abraço.

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