O despertar de verdades amargas em Black Dog, de Dave McKean

Um retrato das memórias da Primeira Guerra Mundial desenhada pelo capista de Sandman.

A guerra acentua o limiar desesperador do presente. Esta, ao lado de outras verdades amargas, difíceis de reconhecer em tempos de papo-furado e despreocupação, são transmitidas nas páginas de Black Dog – Os sonhos de Paul Nash, lançada este ano pela editora carioca Darkside. O volume é escrito e desenhado por Dave McKean, o célebre capista de Sandman, a partir dos registros deixados pelo pintor Paul Nash, ex-combatente do exército inglês na Primeira Guerra Mundial.

Revela o prefácio, a edição faz parte do 14-18 NOW, programação artística do Reino Unido dedicada ao centenário da Primeira Guerra Mundial. Um dos eventos mais traumáticos do século XX, o conflito, por meio da obra de McKean, deixa de ser um distante capítulo de história para se tornar uma vívida experiência de humanização, em seu melhor e pior sentido.

Dentre várias formas para se falar de qualquer obra que retrata a Primeira Guerra Mundial, Black Dog – Os sonhos de Paul Nash, perpassa aqueles conceitos-chave que são associados ao período, mas sem torna-los um clichê, nem uma fórmula para quem quer passar num vestibular ou redigir um ensaio acadêmico. Aqui trata-se de transmitir mensagens imprescindíveis.

Por exemplo, sob a narração de Paul, torna-se mais visível a compreensão do “shell-shock”, a “neurose de combate”, ou “estresse pós-traumático”, transtorno de ansiedade cujas características e sintomas que passaram a ser dimensionados como patologia a partir dos grandes conflitos mundiais do século XX. Um destes sintomas, poderia-se pensar, é o sonho com a presença do cão negro, que acompanha Nash ao longo da vida e cujo significado tem papel central na narrativa.

Sob a perspectiva do roteiro, o traço marcante da obra de Dave McKean é que se alinha à uma longa tradição artística ficou particularmente evidente nos anos posteriores à 1ª Guerra Mundial, a estética antiguerra.

Ao lado da estética expressionista, que teve entre seus expoentes mais célebres Bertold Brecht, Franz Kafka e Robert Wiene, a literatura antiguerra no período pós-guerra teve nas palavras de Eric Maria Remarque sua voz mais perene, reconhecível na obra Nada de Novo no Front, de 1928.

Homônimo ao protagonista de Black Dog, o personagem principal de Remarque desabafa entre seus camaradas em meio às trincheiras da 1ª Guerra:

“- Quando penso nisto, Albert – digo depois de algum tempo, e rolo de costas -, tenho vontade de fazer alguma coisa grandiosa, quando ouço a palavra ‘paz’ tal e qual me subisse à cabeça. Alguma coisa, sabe, que justificasse ter ficado aqui nesta porcaria. Só que não consigo imaginar nada. Todas as possibilidades que vejo neste negócio de profissão, de estudo, de salário, etc… me enojam, porque é sempre a mesma coisa… Não encontro nada, Albert – não vejo nada. De repente tudo me parece inútil e desesperado. […] A guerra arruinou-nos pra tudo.” (REMARQUE, 1928, pp. 79-80)

No mesmo sentido, sob a perspectiva visual, Dave McKean parece emular alguns artistas expressionistas do começo do século XX, como Amedeo Modigliani e Otto Mueller. De todo modo, Dave McKean teve um vasto referencial nas obras do próprio Paul Nash, ele mesmo um destacado pintor que voltou ao serviço do exército britânico com esta função na 2ª Guerra Mundial.

Ao leitor de quadrinhos, torna-se interessante observar o desempenho de McKean para além das capas. Diferente das colagens que davam substância ao universo onírico de Sandman, em Black Dog, McKean emprega a expressão visual como um recurso de empatia, um convite às sensações e emoções sentidas por alguém que por meio da guerra experimentou o próprio tempo.

Não é exagero apontar, ao se basear nas pinturas e memórias de um sobrevivente da 1ª Guerra Mundial, a obra lançada em 2018 vivifica um polo de subjetividade que levaria à extremos antagônicos no século XX. O polo que se destaca em Black Dog é o espectro “idealista”, ou uma exortação “pacifista” e de empatia das relações humanas a partir das lições provocadas pela guerra.

Contudo, o paradoxo pernicioso é que as percepções, posicionamentos e instituições que deram origem ao idealismo antiguerra, celebrados nos “Catorze Pontos” de Woodrow Wilson, também conduziram ao realismo político das novas cátedras de diplomacia, assim como a elaborações ideológicas brutalizantes, como o fascismo, o nazismo e stalinismo, que ceifaram a vida de milhões de pessoas como se fossem um componente insignificante da história.

Ao final da leitura de Black Dog – os sonhos de Paul Nash, permanece a questão, quantas verdades amargas são necessárias para se aprender com a história?

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Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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