Super-heróis, o primeiro recurso dos reis

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Entenda a relação entre super-heróis e diplomacia!

Não havia nenhum grande plano para a diplomacia, apenas uma mentalidade de inteligência aplicada.

Assimilar prisioneiros de guerra invés de massacrá-los, construir templos ou encenar espetáculos invés de arrasar cidades – estes eram manobras políticas multivalentes, tanto refletindo e redesenhando o mundo […]. (ARNDT, 2005, p.4)

Por mais que a certa altura um leitor voraz vá buscar outras opções além deles, os quadrinhos mainstream, histórias dos heróis da DC e da Marvel, são a avenida principal de um amplo manancial cultural. É o terreno comum, o primeiro e mais querido plano de um mundo maior.

Nós reconhecemos aqueles heróis, os admiramos, as histórias deles nos inspiram e nos aproximam enquanto fãs. Quando discordamos, disputamos visões sobre o acontece nos quadrinhos ou filmes. Reconhecemo-nos como parte de um grupo que domina aquele mundo, aquelas referências, aquelas regras. Ora, isso é uma cultura.

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Nunca é demais lembrar, essa cultura é caracteristicamente americana. Por mais que as HQ tragam temas e valores que consideramos universais, os temas, os personagens e as histórias de super-heróis estão enraizados nas comarcas da complexa identidade americana.

Uma das percepções mais irrefletidas sobre as histórias em quadrinhos mainstream é que elas elegem a guerra, o conflito entre opostos, como mote principal das narrativas. Isso não é acidente.

Ao narrar sobre a história da diplomacia, Richard T. Arndt diz:

A História nasceu quando a humanidade foi capaz de capturar e reter a memória, ponderar sobre o passado e refletir antes de agir. As crônicas registravam apenas os grandes eventos – não a monotonia da paz mas os trágicos fracassos da guerra. Os exércitos de Tróia, lutando por conceitos culturais difusos como honra, ultrapassaram a crônica através de Homero. […] (ARNDT, 2005, p. 2)

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Você que já conhece, bem sabe: os heróis da Marvel e DC surgiram no final de uma era de introspecção, entre 1938/9, com o lançamento de Superman e Batman e o início de uma projeção internacional, marcada com a atuação do Capitão América na 2ª Guerra Mundial. Em todos os casos havia a constante: tratavam-se de narrativas sobre a guerra, embates provocados por conceitos difusos, como “justiça”, “liberdade”, “honra”, “honestidade” ou “verdade”, pouco diferentes das mitologias clássicas como a Guerra de Troia.

O Superman e Batman, frutos de um imaginário imbuído do espírito, dos traumas e expectativas do New Deal, eram dois dos principais heróis nacionais americanos. Num tempo de crise econômica havia de se lutar contra os abusos de políticos corruptos, de cruéis ladrões de bancos, tarefas as quais o Superman de tonalidade proletária e o Batman de cunho filantropo cumpriam com zelo e distinção, para adoração do público.

Em outras palavras, a DC, em sua raiz cultural, era caracteristicamente doméstica. A Mulher Maravilha, terceiro grande expoente da jovem National (futura DC) Comics, era o máximo que havia em termos de expediente internacional. Afinal, desde sua origem, além de guerreira amazona, Diana era acima de tudo uma diplomata.

Diz Arndt:

Os diplomatas foram os substitutos dos reis. Eles levavam mensagens, e os melhores entre eles traziam de volta aprendizados. Sábias e flexíveis culturas como a dos persas e gregos assimilavam prontamente informações e tecnologias estrangeiras. […] a diplomacia cultural tem sido a norma para as ações da humanidade no sentido da civilização. Pelo terceiro milênio A.C., a diplomacia evoluiu, em paralelo com a linguagem, para promover a cooperação entre grandes grupos. Movendo-se entre rituais e cerimônias, cantos e danças, a linguagem congregou ideias e permitiu planejamento antecipado, auto-consciência e reflexão. Enquanto força bruta ainda destruía civilizações, a diplomacia tentava preservá-las ligando culturas a outras culturas. (ARNDT, 2005, p. 1)

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A despeito do que poderia ser uma das mais exatas descrições da atuação da Mulher Maravilha como heroína, não havia como, no auge da Era de Ouro dos quadrinhos, em plena década de 1940, a diplomacia ser algo mais do que uma manifestação periférica do interesse dos heróis – suspeita-se também, de muitos leitores. Prova disso é o surgimento da Sociedade da Justiça, que não poderia ser de outro lugar além de “da América”.

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Décadas passadas, incluindo Wertham e Comics Code no meio do caminho, eis que surge a Marvel em 1961. Durante a Era de Prata ocorre uma mudança significativa. O Quarteto Fantástico partiu intrépido em direção ao espaço, o desconhecido sem fronteiras. O Homem de Ferro e Hulk, heróis nascidos de terríveis acidentes, são filhos imaginários da corrida armamentista, ou seja, da ação internacional dos Estados Unidos. Ora, até o Capitão América, que nasceu para atuar em terras estrangeiras e sumiu por décadas, ressurgiu para liderar os Vingadores, não por acaso, uma equipe de atuação internacional.

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Se ainda não ficou claro, enquanto a DC tem suas raízes na política doméstica dos Estados Unidos, a Marvel é distintamente internacionalista. Especialmente a partir da Era de Bronze, ao longo dos anos 1970, as histórias da Marvel passaram a abordar conteúdos multinacionais, apresentou personagens com diferentes origens e nacionalidades. Além disso, de modo muito mais enfática e consciente do que até então, traziam abordagens autenticamente universalistas, temas difusos e complexos como o preconceito, a igualdade e a luta pelos direitos humanos mais básicos.

 

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A Marvel, desde sua origem, trouxe em sua composição uma expressão da diplomacia cultural. Como diz Arndt:

Na origem, a diplomacia buscava relações não entre estados-nações, mas relações entre culturas. Culturas linguísticas flexíveis, se definindo ao longo do tempo e costumes, adotaram regras, as codificaram e as transformaram em leis, concebidas para minimizar disputas e maximizar cooperação. Regras nasceram das metáforas do parentesco: paternidade definia a dominância, iguais eram “irmãos” e tribos migratórias ao redor do mundo demonstravam hospitalidade ao dar boas vindas “aos primos das planícies”, uma clássica saudação árabe.  (ARNDT, 2005, p. 1)

Richard Arndt é um internacionalista e também um historiador da diplomacia cultural dos Estados Unidos. O livro dele citado é esse aqui e a tese do autor, que muito bem serve aos quadrinhos de super-heróis, é de que a diplomacia, assim como a troca cultural que ela promove, é o primeiro recurso à disposição dos reis. A guerra, por outro lado, é o último.

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O que para Miller é algo bem relativo

No tratamento para com seus vizinhos, é o diplomata, e não o rei, quem mais está atento aos temas mais caros e sensíveis que duas nações compartilham. Cabe a ele, este intérprete, “naturalizar” certos valores e rituais como forma de se relacionar com aqueles que de outra forma não seriam mais do que estranhos, potencialmente hostis. Mas, ao realizar seu trabalho, é ele, o diplomata, quem sofre as maiores transformações.

A questão é, se os quadrinhos de super-heróis são a oferta de uma grande diplomacia cultural, quem está sendo transformado? Os super-heróis?

Se as respostas parecem óbvias, tente responder: o que éramos antes de receber estes presentes?

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