A História das Histórias em Quadrinhos: a Era de Bronze

black-superheroesConheça um pouco mais sobre a Era de Bronze dos quadrinhos de super-heróis!

A Era de Prata foi marcada pelo Comics Code Authority (CCA), a auto-censura imposta pela indústria de quadrinhos dos EUA para não desaparecer. As restrições morais do CCA eram extremamente rígidas: o Bem era o Bem e o Mal era o Mal. Sem meio-termo, sem nuances. Suas histórias ficaram marcadas por certo senso de inocência e maravilhamento.

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Mas a sociedade americana estava mudando drasticamente durante os anos 60 e 70. A partir de agosto 1964, com o aumento de tropas americanas enviadas pelo governo de Lyndon Johnson, os jovens norte-americanos estavam morrendo na Guerra do Vietnã. Ao mesmo tempo, a luta pelos Direitos Civis de negros e gays ganhava corpo e força. A contracultura denunciava as contradições da sociedade dos Estados Unidos propondo um novo estilo de vida. Os quadrinhos de super-heróis não passariam ilesos à essas mudanças.

Na segunda metade da década de 60, vários quadrinhos de super-heróis estavam sendo cancelados. O público que antes consumia quadrinhos estava morrendo no Vietnã ou engajado politicamente, lutando por direitos ou mesmo adotando os modos de vida propostos pelos movimentos da contracultura. Os quadrinhos da Era de Prata, com seu mundo maniqueísta e simplista não era mais tão interessantes assim. Era o início de uma nova era, onde os super-heróis se engajariam em temas políticos e sociais. Era uma abordagem mais realista. Era o advento da Era de Bronze.

Uma das primeiras histórias que sinalizou essa mudança foi a parceria entre o Lanterna Verde e o Arqueiro Verde, iniciada em 1970, nas mãos de uma dupla que também marcaria a Era de Bronze como um todo, o roteirista Dennis O’Neil e o desenhista Neal Adams.

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A história apresenta Hal Jordan como um homem da lei, um policial, um homem que divide a realidade entre o Bem e o Mal, a moral da Era de Prata. Mas o Arqueiro Verde mostra que a realidade não é tão simples assim, e representa a mudança dos novos tempos.

Nessa história, o Lanterna Verde ajuda o dono de um imóvel a despejar as pessoas que o ocuparam de maneira ilegal. O Arqueiro mostra que a realidade é um pouco mais complexa: o dono do imóvel quer transformá-lo em um estacionamento, despejando todos os moradores (sendo que as condições nas quais ele mantinha o prédio era deplorável).

A história tem dois momentos marcantes: quando confrontado pelo Arqueiro se ele achava certo o que estava fazendo, o Lanterna apenas diz estar cumprindo seu dever, ao que o Arqueiro responde “Eu já ouvi isso antes… nos julgamentos de nazistas”.

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O segundo é quando o Lanterna é confrontado por um afro-americano que diz que o Lanterna já ajudou os de pele azul, os de pele púrpura, os de pele laranja, mas nunca os de pele negra.

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Ao final dessa história o Lanterna Verde e o Arqueiro Verde partem numa viagem pelos EUA onde muitos outros problemas sociais serão abordados. É durante essa fase que Speedy (aqui Ricardito), o sidekick do Arqueiro, torna-se um viciado em drogas, mostrando um problema cada vez mais presente na vida dos americanos.

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Mesmo com temas políticos e sociais, a série ainda estampava o selo do CCA na capa, que só seria completamente abandonado pela indústria de quadrinhos dos EUA no começo do século XXI.

Outro marco do período foi Amazing Spider-Man #96-98. Em 1971 o governo dos EUA, por meio do Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar contatou Stan Lee para que a Marvel produzisse uma história em quadrinhos que abordasse o problema das drogas. Nessa história, Peter Parker salva um homem que, de tão alucinado, se joga de um prédio. Durante essas três edições, paralelo ao problema das drogas, o Homem-Aranha ainda tem que enfrentar o Duende Verde.

Mesmo expondo drogas como nocivas e prejudiciais à saúde, os censores do CCA a proibiram. Porém Stan Lee e Martin Goodman decidiram publicá-la mesmo assim. Essas edições foram um sucesso e o CCA foi abertamente criticado por não permiti-las, o que levou a uma revisão e a um abrandamento do Comics Code, permitindo um tom um pouco mais maduro e realista às histórias.

Reparem que não há o selo do Comics Code Authority na capa.

Reparem que não há o selo do Comics Code Authority na capa.

Um exemplo dessa revisão foi a permissão de monstros como vampiros e lobisomens, proibidos até então pelo CCA, abrindo caminho para heróis com tons sobrenaturais como o Motoqueiro Fantasma, da Marvel, criado em 1972 e mesmo o Monstro do Pântano, da DC.

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Superman, ícone dos quadrinhos, também sofreu mudanças. Em uma história escrita por Dennis O’Neil o Superman é afetado por uma quantidade absurda de kryptonita e seus poderes são drasticamente reduzidos. Clark Kent também tornou-se repórter de TV, numa tentativa de atualizar o personagem.

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A mesma dupla da parceria entre Lanterna Verde e Arqueiro Verde também foi responsável por trazer o Batman à suas raízes pulp, mais violento e psicótico nos anos 70 (bem ao tom da Era de Bronze), caminho aberto pela dupla que seria consolidado com o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.

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Outro marco do período foi a morte de Gwen Stacy em 1973. Era a primeira vez na Marvel (quiçá nos quadrinhos de super-heróis) em que era mostrado que as coisas podiam realmente dar errado, pois mesmo heróis podiam falhar.

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Até o cidadão americano mais leal ao seu governo foi abalado pelo escândalo de Watergate em 1972. A denúncia dos abusos do governo Nixon, que culminaram na renúncia do presidente em 74, foi sentido até mesmo pelo Capitão América.

Em uma história de 1974, escrita por Steve Englehart, o Capitão desbarata uma organização terrorista e descobre que seu líder trabalhava no alto escalão do governo dos EUA. Desiludido, Steve Rogers decide abandonar o uniforme de Capitão América, adotando a identidade de “Nômade”. Deixando uma pergunta sombria: o que esperar de um governo cuja bandeira é abandonada por seu maior herói?

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A luta pelos direitos de minorias também trouxe heróis como Luke Cage, que debutou em 1972. E, embora o Pantera Negra tenha sido criado em 1966, foi somente em 1973 que ele estrelou um título solo em Jungle Action #5.

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Foi também em 72 que a dupla Dennis O’Neil e Neal Adams, na mesma fase do Arqueiro Verde e Lanterna Verde já mencionada, introduziram outro Lanterna Verde, John Stewart, o primeiro super-herói negro da DC.

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Mas sem dúvida nenhuma a Marvel ganhou no quesito diversidade. Em 1971 a editora lançou o primeiro super-herói nativo-americano, o Lobo Vermelho e em 1975 o primeiro super de origem hispânica, Hector Ayala, o Tigre Branco em The Deadly Hands of Kung Fu #19, revista na qual estrelariam também muitos heróis de origem asiática.

Imagem meramente ilustrativa. Não consegui encontrar a edição #19.

Imagem meramente ilustrativa. Não consegui encontrar a edição #19.

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Aproveitando a onda da diversidade da Era de Bronze no final dos anos 70 os X-Men foram transformados em um grupo com representantes de várias nações por Len Wein e Dave Cockrum e alçados ao sucesso que são até hoje por Chris Claremont e John Byrne.

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Era isso o que o público parecia querer: histórias mais maduras e realistas que retratassem as profundas mudanças culturais, políticas e sociais pelas quais os EUA estavam passando.

Essa tendência seria levada ao seu extremo por obras como WatchmenO Cavaleiro das Trevas. Era o início da Era de Ferro.

***

Se você se interessa pelas Eras dos quadrinhos de super-heróis clique aqui e conheça nosso livro sobre o assunto!

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Sobre Nerdbully

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14 respostas para A História das Histórias em Quadrinhos: a Era de Bronze

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  4. Thiago Arcanjo disse:

    Excelente texto, parabéns pelo trabalho.
    Fora o site de vocês quais outras fontes posso procurar para conhecer mais sobre as Eras?
    Abraços.

    • Nerdbully disse:

      Obrigado, Thiago. Recentemente demos um curso onde abordamos cada uma dessas Eras em detalhes, você pode dar uma olhada aqui: http://goo.gl/td4oki

      Utilizamos essa bibliografia, em negrito os livros que você vai encontrar informações sobre as Eras:

      Quadrinhos: Historia Moderna de uma arte global – Dan Mazur e Alexandrer Danner
      Supergods – Grant Morrison

      Narrativas Gráficas – Will Eisner
      Guerra dos Gibis – Gonçalo Junior
      Shazam! – Alvaro de Moya
      Guia de Roteiros da DC Comics – Denny O’Neil

      Story – Robert McKee
      Como Escrever Séries – Sônia Rodrigues
      Words for Pictures – Brian Michael Bendis
      A História Secreta da Marvel Comics – Sean Howie

      O Herói de Mil Faces – Joseph Campbell

      Abraço!

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