Motoqueiro Fantasma: o filho bastardo da Era de Bronze

O que viu a América quando olhou para si mesma?

Uma das jóias raras da televisão nos anos 80 era o filme Fuga de Nova York (1981), de John Carpenter e protagonizado por Kurt Russel. Ok, era o oposto de raro. O filme era exibido duas (!) vezes, sempre aos domingos a noite, praticamente todos os meses, pelo SBT (sempre “pela primeira vez na televisão”).

Naqueles tempos, antevéspera de blog, WhatsApp, Netflix, Instagram ou Facebook, poucas opções fomentavam algum debate exceto aquelas contidas nos quadrinhos ou televisão. Para uma mente jovem e impressionável, um dos aspectos mais chocantes, devidamente ponderado nos recreios da 5ª série, era o aspecto delinquente do protagonista, Snake Plissken.

Assinalado pelo personagem Hauk (Lee Van Cleef), Snake Plissken era um ex-piloto da 3ª Guerra Mundial, desertor, ladrão, assassino e, na melhor das hipóteses, mercenário. Justamente por ser um crápula, cabia a ele resgatar o presidente americano das garras de gangues brutais que infestavam a cidade de Nova York, transformada em cadeia de segurança máxima no futuro “longínquo” de 1997. Ele tinha 24 horas. Se falhasse, duas cápsulas explodiriam as carótidas de Plissken, matando-o na hora.

Com uma baita premissa, o final é olímpico, um desfecho impecável (sem spoiler, trate de assistir). Contudo, como foi possível que, ao final do filme, saltássemos da aversão à simpatia pelo “herói”? Por que alguém que teria tudo pra ser abominado, reprovado ou repudiado passou a ser estimado, abonado ou celebrado?

Era difícil de compreender na época. Mas tratava-se de uma versão do que veio a ser chamado de “anti-herói”, personagem exemplar da Era de Ferro (1985-1996) na pele de Lobo, John Constantine, Cable, Deadpool, Spawn, Darkness, o Batman de Frank Miller ou os personagens de Watchmen, de Alan Moore.

No entanto, velado pra quem lia e assistia histórias com personagens assim, os “anti-heróis” não nasceram na Era de Ferro dos quadrinhos, mas anos antes, lá pelo fim da década de 60 e início dos anos 70, na Era de Bronze (1970-1985). Wolverine, como já apontamos, era o seu retrato mais fiel, uma combinação impossível, de bom e ruim. No entanto, no “mapa de alinhamento”, ele ainda pende para o “lawful good”, o bom dentro da lei.

Existem vários heróis nos quadrinhos da Era de Bronze que caracterizam esta posição, como Luke Cage e o Monstro do Pântano, defensores daqueles que não podem se defender sozinhos, e que vivem à margem da sociedade, como párias – ou até criminosos. Mas poucos personagens se afastam tanto do limite do “bem” e da “legalidade” como o Motoqueiro Fantasma.

Similar a Snake Plissken, o Motoqueiro Fantasma, criado por Gary Friedrich, Roy Thomas e Mike Ploog para a Marvel, é um autêntico anti-herói e seu aspecto visual denota essa característica com precisão. Invés de uma capa ou uniforme colorido, a caveira flamejante, portando uma corrente dentada como arma, dá pouca margem para dúvidas. Ele não é um herói. Como insinua a capa da primeira aparição do personagem, talvez nem sequer esteja vivo.

Como descobrimos ao longo da série do Motoqueiro, ele é o alter-ego de Johnny Blaze, motociclista acrobata, desafiador da morte que faz um pacto com o demônio Mefisto, pra todos os efeitos, o ser mais satânico do universo Marvel. Ao invés de um agente do mal, o Motoqueiro Fantasma é a manifestação de Zarathos, o “espírito da vingança”, um ente conjurado quando Johnny Blaze está na presença do mal. Seu ataque fulminante é o “olhar da penitência”, que arremessa a alma de mal-feitores diretamente para o inferno.

Assim como Snake Plissken, o Motoqueiro Fantasma pode ter provocado primeiro curiosidade, depois surpresa na mente dos jovens leitores quando foi lançado em 1972. Afinal, como pode um motoqueiro demoníaco agir de acordo com a “verdade” e a “justiça”? A brutalidade dos atos perpetrados por Zarathos são justificados em comparação ao mal provocado por seus inimigos? A mensagem implícita era: em tempos vis, cabia a um “vilão” fazer o que é certo.

Difícil não reconhecer, o conceito do Motoqueiro Fantasma, pura expressão do “anti-herói” nos quadrinhos americanos, está impregnado das sensibilidades culturais da época em que foi criado.

Por um lado, e de forma mais nítida, está a influência dos “daredevils” na caracterização de Johhny Blaze. Os “desafiadores do demônio” eram aqueles pilotos de carros, motos e aviões que faziam acrobacias arriscadíssimas em caravanas viajantes no interior dos Estados Unidos. O ícone máximo desta “subcultura” foi Evel Knievel, realizador de saltos radicais sobre dezenas de carros ou altas rampas a bordo de sua possante Harley Davidson.

Por outro lado, talvez tanto quanto os daredevils, uma possível influência para a criação do Motoqueiro Fantasma tenha sido os Hell’s Angels. A gangue de motoqueiros se tornou célebre (ou infame) graças ao documentário Gimme Shelter (1970) de Albert Maysles e David Maysles que registrou, com detalhes assustadores, o desastre do festival de música em Altamont, em 1969.

Buscando emular o festival de Woodstock, os Rolling Stones patrocinaram aquele novo concerto, que contaria com a presença do Grateful Dead, Santana e outros. Num lugarejo no interior da Califórnia, sem qualquer estrutura sanitária, de alimentação e distante de qualquer força policial, o lugar trouxe uma enxurrada de fãs, drogas e violência. Os únicos limites eram aqueles impostos à força (e nenhum comedimento) pelos integrantes do Hell’s Angels – que, supostamente, toparam trabalhar em troca de $500 dólares em cerveja. Entre os resultados do festival contaram-se quatro mortes de fãs e a fuga dos Rolling Stones de helicóptero, amedrontados e sem nenhum controle da situação.

Graças à violência que marcou o concerto de Altamont, apontado como “a morte do movimento hippie”, e também por conta das arriscadas peripécias de Evel Knievel, é plausível considerar que muitos, tanto leitores como autores de quadrinhos, associassem o motociclismo a algo significativamente marginal, senão “demoníaco”, algo quase certamente perverso.

Justamente por isso é de se surpreender que as editoras de quadrinhos tenham optado por se apropriar de uma imagem tão estigmatizada. Talvez, e aí reside uma investigação potencialmente rica, não se trata da “inversão” de um pólo negativo para um positivo por meio do anti-herói Motoqueiro Fantasma. Tanto mais importante, talvez essa mudança signifique um passo na direção do auto-conhecimento da sociedade que criou estes personagens, imagens e estigmas, um olhar para o espelho, um olhar de penitência para os próprios Estados Unidos.

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Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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Uma resposta para Motoqueiro Fantasma: o filho bastardo da Era de Bronze

  1. Lair Amaro disse:

    Texto brilhante. Mas ficou com gosto de quero mais. Mereceria um prolongamento.

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