O que é um bom final de história?

1825234-kingdom_come_4_201_never_ending_battleO que torna um final de quadrinhos excelente?

Quais são os melhores finais nos quadrinhos?

Finais de histórias são quase como um personagem distinto na própria história. É o desfecho, e não a abertura de uma narrativa, que vai ancorar a qualidade daquele conto.

Provocação sem pretensão científica e nem muita sistematização, arriscamos dizer: É a qualidade do final que vai determinar o eco da história na memória dos leitores.

Oi? Como assim??

Apesar dos começos de algumas histórias, alguns estonteantes e outros bem confusos, epígrafes, introduções e apresentações de qualquer narrativa são a primeira etapa de uma espécie de “truque”.

Começos são algo como contrair uma dívida, o endividamento do narrador em oferecer uma mensagem valiosa em troca da atenção (e dinheiro) do leitor. Mas é no final, e apenas naquele quadrante terminal da história, que as dívidas são saudadas, os custos são medidos e os empenhos são pagos.

As partes intermediárias da história, as tensões, clímaxes e desenlaces, têm importância equivalente, mesmo que nem sempre tão lembradas, mas estas ficam pra outros posts.

Aqui, importa lembrar que o que caracteriza um “bom final” varia bastante. Afinal não é por acaso que debates sobre quais são as melhores histórias estão longe de terminar. Essa “discussão” serve de motor para o funcionamento de sites, palestras e eventos de quadrinhos há anos. Pra alimentar a reflexão, aqui vai uma ideia.

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É quase ponto pacífico que o “monomito”, conceito desenvolvido pelo Joseph Campbell, traz uma das melhores descrições de um final adequado: é a etapa onde o herói chega aos momentos últimos de sua jornada cíclica, um retorno ao ponto de onde partiu, fortalecido pelas (des)aventuras que passou, ressuscitado após ter sido fulminado por seu nêmesis. Desta vez ele está dotado de uma consciência transcendente sobre ele mesmo, sobre a realidade em que vive e sobre o que deve fazer em seguida, até mesmo se sacrificar de vez. Quase um efeito colateral da narrativa, o leitor também sai da história com uma percepção da realidade alterada, ampliada, para nunca mais voltar ao que era antes.

Um dos melhores finais já escritos numa história em quadrinhos, em que pese qualquer crítica que se faça ao autor e à obra, está nos momentos finais de O Cavaleiro das Trevas, de 1985.

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Ali Frank Miller pareceu destilar cada ideia do monomito, cada postulação de Campbell, ao encadear aquela e todas as histórias do herói, todos os planos, esforços e sacrifícios de Batman ao longo dos anos na batalha derradeira contra o Superman. A história faz sentir, o choque entre os dois parece palpável, inevitável, cadenciado, e a “morte” de Bruce Wayne se transformou num dos finais mais tecnicamente rigorosos dos quadrinhos, um marco difícil de se equiparar. Mas não impossível.

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Assim como o Cavaleiro das Trevas, Reino do Amanhã (1995), de Mark Waid e Alex Ross, e Watchmen (1987), de Alan Moore e Dave Gibbons, compartilham da mesma estatura como referenciais monolíticos dos quadrinhos. Entre as razões, uma delas está no final que elas trazem: tudo que acontece nas últimas páginas está estritamente encadeado com os eventos que foram construídos até os momentos que encerram a história.

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Irresistível simetria, como brinca o próprio Alan Moore, o que caracteriza um final contundente é a forma com que, apesar da intensidade do que está sendo exposto individualmente numa cena, todos os elementos semeados desde as primeiras páginas da história são reunidos e aludidos de forma harmônica no final.

Esta “amarração” de momentos diferentes da história que reaparecem no final são aspectos que o leitor pode passar despercebido, mas são detalhes que remontam a ensinamentos que vêm da Antiguidade Clássica. Essas lições possuem uma atualidade desconcertante.

Diz Arisóteles que

“[…] a tragédia [ou a narrativa] é imitação de uma ação completa, construindo um todo que tem certa grandeza […] ‘Todo’ é aquilo que tem princípio, meio e fim. ‘Princípio’ é o que não contém em si mesmo o que quer que siga necessariamente outra coisa, e que, pelo contrário, tem depois de si algo com que está ou estará necessariamente unido. […] ‘Fim’, ao invés, é o que naturalmente sucede a outra coisa, por necessidade ou porque assim acontece na maioria dos casos, e que, depois de si, nada tem. […] É necessário, portanto, que os mitos bem compostos não comecem nem terminem ao acaso, mas que se conformem aos mencionados princípios. Além disso, o belo – ser vivente ou que quer que se componha de partes – não só deve ter essas partes ordenadas, mas também uma grandeza que não seja qualquer. […] tal como os corpos e organismos viventes devem possuir uma grandeza, e esta bem perceptível como um todo, assim também os mitos devem ter uma extensão bem apreensível pela memória.” (ARISTÓTELES, Poética In Os Pensadores, 1973, pp. 449-450)

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Ao descrever a arte da Poética, o filósofo do século 4 a.C. tinha como grandes referências as obras de Sófocles, como Antígona (442 a.C.) e Édipo Rei (427 a.C.), além das grandes obras de Homero, Odisseia e Ilíada (sec. 8 a.C.). Mais do que escritos antigos, estas obras eram encenadas, temperadas pela música e mediadas pelos atores. Aristóteles chamava estas obras artísticas de imitações, pois os mitos e narrativas nada mais eram do que reflexos das vivências e expectativas de pessoas reais. Enquanto a realidade não segue a equação “início-tensão-desenlace-catarse” ou, de modo mais simples, “começo-meio-fim”, o público esperava que, pelo menos na ficção, as narrativas dessem vazão a este desejo.

O bom artista, ou como diria Aristóteles, aquele artista que melhor sabe criar “o belo”, é quem melhor segue as etapas da narrativa, atento ao tamanho da história que narra e ciente da memória de seu público. Quando um artista, no nosso caso, o autor de quadrinhos, resolve violar estas regras, se subestima ou superestima a memória dos seus leitores, os resultados acabam pouco lembrados ou celebrados.

Um dos exemplos mais claros de final capenga (mas nem por isso desinteressante) é o encerramento de O Procurado (2003), de Mark Millar e J.G. Jones. A história, que tinha um mote inebriante (o que acontece quando os vilões dominam o mundo) e que prometia um encerramento contundente, teve um final abrupto, uma metalinguagem que critica o meio editorial das histórias em quadrinhos e também uma censura contra os próprios leitores.

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Por outro lado, no pólo oposto, talvez não exista autor de quadrinhos mais competente para escrever o final de uma história do que Neil Gaiman. O primeiro número de Sandman, muito antes do autor se tornar uma celebridade, convenhamos, era um pouco confuso. Mas havia muito potencial. Muitas promessas foram feitas por Gaiman,  Dave McKean, Mike Dreinberg e Malcolm Jones III. Como leitores, compramos a ideia e a dívida foi feita. Foram anos até chegarmos ao último número.

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O último arco de Sandman, Entes Queridos, especialmente os últimos dois números, são tópicos da história de Morfeus que falam mais alto do que alguns dos melhores momentos de toda a narrativa de Sandman.

matthew-staysAo ir voluntariamente de encontro às Eríneas (portanto, indo de encontro com a própria irmã, a Morte) Sandman pronunciou uma mensagem transcendental. Para qualquer um que estivesse vendo, o moldador de histórias – ou seja, o próprio Gaiman – revelou com a solenidade que só uma obra bela é capaz: toda história tem um final e ninguém, nem mesmo os Perpétuos, pode fugir dele.

(Não sei pra você, mas foi uma das melhores barganhas da minha vida)

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Sobre Velho Quadrinheiro

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3 respostas para O que é um bom final de história?

  1. Calebe disse:

    Texto maravilhoso ! A história de qualidade envolve o leitor de tal maneira que o transporta para longe da sua realidade. Ao ler Shade de Milligan ( 2° Encadernado) fiquei fascinado e assombrado com o final, um bom final “acaba” com o dia do leitor pois o mesmo fica na ânsia por mais.

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