Shade e a Loucura de Peter Milligan

14364744_1082045608557937_7263169344320535651_nPor que não dar uma chance à loucura?

Estamos quase completando um ano da chegada do primeiro encadernado de Shade, O Homem Mutável no Brasil, a esquecida série do louco da Vertigo que não verá todos os seus números chegando por aqui tão cedo. Dentre tantas obras famosas do selo, algumas podem ficar um pouco mais apagadas que outras, porém isso não significa que sejam de qualidade inferior e que não mereçam ser lidas. Shade consegue imergir o leitor na história de uma forma única, apresenta diversas referências e é um quadrinho tão  rico quanto de Sandman e Monstro do Pântano.

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Os anos 90 foram cheios e felizes para a Vertigo com Hellblazer, Sandman, Patrulha do Destino, Homem Animal, Monstro do Pântano, entre diversos outros. Alguns quadrinhos alcançaram grande sucesso e se tornaram referências na indústria, como o caso de Sandman. Em meio a um momento tão grandioso encontramos ainda Shade, mais um dos personagens que entraram para a revitalização de Karen Berger.

Rac Shade foi um personagem criado por Steve Ditko, teve apenas 6 edições e depois algumas rápidas aparições em outras revistas e foi nele que Peter Milligan encontrou a oportunidade perfeita para dar vazão à sua loucura.

No primeiro arco o Grito Americano está a solta e é nesse momento que precisamos de alguém para detê-lo, um jovem romântico chamado Rac Shade passou pelo tanque de imersão cultural e foi jogado no corpo de um assassino serial chamado Troy Grenzer. Troy matou a família de uma personagem chamada Katty, essa que é a primeira pessoa que Shade encontra após tomar o corpo de Grenzer para si, ele precisa de alguém louco o suficiente para acreditar que ele não é o assassino e que na verdade vem de outro planeta chamado Meta, quem melhor do que a filha das vítimas de Troy para isso? A partir desse plot temos o grito entrando em objetos ou pessoas pelos Estados Unidos manifestando a loucura de formas assustadoras, ele se manifesta em um homem fascinado por JFK, em uma esposa que se sente culpada pelas ações do marido, entre diversos outros casos.

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Peter Milligan constrói a série sob dois pilares fundamentais, a mudança e a loucura. A insanidade é o que gera tudo, desde os poderes de Shade até os males que o Grito Americano traz e a mudança está presente desde as metamorfoses físicas do personagem, passando pela forma que as histórias são narradas, até o próprio status quo que aquele universo se encontra.

O quadrinho tem um ponto muito específico sobre a loucura, ela imerge o leitor na história, muitas vezes a ideia que o quadrinho passa sobre isso é uma questão da percepção sobre realidade: a loucura seria o pensamento de que aquilo faz sentido para mim, eu vejo e compreendo, porém os outros a minha volta não. Considerando essa ideia, a história faz com que o leitor, a cada edição, comece a pensar que compreende muito bem como funciona a loucura e sua zona, para então ter essa certeza abalada logo em seguida.

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A (des)construção de Shade começa com a ideia de pegar temas e discuti-los, o Grito Americano encontra algo ou alguém e a partir daí Milligan desenvolve esse tema, desde política até o descaso com os moradores de rua. O interessante é perceber como após o fim desse arco, a série sofre uma certa metamorfose de construção, Milligan não volta a discutir temas específicos por cada pequeno arco de histórias, ele desenvolve a vida de Shade e Katty sob influência de Meta e da loucura e as implicações que isso traz para aquele universo. Peter Milligan deixa claro sua inspiração nas obras de James Joyce, inclusive transportando o próprio autor ao lado de Ernest Hemingway para o universo do homem mutável, levando-o para a zona da loucura ao lado de Shade e desenvolvendo um dos arcos mais interessantes de toda a série.

Peter Milligan já disse em entrevistas que essa é a obra em que ele possui mais afeição, o autor conseguiu nos apresentar muito do que pensa em sua HQ. Shade cumpriu seu papel de metamorfose, de homem mutável, seja em sua narrativa, em seu protagonista ou em suas histórias que conseguem diferir tanto.

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Shade não fez muito alarde nem em sua época e acabou ofuscado pelos seus companheiros Sandman e Hellblazer e podemos considerar muita sorte essa história não ter sido cancelada no meio do caminho, mas se você procura uma obra da Vertigo que consegue se distanciar um pouco das referências e dos autores que estamos acostumados a ler (Moore/Morrison/Gaiman), Shade provavelmente é o que você está procurando. Deixemos de lado o mundo dos sonhos ou a magia. Por que não dar uma chance à imprevisível e genial loucura por um tempo?

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Sobre John Holland

Procurando significados em páginas de gibi enquanto viaja pelos trilhos do conhecimento e do metrô. Sempre disposto a discutir ideias e propagar os quadrinhos como forma de estudo, adora principalmente a Vertigo, está sempre disposto a conhecer novos quadrinhos e aprender o máximo de coisas possível!
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2 respostas para Shade e a Loucura de Peter Milligan

  1. Calebe disse:

    A Panini anunciou que serão somente três encadernados 😦 Será que vai sair essa história com o Constantine?

    • John Holland disse:

      Infelizmente não, essa história com Constantine acontece durante as edições 42, 43 e 44 e os três encadernados da Panini só cobrem “O Grito Americano” que vai até a edição 18. Uma pena essa série não ser publicada na íntegra :/

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