A História das Histórias em Quadrinhos: a Era de Ferro

Conheça um pouco mais sobre a Era de Ferro dos quadrinhos de super-heróis!

“O que é ser um herói?”, poderiam se perguntar muitos dos personagens da Era de Ferro. Não, não se tratava apenas de descompasso com a realidade, ou uma desilusão com o mundo exterior. Havia algo mais íntimo, mais assustador que se espreitava no coração dos heróis. Uma fera grotesca. Um fraco impotente. Um uniforme vazio. Um cínico suicida. A Era de Ferro (1986 a 1994), de formas diferentes e como nunca antes, expôs a nudez dos heróis dos quadrinhos.

A Era de Ferro ao mesmo tempo em que significou a banalização da violência praticada pelos personagens – muitos deles passaram a ser chamados de “anti-heróis” – também foi um período de acentuada expressividade gráfica, uma ênfase do visual sobre o textual, por conta do talento de jovens desenhistas, como Jim Lee, Marc Silvestri e Todd McFarlane.

Wolverine v2 #40. Capa de Marc Silvestri, 1991

Individualizados, introspectivos e multifacetados, os heróis da Era de Ferro desconstruíram as bases sobre a qual repousava a “sagrada” ética dos quadrinhos. Homicidas, maníacos ou apenas alheios demais à moralidade do restante dos homens, coube a esta geração de heróis – e seus leitores – indagar o que os diferenciava da maioria dos vilões.

O período da Era de Ferro também foi o cenário do fim da Guerra Fria. Depois da assinatura dos acordos SALT, ou Negociações para Limitação de Arsenais Estratégicos, entre a União Soviética e Estados Unidos na década de 70, havia sinais de que as hostilidades entre as duas potências globais pudessem estar no fim.

Na verdade, os acordos serviram a uma providencial necessidade soviética: cessar a escalada armamentista, conter os custos voltados ao seu vasto complexo industrial militar e investir em urgentes obras de infraestrutura e desenvolvimento social. No entanto, a gestão de Ronald Reagan nos Estados Unidos e de Margareth Thatcher no Reino Unido buscaram explorar justamente esta lacuna nas defesas soviéticas, a economia.

Vilão russo Omega Red, criado por Jim Lee e John Byrne em 1992

Os quadrinhos de super-heróis refletiam esses acontecimentos históricos, de uma forma ou outra. Este contexto de tensão política, de fim da história, até de nulidade das ideologias, serviram abertamente como temática, ou então, como horizonte referencial para uma variedade de histórias.

Situado no limiar da Era de Bronze e de Ferro, o primeiro grande reboot da DC, Crise nas Infinitas Terras por Marv Wolfman e George Perez, publicado originalmente entre 1985-86, que unificou as diferentes Terras da DC, matando inúmeros heróis, o mais emblemático sendo o Flash da Era de Prata, Barry Allen. A morte de um personagem que marcou o início da Era de Prata seria um indicativo dos tempos sombrios que estavam prestes a se instaurar.

Embora algumas obras já prenunciassem essa Era, como Demolidor de Frank Miller (que assumiu o título em 1981), ela só alcançaria todo seu potencial em Batman: O Cavaleiro das Trevas, de 1986, uma das obras que definem a Era de Ferro enquanto tal.

A obra contém diversas das características que marcam a Era de Ferro: a exacerbação da violência, a legitimação da brutalidade como resposta à ameaça dos vilões, os diálogos entre as várias “facetas” subjetivas do herói, uma espécie de celebração da “maturidade”, ou então, da sobriedade dos temas, dos diálogos, dos problemas e desafios que se impõem na realidade que está sendo narrada na história.

Assim como o soturno Batman de Frank Miller, a Era de Ferro trouxe uma nova fauna de personagens com características parecidas. Os quadrinhos da Marvel Comics pareciam particularmente suscetíveis à propagação desta cepa. Os vilões se tornaram mais violentos. O Homem-Aranha passou a enfrentar versões anabolizadas de velhos rivais, como o Duende Macabro, Venom, e mais tarde, Carnificina.

Nas páginas das revistas dos X-Men nasceram personagens como Lucas Bishop, um agente do futuro descolado no tempo. Membro das forças militares da Escola Xavier do século XXI, por sua própria condição, revela muito sobre o que estava reservado para o sonho de convivência pacífica de Charles Xavier. No entanto, Bishop ainda era algo menos agressivo que outro viajante do tempo, Cable, um soldado guerrilheiro de cerca de dois mil anos adiante, disposto a massacrar quem quer que fosse para deter o vilão Apocalipse, um supremacista radical da raça mutante.

Outro marco importante, a publicação de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, tonificou profundamente o espectro dos heróis desviantes, doentios, agressivos, obsessivos e ambivalentes. Para além daquilo que representou Batman: O Cavaleiro das Trevas, Watchmen deu um passo adiante.

Criada por Moore e Gibbons a partir dos personagens da Charlton Comics, adquiridos pela DC Comics, Watchmen parece um tipo de ensaio, um exercício criativo do que seria o mundo e das próprias revistas em quadrinhos caso sujeitos reais levassem seriamente a ideia de se fantasiar e arriscar a vida ao combater o crime como tarefa diária. O enredo de Watchmen foi publicado em doze revistas sendo a primeira delas lançada em setembro de 1986 terminando em outubro de 1987. A cada número, o leitor acompanhava a história através de vários narradores, alguns deles os próprios “heróis”, em outros momentos trechos de jornais, livros, televisão, artigos de revistas e as próprias revistas em quadrinhos.

Ao invés de um aprofundamento das complexidades subjetivas dos heróis de quadrinhos, um dos “efeitos” de Watchmen e Batman: Cavaleiro das Trevas foi justamente seu oposto. A indagação do “por que  ser um herói” provocou um esvaziamento do seu sentido mais tradicional.

Isso ficou claro com o surgimento do selo Image Comics em 1992 e grupos como WildCATS, Youngblood, Cyberforce, criações de Jim Lee, Rob Liefeld e Marc Silvestri, respectivamente. As revistas desses personagens eram visualmente vibrantes, retratados em amplas cenas de combates, mas não havia nenhuma razão para esses conflitos, senão os conflitos em si.

Na DC duas sagas merecem destaque. Atualmente chamado de A Morte do Superman, a história original é composta por três arcos (Apocalypse, Funeral para um Amigo e O Reino dos Supermen) publicados entre 1992-93, que contam o advento do vilão Apocalypse e a batalha brutal que se segue entre ele e o Superman sobre Metrópolis, bem como as implicações de um mundo sem seu maior herói. Mais que uma mera jogada de marketing, é auspicioso que o mais emblemático dos super-heróis tenha morrido numa Era tão brutal.

Em A Queda do Morcego (1993-94), temos o surgimento do vilão Bane e a derrota do Batman na emblemática cena em que sua coluna é quebrada. Durante o período de recuperação de Bruce Wayne, o posto de Batman é ocupado pelo jovem Jean-Paul Valley, que sofrera uma espécie de lavagem cerebral e também era Azrael, assassino da Ordem de São Dumas. Foi a saída que a DC encontrou para deixar o Batman em sintonia com essa Era e ainda preservar sua essência com o afastamento de Bruce Wayne.

Mas em meados dos anos 90 tanta brutalidade não parecia ser mais tão interessante. Uma certa nostalgia de quando os heróis eram realmente heróis parecia afetar os leitores e foram expressas de maneira soberba tanto em Marvels, de Kurt Busiek, quanto em O Reino do Amanhã, de Mark Waid, ambas desenhadas por Alex Ross. Era o início da Renascença.

***

Esse post é uma versão resumida do capítulo A Era de Ferro (1986-1994) do nosso livro A História das Histórias em Quadrinhos: As Eras do Super-Heróis. Clique aqui para adquiri-lo. 

 

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4 respostas para A História das Histórias em Quadrinhos: a Era de Ferro

  1. Gostei muito do texto. Realmente, acompanhei todas essas mudanças na temática dos quadrinhos, durante esta época. Em 86, eu já tinha 12 anos, e estava mergulhado no mundo das HQs desde 83. Muito boa a dissertação.

  2. Sayd Mansur disse:

    Maravilhosa reportagem! Vou querer o livro!

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