O comunismo em quadrinhos: heróis, vilões, fetiches e biografados

Os quadrinhos narram mitos. Contam uma história que aconteceu num tempo passado ou numa realidade distante da nossa – como a Ciméria de Conan ou a Gotham City de Batman. Mesmo assim eles trazem ensinamentos importantes para nós.  É quase religioso. As batalhas entre heróis e vilões apontam o que é certo e errado. Isso vale tanto para o âmbito pessoal quanto social. Sabemos que Lex Luthor é um vilão por ser invejoso e ganancioso. Sabemos que o Capitão América é um herói por lutar contra valentões em nome da liberdade. Eles simbolizam vícios e virtudes de uma sociedade.

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O comunismo, como teoria e doutrina, é um ideal contra a exploração. De um lado há uma minoria burguesa, dona de poder financeiro e material. De outro, uma maioria proletária, usada pela burguesia, excluída do consumo e das decisões do Estado. O comunismo chama o trabalhador a protagonizar a História. No ideal comunista, ele é o verdadeiro herói, dono do único valor real, o trabalho.foice-martelo

Isso foi descrito por Karl Marx em 1848 no Manifesto do Partido Comunista. Ele convoca uma revolução proletária, global, de longa duração. Aspira pôr fim à burguesia, às diferenças de classes. Foi o ideal da Revolução Bolchevique de 1917, deu origem à União Soviética, aos governos comunistas na China (1949) e Cuba (1958).

É fato que direta ou indiretamente o comunismo matou milhões de pessoas. Para a União Soviética, a revolução terminou em 1989 com a derrubada do Muro de Berlim. Mas ela simbolizou muito mais.

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Uma vez que narram mitos, os quadrinhos dão forma, cores e movimento para sentimentos do leitor. Eles fixam a nossa memória. Foi o que aconteceu com o comunismo. Ele se transformou num mito. Pelo menos, em algumas revistas.

Entre muitas que poderiam ser consideradas indico aquelas mais importantes (ou seja, só aquelas que encontrei fácil na minha estante):

Tintim no país dos sovietes (1930)

Octobriana (1960?)

Vingadores versus X-Men (1987)

Colossus – Terra de Deus (1989)

Red Star (2001)

Superman – Entre a Foice e o Martelo (2004)

Che – Os últimos dias de um herói (1968; 2008)

Castro (2011)

Cada uma, ao seu modo, simbolizou o comunismo nos quadrinhos. Diferentes contextos, diferentes autores, todos acrescentaram uma camada a uma teoria/ideologia que influenciou todo o planeta nos últimos 150 anos.

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Na primeiríssima edição de Tintim, o intrépido jornalista criado por Hergé visita a ainda jovem União Soviética (a guerra civil bolchevique tinha terminado apenas 11 anos antes). Frio, pobreza, opressão do povo pelos comissários do Partido Bolchevique. A mensagem da edição é clara: na União Soviética jornalistas não são bem vindos, liberdade de expressão não existe. Por meio de Tintim, fica expresso que o comunismo soviético é uma ideologia opressora do povo russo. Mas como Hergé ficou sabendo?

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Sem dúvida que a União Soviética vivia no fim da picada, hoje sabemos por outras fontes, mas Hergé teria visitado Moscou para desenhar seus painéis? Se não foi, essa percepção era tão conhecida a ponto de livrar o autor de avaliar em 1ª mão? Seja como for, a opção na edição foi uma espécie de “vilanização” do país, quase um paradigma ao se falar do comunismo nos quadrinhos.

Octobriana

 Para quem nunca ouviu falar, Octobriana é uma espécie de Mulher-Maravilha comunista, criada supostamente em algum ponto da década de 1960 por estudantes da Tchecoslováquia. A principal característica da personagem é a sensualidade. Voluptuosa, de seios enormes, anda quase nua portando apenas um revolver e uma estrela vermelha na testa.octo

A origem da heroína é polêmica. O tcheco Petr Sadecký publicou em 1971 Octobriana and the Russian Underground, espécie de “biografia” da personagem. Ela teria sido criação de um movimento chamado “Pornografia Política Progressista” formado por dissidentes russos. Tudo balela. Sadecký foi, ele mesmo, criador da personagem, ao lado de Bohumil Konečný. A suposta biografia foi publicada em Londres, sabe-se lá como. A partir de 1990 passou a habitar as páginas das revistas inglesas como 2000 A.D. e ganhou até um filme de baixo orçamento em 2003. Por meio de Octobriana o mito comunista ganhou outro verniz: o fetiche sexual.

Em outro post já falamos bastante da edição de Vingadores Vs. X-Men. Enquanto os dois grupos de heróis se enfrentam por causa de Magneto, os Super Soldados Soviéticos entram na briga. Eles querem punir Magneto por ter afundado o submarino russo Leningrado, anos antes. A formação do grupo remete aos emblemas bolcheviques: Vanguard (com sua foice e martelo), sua irmã, a mutante Estrela Negra, Ursa Maior (Ursa Major, no original), Dínamo Escarlate (trabalhando para a KGB) e o Homem de Titânio (o rival soviético do Homem de Ferro).

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O que diferencia essa história é que os Super Soldados Soviéticos não são tratados como vilões da história. Assim como os X-Men, vários deles são mutantes. Quando um navio é atingido durante a batalha dos heróis, todos trabalham juntos para resgatar os sobreviventes. Heróis do proletariado, os Super Soldados Soviéticos abriram outra interpretação do comunismo: de ferozes rivais, diante de catástrofe, passaram a aliados valiosos.

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Terra de Deus” é uma minissérie espalhada pelas edições regulares dos X-Men (do n. 16 ao 20, nas edições em “formatinho” de Abril). Colossus, o herói russo de pele de aço, sai de férias pelo interior da América. Lá faz um exame das contradições e incoerências tanto da América quanto da União Soviética. Por exemplo, Colossus considera a publicação de pornografia um abuso dos direitos de expressão. Para ele, milhões de pessoas desempregadas, em condição de miséria, é algo tão ultrajante quanto uma ditadura.

Colossus

Na história, Bruce, um americano humilde e de pouca instrução, é obrigado a aceitar a ajuda de Colossus. Cabe ao herói russo orientar o americano, que é incapaz de reconhecer as falhas do próprio país. Nessa história o comunismo foi utilizado como um tipo de “voz da consciência” dos EUA.

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Red Star foi uma obra publicada pela Image Comics dez anos depois do fim da União Soviética. Visualmente belíssima, talvez seja a obra que mais aproxime o comunismo de uma lenda mitológica. Os dois números publicados no Brasil narram a história de Maya, uma espécie de “feiticeira do proletariado”. Ela é uma arma, “A vontade incendiária do Estado”, “o calor da ira da nação”. Ela faz parte do exército da “União das Repúblicas da Estrela Vermelha”, capaz de produzir poderosos ataques de energia. Melancólica, ela lembra do marido, um capitão de infantaria morto durante a invasão de “Al’istão”. As referências à União Soviética e à invasão do Afeganistão são óbvias.

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Apesar do enredo bem superficial, uma mistura de fábula e ficção científica, Red Star tem um grande mérito: fortalece a “estética soviética” como poucas mídias conseguiram. As naves, os uniformes, o vocabulário, tudo remete aos equipamentos e hábitos soviéticos, tão celebrados nos desfiles da Praça Vermelha. Se o comunismo em quadrinhos começou no território da vilania, em Red Star virou o mais puro folclore.

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Superman – Entre a Foice e o Martelo é uma das histórias mais célebres do homem de aço. Escrita Mark Millar, conta o que aconteceria se a nave que trouxe Kal-El para a Terra chegasse algumas horas depois. Devido à rotação do planeta, o Superman, ainda bebê, cai numa fazenda coletiva da Ucrânia, invés do Kansas, lar de Jonathan e Martha Kent.  Adulto, torna-se o maior herói da União Soviética, o poderoso defensor do Pacto de Varsóvia.

E mesmo assim leva uma surra do Batman

E mesmo assim leva uma surra do Batman

Nessa história, Superman vira o protegido e sucessor direto de Joseph Stalin. Sob a direção do último filho de Krypton, o comunismo vira uma força irrefreável no planeta. Uma utopia autoritária, pronta a lobotomizar qualquer dissidente (como o anarco-terrorista, Batman). Apenas um país ousa se opor: os Estados Unidos, liderado pelo único homem que desafiou a revolução proletária, Lex Luthor.  O desfecho da história, um tanto “deus ex-machina”, não diminui o valor da obra, uma grande reflexão: o que aconteceria com o mundo se o comunismo tivesse vencido a Guerra Fria? Superman – Entre a Foice e o Martelo foi um tipo de resposta.

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Em termos de formato, Castro, de Reinhard Kleist e Che- Os últimos dias de um herói  de Hector Oesterheld, Albert e Enrique Breccia, são bastante semelhantes. As edições lembram bastante o “jornalismo em quadrinhos” no estilo de Uma História de Sarajevo, de Joe Sacco.  Ambas são interpretações biográficas dos líderes da Revolução Cubana que derrubou Fulgencio Batista em 1959.

Castro é narrada a partir da perspectiva de um jovem jornalista. Fotógrafo, ele foi enviado para cobrir a Revolução mas pouco a pouco toma parte dela. Interessado no “El comandante”, testemunha a tomada de Sierra Maestra, cada cidade e povoado cubano em direção à Havana. O entusiasmo das batalhas, a dor das derrotas, o medo de perecer, a opacidade da propaganda, a crueza da vitória, tudo é narrado sem floreios, de forma seca, sem dar chance pro entusiasmo. Um exame límpido da Revolução. Isto é, tão límpido quanto permite os quadrinhos.

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Che, como descreve o título, mostra o período em que Ernesto Guevara passou na Bolívia, momentos finais da sua última guerrilha, pouco antes de morrer. Che e seus comandados sofrem a duras penas nas florestas bolivianas. Famintos, doentes, traídos pelas próprias pessoas que esperavam ajudar. Oesterheld, um célebre roteirista de quadrinhos, fez o possível para dissipar a imagem lendária do herói dos centro acadêmicos. Mas o efeito talvez seja justamente o contrário. Che – Os últimos dias de um herói virou uma verdadeira hagiografia do líder argentino. Vale apontar, a obra foi criada em 1968, pouco depois da exibição do corpo de Che Guevara, morto por forças bolivianas.

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Vilões opressores, provocantes sensuais, vigorosos aliados, nobres conscientes, bruxos poderosos, ditadores com boas intenções, revolucionários sem paixão, heróis sacrificados, esses são só alguns dos símbolos que os quadrinhos atribuíram ao comunismo.

Indicamos só alguns exemplos. Como interpretar o Mandarim? Ou a Viúva Negra? O Soldado Invernal?  Alguns vilões se transformaram em heróis num curto período de tempo. O que isso diz sobre nossos heróis? Nossos mitos? A memória que se faz de uma ideologia ou outra?  Sabe-se lá. Não temos todas as respostas, ainda não deu tempo para descobrir. No máximo, se os quadrinhos ensinam algo é que os mitos são bastante flexíveis.

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PS- Nossos votos que um velhinho de vermelho tenha visitado a todos os leitores do blog neste Natal! Boas festas!

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Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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8 respostas para O comunismo em quadrinhos: heróis, vilões, fetiches e biografados

  1. Indara disse:

    Excelente post! obrigada

  2. Hercules Cage disse:

    muito boa materia lembrei de varias hqs antigas que li

  3. Esqueceu de citar talvez a maior obra onde se deu o embate entre comunistas e capitalistas, onde a existência dessa polaridade é a responsável direta pelo seus desfecho: Watchmen, de Alan Moore. Há também várias obras literárias que são mais confiáveis que os gibis citados acima, para dar uma visão mais próxima da realidade sobre conceitos e personagens tão complexos quanto o Comunismo e seus ditadores, de Che e Castro a Mao e Stalin. “Cuba sem Fidel”, de Brian Latell, “Stálin, os Nazistas e o Ocidente”, de Laurence Rees, ou mesmo a obra literária em quadrinhos “Pyongyang – Uma viagem à Coreia do Norte”, do canadense Guy Delisle são bons exemplos a serem citados, pois o igualitarismo proposto pelos ideais comunistas passa pela eliminação sistemática de boa parte da Sociedade – entenda “eliminação” no sentido literal da palavra – fazendo uso de ferramentas e meios espúrios e imorais se necessário. Isso está presente em diversas obras e cartas escritas pelos fundadores das revoluções do proletariado, de Marx a Lênin, de Stálin a Che. Qualquer análise/obra literária ou em quadrinhos se que preze falar sobre comunismo deve mostrar os ingênuos seguidores da base (eu um dia estive em meio aos idiotas úteis) e suas lideranças e as contradições do discurso deles com suas práticas, de vida de luxo aos líderes do partido ao gosto pela tortura, morte e roubo de seus adversários.

    • DON OLAVÃO disse:

      LÁ VEM OS CARAS DNOVO.

      “Ingênuos seguidores da base” seguido de idiotas úteis. Os caras se puxam em transformar um tópico interessante em pregação ideológica.

    • André Lima disse:

      Boa noite,
      Sou conservador estou em busca de literaturas que retratem fielmente toda extensão comunista, socialista, nazista, fascista na arte como todo: música, filme, livros, pintura, desenho, revistas… busco me aprofundar, tenho sede desse conhecimento. Não posso no momento comprar livros, mas aceito indicação de artigos, livros e comentário dos grandes homens e mulheres que empenharam suas vidas no combate a essas perigosas ideologias.

  4. Nathalia disse:

    Oi, tudo bem?
    Estou fazendo um ensaio sobre a DC Comics e preciso utilizar fontes confiáveis, Poderia me dizer quais foram as referências para a criação da matéria?
    P.S. Gostei bastante do que vocês escreveram ^^
    Obrigada pela atenção, bjs.

  5. marcos roberto disse:

    pow não citou o arco de hqs do capitão américa “soldado invernal” escrito por ed brubaker!!

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