Magneto e Stalin: um vilão pode estar certo?

Diante de crise, descrença, incerteza, do desastre e da fome, por que não se alistar entre os seguidores de alguém que dispõe de recursos e promete a segurança?

No 20º Congresso do Partido Comunista, em fevereiro de 1956, Nikita Kruschev fez uma revelação bombástica: Joseph Stalin promoveu um dos maiores genocídios da história, o que, para Kruschev, deturpava a causa soviética.

Numa estimativa modesta, entre 10 e 11 milhões de soviéticos foram mortos via aprisionamento, fome ou diretamente executados por ordem do ditador antes da 2ª Guerra Mundial. Até a morte de Stalin, em 1953, o número teria chegado a cerca de 20 milhões.

E por que?

Porque Stalin era o coração de um Estado fundado na brutalidade e no medo – o totalitarismo – e ele acreditava “estar fazendo a coisa certa”.

Já falamos por aqui, os melhores vilões nos quadrinhos são os heróis da própria narrativa. São vítimas de infortúnios e, uma vez dotados dos meios necessários, transformam aquele trauma numa causa, numa ideologia, um projeto social ou político.

Segundo o historiador britânico Simon Sebag Montefiore, Joseph Stalin, ou melhor, Ioseb Besarionis dze Jughashvili, apaixonou-se e se casou com Ekaterina Svanidze quando tinha por volta de 21 anos, em 1899. Cerca de um ano depois, Svanidze morreu de tifo. Durante o cortejo fúnebre, Stalin (ou Koba, como era apelidado) teria desabafado para um amigo: “Ela morreu e com ela morreram todos meus bons sentimentos pelas pessoas.”

Nos quadrinhos, um dos exemplos mais cândidos de vilão, que faz do trauma pessoal uma cruzada em nome de uma causa nobre, é Magneto. O melhor amigo do Prof. Xavier é uma vítima da Shoah, o holocausto executado pela Alemanha Nazista. Judeu e mutante, Magneto dedicou a vida adulta a impedir que os mutantes sejam subjugados pela humanidade. A causa de Magneto não só é coerente, ela é aderente, romântica. Difícil não simpatizar, certo?

Pense bem: se você fosse um mutante, diante de crises, da descrença, incerteza, do desastre e da fome, por que não se alistar entre os seguidores de alguém como Magneto, que sofreu as mesmíssimas agruras? Que outra razão alguém deveria ouvir se há quem compartilhe desses sentimentos, dispõe dos recursos adequados e propõe uma alternativa em nome de segurança, como o líder radical mutante?

No caso dos quadrinhos, a razão para não alinhar-se com Magneto é simples: porque ele ameaça, achaca e assassina pessoas, inclusive indefesas, para atingir seus fins. Se indagado sobre estes meios, ele diria: “faço isso pelas crianças mutantes do amanhã”, um sacrifício da consciência em nome do futuro.

O tema foi explorado nas edições dos X-Men escritas por Grant Morrison e mostrava que os jovens, como Esme, uma das irmãs Stepford, eram mais suscetíveis ao lado hostil do dilema.

Mas vamos além do universo mutante. Armadilha retórica insidiosa, “não aderir ao movimento” seria sinal de indiferença às “crianças do amanhã”. Seria uma falta de humanidade, torpeza de espírito e, ao final, o verdadeiro vilão seria quem recusa seguir com paixão os mandamentos daquela liderança.

A punição para quem recusa esta “ética” teria que ser imediata e teatralmente exemplar. Na ficção, exemplos deste mecanismo não faltam, mas a adaptação de O Conto da Aia, de Margaret Atwood para a TV tem sido especialmente chocante.

A adesão à “causa justa” deixa de ser apenas atraente ou romântica. Quando a possibilidade de espontaneidade, de criatividade ou de mera não-adesão são extintas, a moral do vilão se torna sufocante. O esforço “legítimo” para manter o bem-estar e coesão deste ente social, “a comunidade”, torna-se mais dominante do que qualquer desejo individual.

Isso significa que todo sujeito que sofre traumas pessoais fatalmente se tornará vilão como Stalin e Magneto? Apenas aqueles despidos de traumas pessoais se tornarão heróis/pessoas boas? Existe alguma alternativa?

Claro que existem alternativas. Nos quadrinhos, Batman, Coisa, Homem-Aranha, Wolverine e tantos outros são heróis cuja origem está num passado de traumas, tragédias e muita dor. No entanto não sucumbiram para o lado da vilania – embora haja matizes de diferentes formas de violência que eles chegam a praticar.

Mas convenhamos, estes heróis são bens preciosos demais para as duas grandes editoras de quadrinhos – Marvel e DC. A despeito dos traumas que definem os personagens, eles exercem uma função educativa. Do ponto de vista narrativo isso exige que eles permaneçam no campo dos “mocinhos”, apesar de tudo. Portanto, os traumas das violências que vivenciaram jamais podem ser plenamente explorados como uma pessoa real poderia, o que incluiria cometer atos nada louváveis.

(Exceções são personagens como Rorschach, Dr. Manhattan e Coruja, de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, até agora circunscritos ao seu universo narrativo. Insinuado a meses, agora a DC vem dando sinais da aproximação do seu universo narrativo regular à realidade criada na série Watchmen.)

Raras vezes os meios do mainstream – a grande corrente de mídia, que é o cinema e os quadrinhos – dão luz devida àqueles personagens que não têm razão para serem heróis. Com “luz devida” entenda-se a abordagem narrativa que acolhe as forças de causalidade mais marcantes e indesviáveis dos personagens, que são mais presentes na literatura. Por exemplo, o Bentinho, de Machado de Assis, é um sujeito falho e inseguro, e isso determina o desdobramento das suas relações na narrativa.

Com “personagens que não têm razão para serem heróis”, aqui vale destacar dois pólos opostos de Magneto:

Mad Max: o personagem dos filmes de 1979, 1981 e 2015 dirigidos por George Miller é, por definição, insano, traumatizado pelo assassinato brutal da família. É um andarilho sem rumo na aridez da pós-civilização. No entanto, jamais cede à “tentação” de transformar a própria dor numa causa moral contra o restolho de humanidade que o cerca. Ele é indiferente ao caos daquele pedaço de mundo e preferia simplesmente não ter que conviver com a barbárie. No máximo, ao tentar ajudar sobreviventes nos filmes de 1981 e 2015, ele revela possuir algum traço de solidariedade. Um avanço esplêndido – e convincente – diante das circunstâncias daquele cenário.

Pantera Negra: o personagem ganhou um espaço maior na trama de Capitão América 3: Guerra Civil (2016) até a presença do Homem-Aranha, cujos direitos são da Sony, ficar devidamente negociada com a Marvel Studios. Grata surpresa, a sub-narrativa do herói mostra um arco completo para T’Challa. Após ver o pai ser assassinado, busca um equilíbrio difícil: conviver com a dor da perda, buscar o assassino do pai, ser fiel às crenças do seu povo e assumir seu lugar como soberano de Wakanda. Num dos momentos menos lembrados do filme – e talvez o melhor de todos – T’Challa impede que o Barão Zemo se mate. “A vingança consumiu você. Ela está consumindo eles [Capitão América e Homem de Ferro]. Eu não vou deixar me consumir.

Mad Max e Pantera Negra não são heróis melhores porque fazem o bem. Ali são mostradas circunstâncias que até favoreceriam eles serem vilões. Nestas histórias eles são personagens melhores porque eles poderiam agir com brutalidade e violência sem qualquer censura de nossa parte. Nestas histórias eles mostraram que os vilões somos nós.

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2 respostas para Magneto e Stalin: um vilão pode estar certo?

  1. Jorge disse:

    Texto muito bom.

  2. Belo texto – e muito oportuno. Um cara chamado Joe Navarro, ex agente do FBI, frequentemente cita os chamados “wound collectors” (os “colecionadores de feridas”). Embora ele use esse termo pra falar geralmente de extremistas solitários (ex: https://www.psychologytoday.com/blog/spycatcher/201509/wound-collectors), não há dúvida que o mesmo se aplica a todos esses caras que você mencionou.

    E acho que o mais importante é o que você fala no final dando o exemplo do Pantera Negra: essa é uma linha facílima de se atravessar (não foi o próprio Coringa quem disse que tudo que se precisa é de um dia ruim?).

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