De Hitler à Ciclope, Stalin e Superman: o Totalitarismo em quadrinhos

Nós pagamos um preço alto por tempo demais… Agora, o mundo real é moldado pelo nosso mais modesto desejo. Toda a realidade… como aquilo que desejarmos. Você não vê? O dia que você esperou por tanto tempo chegou… Aqui está seu sonho, Charles. Eu o entrego a você.”

Foi assim, assertivo, que Ciclope descreveu sua utopia para o velho professor, Charles Xavier.

Na edição n. 6 de Avengers vs. X-Men (lançada nos EUA em junho), o herói Ciclope, imbuído do poder da força Fênix, toma as rédeas do mundo e concretiza aquilo que tantos ditadores do mundo real almejaram, mas nenhum conseguiu: a autoridade total e irrestrito sobre todo o mundo (nos quadrinhos, Ciclope chama isso de “Pax Utopia”).

“E quando sair, vê se apaga a luz. Senão eu volto.”

Pensando bem, “irrestrito” talvez seja um exagero; afinal os Vingadores estão lá para conter Ciclope e os seus, aparentemente, benfazejos atos.

Mas para todos os efeitos não se pode negar o fato de que o líder dos X-Men transformou a Terra num regime totalitário de escala planetária.

Ele não está sozinho.

Nos quadrinhos, a pretensão ditatorial de heróis tem vários precedentes. Alguns se deram bem, outros nem tanto. Mas todos eles passaram de forças de manutenção da paz e ordem para forças de imposição da paz e da ordem (deles). Mais abaixo, uma lista com cinco exemplos da categoria.

Para estabelecer um critério, recorri à Hannah Arendt, insuperável no exame do Totalitarismo. Em Origens do Totalitarismo, ela destrinchou em detalhes o fenômeno social mais sangrento da História (6 milhões de judeus, só no caso do nazismo). Dela, tiro aqui algumas características que colocam Ciclope no mesmo filão de Adolf Hitler e Joseph Stalin.

(Não inclui o Hitler e Stalin nessa lista porque eles mataram poucas pessoas em comparação. E também não achei gibi deles – graças a Deus)

Bem por cima, sem pretensão científica, são elementos básicos do totalitarismo:

  • fanatismo irrestrito dedicado à figura do líder nacional (crença na infalibilidade do chefe);
  • uso sistemático (racional) e espetaculoso da violência;
  • a autoridade do líder escorada na idéia de “transformação”, “renovação” ou simplesmente “movimento”;
  • controle da imprensa e propaganda;
  • “cegueira moral” voluntária dos indivíduos, conformados pela sensação de “pertencimento”;
  • adesão total das massas (assunto do qual o Nerdbully é mestre);
  • ubiquidade do Estado (ou regime).

Entre os “heróis” de quadrinhos que obedecem esses elementos estão:

Magneto em Casa de M (2005)

Graças aos poderes de sua filha, a Feiticeira Escarlate, Magneto se tornou o soberano absoluto de uma realidade onde os mutantes finalmente ganharam a supremacia nos governos da Terra. Todos os mutantes teriam um final feliz, não fosse a síncope esquizofrênica da Feiticeira, que estilhaçou toda aquela realidade e fez tudo voltar ao normal.

Parallax em Crepúsculo Esmeralda (1994)

Hal Jordan, o maior dos Lanternas Verdes, ficou traumatizado ao ver Coast City, sua cidade natal, ser avassalada pelo vilão Mongul. Alucinado de raiva, assassinou os Guardiões de Oa, seus mestres, tomou os anéis de todos os outros lanternas e rebutou a realidade.

A intenção era “restaurar” a existência de seus entes queridos, corrigir os erros do passado, o que implicava em matar tantas outras pessoas, de modo a garantir um futuro mais feliz (e onde ele sempre fosse considerado um herói).

Como diz Arendt: “[…] O terror, como execução da lei de um movimento cujo fim ulterior não é o bem-estar dos homens nem o interesse de um homem, mas a fabricação da humanidade, elimina os indivíduos pelo bem da espécie, sacrifica as ‘partes’ em benefício do ‘todo”’. P. 517

Homem de Ferro  em Civil War (2006-2007)

Após uma equipe de heróis de 5ª divisão explodir uma creche com dezenas de crianças, o Homem de Ferro expõe sua identidade de Tony Stark ao governo dos Estados Unidos. Ele espera que outros heróis sigam seu exemplo, passem a atuar como agentes do estado e impeçam – legalmente – novas tragédias.

Muitos aceitaram; outros, como o Capitão América, recusaram. O cisma dividiu o universo Marvel: de um lado, os heróis legalistas (e sob os auspícios de Stark); de outro, os heróis ilegalistas (liderados pelo Capitão).

Impossível não lembrar, Civil War tem cara de nazismo; palavras de Arendt: “A ascenção de Hitler ao poder foi dentro do sistema majoritário […] tratava-se da ‘primeira grande revolução da história realizada com a aplicação da lei existente no momento da tomada do poder.” P. 356

Authority (1999)

O grupo Authority é um dos melhores exemplos de abuso heróico: uma célula anarco-pacifista, o grupo não é uma força de reação às injustiças, mas age agressivamente para impedir novas atrocidades. E “agressivamente” quer dizer derrubar governos e executar ditadores. Invadem transmissões de rádio e televisão impunemente e determinam padrões de comportamento a todos os habitantes do mundo. Mas em nome da paz.

Diz Arendt: “[…] a propaganda dos movimentos totalitários, que precede a instauração dos regimes totalitários e os acompanha, é invariavelmente tão franca quanto mentirosa, e os governantes totalitários em potencial geralmente iniciam suas carreiras vangloriando-se de crimes passados e planejando cuidadosamente os seus crimes futuros.” P. 356-357

Superman – Red Son (2003)

Uma das premissas mais originais dos quadrinhos, Red Son conta o que aconteceria se Kal-El, o último filho de Kripton, tivesse aterrissado na Terra algumas horas depois. O resultado seria cair na União Soviética ao invés dos Estados Unidos. Lá, o Superman se tornou o sucessor de Stalin como Secretário Geral de Estado. Levou a causa bolchevique a todos os cantos do mundo, que aceitam, com ou sem lobotomia, os ideais do socialismo leninista.

Miracleman (1982-1985)

Ele foi, sem dúvida, onde nenhum outro herói jamais esteve. Criação de Mick Anglo e reelaborado por Alan Moore, Miracleman é uma versão análoga inglesa do Capitão Marvel; o herói é alter-ego de Micky Moran, um fotógrafo franzino que teve sua identidade heroica apagada da memória por décadas. Ao gritar “Kimota!”, Moran tem restaurado todos os seus poderes e habilidades. Isso traz uma implicação existencial fundamental: por que uma entidade superior a humanidade deveria se sujeitar à mesma moral?

As edições de Miracleman mostram como é impossível para um “super-herói” ser qualquer coisa menor do que um deus entre os homens. É essa função, conquistada por enormes atrocidades e seguida pela mais sublime devoção, que Miracleman toma para si.

Na verdade não se pode associar Miracleman a totalitarismo, pois o conceito é carregado de limites inextricavelmente humanos; e ele não é um humano. Ao escrever Miracleman, Alan Moore criou uma alegoria inspirada no conceito de Ubermensch, do filósofo alemão Fridriech Nietzsche, e não sobre formulações políticas (algo muito mais explorado em V de Vingança).

É curioso que nas edições de Avengers vs. X-Men, Ciclope tem caminhado a passos largos na mesma direção que Miracleman; tal como Moran, caolho Summers parece ter plena consciência das implicações morais de seus atos. Exatamente por isso não se esquiva de executá-los.

Agora, qualquer personagem de quadrinhos, se fosse bem sucedido na sua empreitada, poderia ser alçado à condição de chefe de estado, herói nacional, líder de um povo, com total apoio de todos aqueles que assistem à trajetória daquela jornada. Mas como garantir que ele não é o vilão? Ou que ele estava errado?

É a pergunta que fez Alan Moore em 1987: who watches the watchmen?

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