ERAM OS DEUSES SUPER-HERÓIS?: Thor, retcons e alienígenas

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83017-176623-mjolnir[1]Nunca fui um grande fã de Thor. Aliás, sempre achei sua concepção como super-herói muito fraca. Do modo como foi contada pela primeira vez, a carreira super-heróica de Donald Blake parece ter começado por mero acaso. É verdade que a maior parte das origens dos super-heróis está ligada a acontecimentos incomuns, que mudaram a trajetória de pessoas que, em outras circunstâncias, seriam comuns. Mas a origem de Thor exagera. Convenhamos: um médico franzino e manco (americano, claro) de férias na Noruega se esconde numa caverna para fugir de uma invasão alienígena, encontra uma bengala de madeira, que na verdade é um martelo mágico disfarçado, e recebe todos os poderes do deus nórdico do trovão (entre outras coisas) quando bate o cajado no chão não é uma história de origem elaborada e empolgante que vá fazer uma pessoa se interessar por um super-herói.

thor501a[1]Então, vieram as retcons: (1) Donald Blake era mesmo Thor, que Odin exilou de Asgard depois de apagar sua memória para que aprendesse a ser mais humilde e o cajado/martelo foi deixado na caverna, magicamente escondido de qualquer outra pessoa, para que Don o encontrasse no momento propício — forçado, mas funciona; (2) Thor e os asgardianos são construtos concretizados (liberdade filosófica) pela crença das pessoas em sua existência, mais ou menos como as fadas em Peter Pan — mas foi só por uma (longa) história, então, vá lá; (3) os asgardianos não são deuses, mas uma raça alienígena com grande longevidade e que os humanos, em grau mais primitivo de desenvolvimento, encararam como deuses e passaram a adorá-los — isso invalidou quase tudo o que se sabia sobre os asgardianos no universo Marvel e é só uma leitura mal-feita de Eram os deuses astronautas? (que também ganhou muito mais atenção do que merecia, já que Erich von Däniken nunca apresentou evidências, só fez perguntas ardilosas com o propósito de desacreditar o trabalho investigativo de historiadores e arqueólogos do mundo inteiro e ganhar dinheiro com isso).
frogliftinghammer[1]E há as incontáveis esquisitices de roteiro: Thor vira mulher, Thor vira sapo, Thor continua falando com sapos depois de voltar ao normal, Thor sofre de uma osteoporose maldita que o obriga a usar armadura, Thor vira uma geléia viva dentro da armadura porque todos os seus ossos foram moídos, o espírito de Thor domina a battle49[1]máquina de matar conhecida como Destruidor, Thor é abandonado pela namorada que prefere ficar com um alienígena com cara de cavalo, Thor redefine o ménage a trois quando suas namoradas SifJane Foster ocupam o mesmo corpo… E por aí vai. (Os fatos citados aqui não estão, necessariamente, em ordem cronológica, se é que faz sentido falar em cronologia quando basta uma canetada de um editor metido a besta ou um roteirista babaca com pretensão de revolucionar os quadrinhos pra apagar tudo o que nós sabemos sobre essa ou aquela personagem ou até um multiverso inteiro).
Thor%2520-%2520A%2520Saga%2520de%2520Surtur%2520-%2520CAPA[1]É claro que há boas histórias, principalmente aquelas que estão mais centradas na mitologia nórdica. A Saga de Surtur foi uma das histórias mais divertidas que já li (e nem precisei passar pela angústia de esperar semanas pela revista seguinte, porque li anos depois, quando um amigo me emprestou a saga completa), tão empolgante quanto ver a batalha contra Jörmungandr (ainda que decepcionantemente curta). As histórias da juventude de Thor, Loki e seus amigos são bem construídas. E há o Thor dos Supremos, que parece só um eco-ativista maluco e super-poderoso, até que ele convoca os asgardianos pra dar um pau em Loki e seu exército demoníaco e você, o mundo e os outros Supremos ficam com cara de “PQP!!! O cara é mesmo o deus do trovão!!!” — meu favorito ever!!!

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Por tudo isso, não esperava grande coisa quando anunciaram o lançamento do primeiro filme. Mesmo gostando bastante da abordagem que fizeram no universo Ultimate, era pouco provável que ela fosse a referência para o filme. De fato, não foi.
avengers-thor-iron-man-captain-america[1]Para que as coisas se encaixem com alguma coerência no Universo Marvel cinematográfico (isso parece não importar muito nos gibis), o mundo tecnológico do Homem-de-Ferro tem que ser consistente com o mundo mítico de Thor: magia é definida como uma forma de tecnologia e, apesar de serem tratados como deuses, o Capitão América é bem enfático em Vingadores, quando diz algo como “Só há um Deus e eu duvido que Ele se vista dessa maneira. Então, também é ambíguo e vago o status dos asgardianos.
FF262_Odin[1]O problema é bem simples: o que fazemos com todos aqueles anos de histórias em que Thor se afirma como deus? Uma coisa é ele ser de uma espécie com longevidade e capacidades muito acima da humanidade e ser divinizado por isso, mas daí a ele se assumir como deus?! E não só ele, mas todos os asgardianos?! Então, se Thor e os outros asgardianos não são realmente deuses, não seria mais natural que ele explicasse esse detalhe quando se apresentasse no século XX, em vez de continuar se afirmando como deus? Ok, os asgardianos geralmente se referem a Odin como senhor, rei ou soberano, mas também o chamam de rei dos deuses. Então, talvez tanto tempo sendo adorados e tratados como deuses tenha feito com que eles mesmos acreditassem nisso. Mas Odin é um dos caras que mantêm o equilíbrio cósmico — imagino que isso o qualifique como deus — e o universo Marvel está cheio de personagens mitológicas — a danikenização vale só para os deuses nórdicos ou para todos os outros também?

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Transformar Thor num ET é a mesma coisa que apagar o casamento de Peter ParkerMary Jane ou dizer que o Capitão América não passou décadas congelado para acordar em nosso tempo. (Melhor não dar idéia). Não é uma simples mudança de abordagem. É invalidar praticamente tudo o que se sabe sobre o passado do herói, sem assumir que se trata de um universo novo, alternativo, paralelo ou qualquer outra dessas fórmulas tradicionalmente usadas para “corrigir” essas supostas falhas de roteiro/abordagem. (Talvez o método DC de dar reboot de tempos em tempos sirva mesmo pra alguma coisa, afinal).
3263287[1]Mas eu estava falando do filme. Ver o Thor danikeniano (ainda que ambíguo) no cinema não me incomodou tanto quanto eu imaginava. Talvez porque eu já não esperava grande coisa do filme. Ou talvez porque eu já estivesse mais preparado para as inevitáveis adaptações ou mudanças de abordagem quando uma história migra de uma mídia para outra. (Ainda acho absurda a teia orgânica do Homem-Aranha e o Wolverine dos filmes-solo não é o Wolverine. E que [piiiii…] é aquele Mandarim???!!!). Se ignorarmos toda a trajetória de Thor nos quadrinhos (se é fácil ou difícil de se fazer, vai de cada um) o filme funciona. Pode não ser um filme de primeira linha, daqueles que vai ficar na memória, mas tem uma história encaixada, os efeitos foram feitos direitinho, a música cria o clima. É divertido o bastante, mas você há de concordar que o grande mérito dele foi preparar o terreno para os Vingadores  — esse, sim, um filme que será lembrado por muito tempo ainda.

Thor-2-Banner[1]

Thor: O Mundo Sombrio estréia hoje e promete. Se vai cumprir ou não é uma outra história. Lembrem-se do que houve com o Homem-de-Ferro: um filme muito bom, uma seqüência mais-ou-menos, um terceiro que merece ser esquecido. Abaixo vocês podem ver a opinião dos outros Quadrinheiros sobre o filme. Quanto a mim, vou ver o filme mais tarde, sem grandes expectativas porque isso aumenta minhas chances de ser surpreendido positivamente.

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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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21 respostas para ERAM OS DEUSES SUPER-HERÓIS?: Thor, retcons e alienígenas

  1. Pois é cara eu achei foda Homem de Ferro 3, acredito que o final não é ruim pois ele da um gancho pra frente ele não tem poderes e foi salvo por quem ele na vida queria proteger e não deu conta, sobre Thor 1 gostei dele ser um um ser de outro planeta confundido pelos humanos como Deus, assim fica mais fácil colocar na historia uma derrota e uma volta por cima… bom minha opinião.

  2. Caio Egon disse:

    O terceiro retcon no começo do texto foi devidamente ignorado e apagado da cronologia do personagem

  3. Sergio Nova disse:

    O problema de Thor é que a personagem é tremendamente fascistóide. Nem sei como foi que a Marvel deixou escapar quando Frank Miller coloca o trio Capitão América/Thor?Homem de Ferro como grandessíssemos lacaios do sistema. Adicionalmente, o cara deve ser retardado, pois vivendo há décadas entre mortais contemporâneos, nunca apresendeu a se expressar com os pronomes em uso. Arre!

    • Quotista disse:

      Quanto ao conteúdo político, gostaria que você apresentasse seus argumentos. Pode ser enriquecedor. Quanto ao linguajar do Thor, vou dar um exemplo bem simples: meu avô chegou ao Brasil ainda bebê, viveu do final da adolescência até a morte em São Paulo e nunca aprendeu a conjugar os verbos direito. A maioria das pessoas não se preocupa em ajustar a linguagem quando a comunicação é estabelecida. Sotaques são ajustados com mais facilidade que o vocabulário ou as flexões.

      • Sergio Nova disse:

        A postura ideológica pode ser vista em “A Queda de Murdock”. É breve, mas é pesada. Eu não me referi ao vocabulário de Thor, mas a pronominação que ele utiliza. Ele fala um inglês perfeito, mas arcaico, e é muito mais fácil adaptar os pronomes em inglês (thou/you) do que em português (tu/você), onde a conjugação é deveras diferente, então não se justifica.

        Quanto ao seu avô, a história não faz sentido. Se ele chegou ao Brasil ainda bebê, ele aprendeu a falar no Brasil, simplesmente. A dificuldade com a língua deve ter outra explicação.

      • Quotista disse:

        Boa lembrança. Frank Miller sempre foi um tanto conservador. Isso não o impede de escrever boas histórias de vez em quando. (Ultimamente, deixa pra lá…)

        Quanto à linguagem, acho que não me fiz entender. A maioria das pessoas só ajusta seu modo de falar (e por ajuste me refiro à vocabulário, correção gramatical, figuras retóricas, etc) quando precisa se encaixar numa situação, vencer uma barreira de comunicação. Voltando ao caso do meu avô, ele passou a infância e a maior parte da adolescência quase exclusivamente na colônia. Viveu a maior parte da vida na cidade grande, era extremamente comunicativo, mas nunca sentiu necessidade de aprender a falar português direito porque sempre conseguiu se fazer entender. Tenho amigos que vivem em outros países e se viram no idioma local e não aprimoram o uso da língua por falta de necessidade. Para me comunicar com meus alunos, tive que incorporar uma série de hábitos de linguagem que não faziam parte do meu repertório. Então, Thor não muda seu jeito de falar porque não sente necessidade. Ele pode até perder o sotaque, mas o conjunto de palavras mais usadas continua basicamente o mesmo.

  4. NoGod Atall disse:

    Sua opinião sobre a obra de Erich von Däniken apenas mostra o quanto você desconhece o trabalho do autor, mas ta valendo, ele irrita muita gente mesmo.
    A unica sentença que você acertou quando o mencionou foi “…fez perguntas ardilosas…” (o que é EXATAMENTE a proposta do livro. Não, não nada incomum ou de natureza duvidosa em colocar perguntas em um livro de perguntas.
    O antes e o depois pode jogar no lixo.

    • Quotista disse:

      Däniken carece de rigor científico. Tudo o que ele tem é um monte de inferências, algumas das quais inclusive contrariam o que décadas de estudos vêm demonstrando sobre culturas antigas. É um exercício especulativo interessante e, como alicerce para ficção, acho muito divertido. Boas histórias podem sair disso. Mas é como Dan Brown, um monte de especulações que induzem o público leitor a aceitar certos discursos como verdadeiros sem que ele sequer se dê ao trabalho de apresentar evidências. Mas você há que me perdoar, porque parte da minha rejeição a Däniken, Brown e outros autores que trabalham com essa linha é mesmo fruto daquela arrogância intelectual tão comum na academia. (E olha que eu resolvi que não ia seguir carreira. Imagina se seguisse).

      • Sergio Nova disse:

        Concordo que o trabalho de Däniken não possui alicerce algum; é apenas uma coleção de suposições, mas é assumidamente assim. A obra do cara é, por natureza, especulativa.

        Compará-lo a Dan Brown é exagero. Brown escreve uma coleção de besteiras históricas, científicas e teológicas como se fossem a mais óbvia apresentação da verdade. A cara de pau do sujeito é de causar espanto a uma porta de mogno, com a diferença que a porta de mogno é madeira de lei. Bem, funcionou, já que ele ficou milionário com um manual de besteiras chamado “O código Da Vinci”. O público adora esse tipo de pseudo-literatura.

      • Quotista disse:

        Pra ser honesto com o Brown, já peguei uma entrevista dele em que ele parece bem honesto: ele expõe que sua fórmula de sucesso está em costurar teorias de conspiração e afins de uma maneira coerente e que não é sua culpa se grande parte dos leitores acredita que ele usa o romance para revelar verdades ocultas. Fato. (Mas continuo não gostando do cara).

  5. NoGod Atall disse:

    Mais uma coisa, o segundo filme do homem de ferro fez mais sucesso que o primeiro e o terceiro filme mais sucesso que os outros 2 juntos então de onde você tirou que o filme “merece ser esquecido”? O filme é ótimo, e não sou eu que to falando não, são os números mesmo.

    Ha um arco de histórias do Thor (o melhor de todos na minha opinião) que você não mencionou, aonde ele é retratado (com um toque bem realista) como um Deus (com o D maiúsculo mesmo) o arco mostra o que acontece na terra quando se tem um Deus de verdade salvando e ajudando a todos, na minha opinião foi o melhor arco de histórias que já fizeram dele, aqui no Brasil acho que saiu em uma unica revista. Não me lembro o nome desse arco, Alguém sabe?

    • Quotista disse:

      Não sei se você é um leitor assíduo do nosso blog, mas uma das poucas coisas que concordamos quase sempre aqui é que números nem sempre são sinônimos de qualidade. E qualidade é sempre um valor subjetivo. Iron Man 2 e 3 fizeram grande sucesso junto ao público, não questiono isso. Apenas acho os dois muito inferiores ao primeiro, muitas inconsistências de roteiro, muitas fórmulas batidas. Mas também entendo por quê tanta gente gostou, assim como entendo por quê meus alunos gostam de funk. Só não concordo com as razões. E, já que escrevo sempre em primeira pessoa, fica claro que é minha opinião, não a verdade. (Embora a opinião seja sempre apresentada como uma forma de verdade).

      Não me lembro desse arco que você mencionou. Como eu disse no começo do post, Thor nunca foi um dos meus favoritos. Então, posso ter dado azar de ter escolhido as histórias erradas pra ler e isso me afastou das boas histórias. Se lembrar, me avise.

  6. Essa questão dos asgardianos serem alienígenas está (magistralmente) explicado na série Terra X. Esst série, aliás, considero definitiva para o entendimento do universo Marvel, pena que nunca teve o reconhecimento devido.

    • Quotista disse:

      Terra X foi uma boa história, de fato. Funcionaria bem como um fim do universo Marvel como conhecemos e poderia abrir espaço para um reboot de verdade, mas isso seria uma tentativa muito ousada e que poderia dar muito errado sem os roteiristas certos.

  7. Koppe disse:

    Ainda acho absurda a teia orgânica do Homem-Aranha e o Wolverine dos filmes-solo não é o Wolverine. E que [piiiii…] é aquele Mandarim???!!!

    Podia ser pior… colocaram uma mulher no filme do Lanterna Verde, e tentaram fazer a gente acreditar que aquela é a Amanda Waller…

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