Pensando quadrinhos: Mark Waid e o poder da narrativa

É célebre a frase de Burroughs em que ele proclama que a linguagem é um vírus. Essa ideia tem várias interpretações possíveis, mas a única que vou utilizar aqui é a de que um  vírus se reproduz parasitando outros seres vivos.

É como se fosse algo estranho a nós e apenas em nós encontrasse o local propício para se desenvolver plenamente. Pronto. Burroughs deixa de ser útil aqui. Gostaria de modificar um pouco sua ideia inicial.

William S. Burroughs

William S. Burroughs

Vamos pensar na narrativa como algo que se reproduz em nós. Narrativas são instrumentos poderosos. Histórias são capazes de dar sentido à nossa existência e de nos remeter a algo que pode transcendê-la. Joseph Campbell já nos mostrou que a humanidade conta a mesma história desde que existe, que é o ciclo heroico ou monomito. Sempre a mesma história e não obstante sempre diferente. E por que? Porque narrativas são como vírus. Elas nos habitam e se reproduzem em nós e somente em nós podem se desenvolver completamente.

Mark Waid

Mark Waid

Quando pesquisávamos para fazer nossa nova web-série, Guerra dos Roteiristas, eu e o Picareta Psíquico descobrimos uma entrevista de Mark Waid, célebre roteirista do Reino do Amanhã, em que ele diz que tudo o que escreveu remete a uma história lida por ele quando criança, que você pode ler aqui. Trata-se da primeira aparição de um dos maiores inimigos da Legião dos Super-Heróis, Mordru. A história foi publicada pela primeira vez em 1968 em Adventure Comics #369 e #370, escrita por Jim Shooter (que seria editor da Marvel futuramente) com desenhos de Kurt Swan. Você pode ver o episódio aqui embaixo:

Eis um resumo da história, retirado do blog O silêncio dos carneiros:

Os Legionários Mon-El,Superboy, Dama Dupla e Penumbra fogem no tempo para não confrontar o terrível Mordru (cujo primeiro confronto com a Legião é relembrado por Mon-El).

Chegando em Pequenópolis se disfarçam como adolescentes. Mordru usa de artifícios para tentar revelar os disfarces mas não consegue, até que eles resolvem retornar ao século XXX (depois de enfrentarem gangsteres que queriam comissões do comércio local).

Adventure Comics #369

Mas antes do retorno Mordru materializa-se nos anos 1950, nossos heróis fogem e num processo de auto-hipnose esquecem as identidades secretas.

Mordru não se contêm e arranca Pequenópolis [Smallville] da Terra, o que faz Peter Ross (que conhecia o segredo do Superboy) e Lana Lang, na época legionária reserva (Rainha dos Insetos, um anel biogenético permitia a ele transformar-se em qualquer inseto) intervirem.

Os legionários recordam-se de suas identidades e enfrentam o feiticeiro, sendo derrotados e aprisionados.

Com o auxílio de um feitiço fogem e derrotam Mordru, enterrando-o novamente.

No retorno ao século XXX descobre que a sede estava intacta e a equipe tinha conseguido salvar-se”

Adventure Comics #370

Em outra entrevista Waid diz que aos 4 anos de idade já lia e colecionava histórias em quadrinhos, idade que tinha quando a história foi lançada, e o que o atraiu tanto foi a trama muito bem estruturada e a ação frenética da revista, com um bom gancho entre uma edição e outra.

É impossível não lembrar do discurso do Superman ao final de O Reino do Amanhã quando a Legião inspira os moradores de Smallville a lutarem contra as forças de Mordru, e, em seguida, serem por eles inspirados para combater Mordru.

dc comics

As reviravoltas na trama são constantes. O que acontece é mais importante do que como acontece. A ação comanda a lógica e não o contrário. Um típico quadrinho da Era de Prata, referência básica de Waid em seus trabalhos, que também remete à ação frenética de sua relativamente recente fase com o Demolidor.

daredevil-17-mark-waid-mike-allred

Comentamos mais detalhadamente essa fase do Homem Sem Medo aqui:

Uma história lida quando criança foi replicada de alguma forma por todas as histórias escritas por Waid. De alguma forma, todas as narrativas que ele escreveu remetem àquela mesma história lida quando ele tinha apenas 4 anos. E muito provavelmente, a história de Shooter remete a outra, que remete a outra… No limite ainda estamos contando a mesma história de maneira diferente. De algum modo isso atesta que há algo de imutável – talvez até de transcendente – nessa existência provisória!

Se a linguagem é um vírus, a narrativa é um simbionte!

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8 respostas para Pensando quadrinhos: Mark Waid e o poder da narrativa

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  3. A tentativa do ser humano ser “eterno” é uma constante né? Essa das historias se “replicarem” é uma prova disso. No fundo, linguagem é tão somente contexto: o sentido que a linguagem ganha no decorrer dos assuntos a que elas se expõem.

    Por ex, n faz sentido para um juiz usar jargôes jurídicos numa conversa informal, nem de um filósofo usar de termos como “aperceção” para falar de “consciencia”. No limite do limite, só há os “jogos de linguagem”, aonde os jogadores se mostram como participativos deles, quando sabem jogá-los: quando entendem certo, e certo contexto, e usam a lingua de forma correta em cada um deles.

    Mas enfim, é bonito sempre o ser humano tentar este passo a imortalidade.

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