Filmes formadores de caráter (parte 4) – 11° episódio da S02 de Viciados em Quadrinhos

Como o Velho Quadrinheiro mostrou, a palavra caráter tem sua origem na palavra grega que significa cicatriz. Bem diferente da personalidade, que tem sua origem na palavra grega πρόσωπον, que no latim se tornou persona, máscara.

Pode-se colocar ou tirar a máscara (sábias palavras de Heráclito: por trás do rosto da máscara há a máscara do rosto), mas a cicatriz é algo que vai ficar para sempre. A cicatriz molda a sua percepção sobre você mesmo e também como os outros te percebem. Ela não pode jamais ser esquecida, torna-se para sempre parte de quem você é.

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Nossas cicatrizes derivam das nossas experiências. Mas uma experiência não será nada a menos que se pense a partir daquilo que aconteceu. Em última instância é necessário que a cicatriz ganhe sentido e significado por meio da reflexão.

Então é isso, estamos aí, mais uma vez comentando quais filmes foram decisivos para que nossas experiências fossem pensadas e se tornassem cicatrizes, moldando nosso caráter.

Qual moldou o seu?

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JEREMIAS E O PARADIGMA KITTY PRYDE: Diversidade (?) humana em quadrinhos

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O plano inicial era escrever isso há algumas semanas e publicar no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Comecei a escrever, mas, por uma série de razões, o fechamento foi adiado. E isso foi bom. Tive tempo de ler mais algumas coisas, amadurecer um pouco mais as idéias, conversar com mais algumas pessoas. Nada disso garante a qualidade do post, é verdade, mas você pelo menos pode ter a certeza de que não foi algo escrito às pressas só para não perder uma data importante.
Você pode estar se perguntando “o que esse japonês tem na cabeça para achar que pode escrever sobre racismo e quadrinhos?” e eu entendo a desconfiança. De fato, exceto por um ou outro caso de insultos gratuitos que escuto quando ando na rua ou do bullying sofrido nos tempos de escola, minha percepção do racismo é essencialmente teórica e/ou de segunda mão, assim como minha percepção da situação de qualquer minoria. É por isso que não vou discutir o racismo em si, mas como o paradigma da representação esvaziou essa discussão nos quadrinhos.

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Filmes formadores de caráter (parte 3) – 10° episódio da S02 de Viciados em Quadrinhos

Ensinavam os gregos: o homem virtuoso é aquele carregado de caráter. E caráter não era um dom natural, nem era hereditário, nem era concedido. Caráter leva tempo para conquistar. Caráter é resultado de uma vida. O adulto sem caráter vivia sob a pena da rejeição, da desconfiança, do desprezo, do ostracismo. Sem caráter um homem não valia o trapo que vestia. Sem caráter toda decisão é um capricho, toda atitude é um impulso, toda ação é um erro. Os responsáveis por esculpir caráter? Pais, mestres, amigos, inimigos.

E, meu caro, caráter (kharakter) em grego não é pouca merda não. Caráter quer dizer apenas uma coisa: cicatriz!

Cada um tem um seu cardápio de histórias, filmes ou quadrinhos que esculpiram o próprio caráter.  Mas pra um quadrinheiro velho, filmes como Conan e Indiana Jones foram tão importantes tanto quanto as marretadas que a vida dá (que aliás, devem ter sido avisadas que haveria bolo, pois continuam tão presentes quanto no 2º colegial, aquele esgoto infernal da existência contemporânea).

Se você é um nerd alienado e não sabe do que se trata, saiba disso: Conan e Indiana Jones são dois caras azarados. Eles apanham, erram, são traídos, esquecidos e usados por… bom, quase toda pessoa que encontraram no caminho. Mas em algum momento eles desistiram? Não, porra! Isso é caráter! Que se derrame sangue, que a fé esmoreça, que a moça se mande, que o prêmio seja roubado, mas bola pra frente! (ou “continue empurrando a roda”, diria Conan). Uma cicatriz jamais deixa esquecer uma lição!

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Não só nestes filmes, mas vários outros, como a Trilogia do Dólar de Sérgio Leone, os Irmãos Cara de Pau, Duro de Matar, Máquina Mortífera, Fuga de Nova York, pertenciam a um gênero que, a olho nu, era reunido nas velhas locadoras de VHS apenas como “ação”. Isso é injusto.

Todos os heróis destes filmes tinham em comum serem colossalmente desafortunados, humanos. Ferrados pelas circunstâncias, adaptaram-se a elas, criaram oportunidades para sobreviver. Além de tudo, estes filmes tinham um teor “lado B” que fizeram de cada um tão originais, apesar de orçamentos milionários de algumas produções.

Há quem diga que os heróis dos filmes de ação dos anos 70 e 80 são modelos de uma violência desenfreada, insana, típica no contexto da Era Reagan (1982-1990). Talvez. Mas isso é passível de discussão. Indiana, Conan, o Homem Sem Nome (Clint Eastwood), o Coronel Douglas Mortimer (Lee Van Cleef!), Jake e Elwood Blues, John McLane, Riggs, Snake Plisken: todos são heróis relutantes de histórias que eles mesmos preferiam ter evitado. Eles são arrogantes, invejosos, curiosos, ambiciosos, desajeitados e sofreram pacas por isso. Mas mesmo assim se viraram pra reverter a situação.

E você? Que filme esculpiu essa cicatriz que molda tua existência??

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Fragmentos para uma Filosofia Quadrinheira

E essa semana  novamente com vocês: O Estrangeiro!

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Todas as artes se vinculam por aspectos comuns como o uso da imaginação, o foco na expressão do artista e sua pretensa universalidade em relação aos sentimentos humanos. Além disso, as artes necessitam recorrer umas às outras como auxiliares. Nesse sentido se enquadra o serviço que as ciências e as filosofias prestam entre si e às artes. Por exemplo, a anatomia – embora seja uma disciplina autônoma – serve como auxiliar para um pintor. Saber anatomia aproximará o pintor da perfeição ao retratar um corpo humano. Conhecer algo das propriedades matemáticas é necessário a um arquiteto para que desenvolva seus projetos. E o mesmo se passa com todos os artífices nos quais consigamos pensar. Continue lendo

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Filmes formadores de caráter (parte 2) – 9° episódio da S02 de Viciados em Quadrinhos

Super-Friends-Vacation-All-I-Ever-Wanted[1]Como qualquer menino na faixa dos 10 nos anos 80, eu queria ser herói. (Ok, não é verdade — qualquer menino que eu conhecia queria ser jogador da seleção, mas eu queria ser herói). As referências eram as de sempre: Super-Homem, Batman, Homem-Aranha, He-Man, até o Aquaman! (Eu adorava piscina).
jesus_superman[1]É claro que a realização desse sonho esbarrava em uma série de fatores, principalmente o fato de eu saber, desde cedo, que todos aqueles poderes não eram possíveis. (Curiosamente, nunca questionei a figura de Jesus Cristo quando me convenci de que o Super-Homem não poderia existir de verdade. Por motivos óbvios, minha formação quadrinhófila foi muito menos sólida do que a religiosa). Então, minha preferência logo se desviou para heróis de ciência, aqueles que faziam grandes coisas não por força de uma natureza super-humana ou mágica ou alienígena, mas por superioridade intelectual.
macgyver-multitool[1]Angus MacGyver foi, durante muito tempo, a realização do sonho heróico de uma multidão de nerds, inclusive este que vos fala, mesmo que eu só viesse a saber o que era um nerd muitos anos mais tarde. (E levei mais tempo ainda para saber que era um). Tudo o que ele carregava era um canivete Victorinox (que virou sonho-de-consumo de milhares de garotos) e mais um monte de materiais que encontrava pelo caminho. E, muito mais do que ele sempre ter o material necessário à disposição, o impressionante era o conhecimento que ele tinha para usar tudo isso para enfrentar os desafios.
Também não realizei esse sonho. O MacGyver da minha família é meu irmão caçula. Mas não fiquei tão longe assim. Depois dos meus pais, provavelmente foi MacGyver quem mais me incentivou a buscar conhecimento em várias áreas, mesmo que não seja possível ligar todas elas. E se o pouco que sei sobre muita coisa não me permite ser o herói que eu queria, pelo menos se tornou minha ferramenta de trabalho mais importante.

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P.S.: O episódio piloto pode ser visto aqui. Som original e sem legendas.

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Marvel Comics: a história secreta – 10 observações para perder a inocência sobre quadrinhos

Lançado esse ano aqui no Brasil, o livro de Sean Howe, Marvel Comics: a história secreta (Marvel Comics: the untold story) pela Editora Leya é sem dúvida um livro que merece ser lido.

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Das histórias que não se deve esquecer (2): Épicos Marvel n. 2 – X-Men versus Vingadores

Histórias que te fizeram pensar em algo que você não havia pensado antes, ou mesmo histórias que tenham feito você pensar de maneira diferente alguma coisa. Esse me parece um critério extremamente válido para selecionar quais quadrinhos merecem ficar na prateleira, muito melhor do que o fetiche de uma edição número 1 ou qualquer coisa que o valha.

Curiosamente, assim como no post anterior, a minha escolha também pode ser vista como uma “história menor” (ainda que a história mencionada pelo Velho Quadrinheiro tenha sido escrita por ninguém menos que Alan Moore). Mesmo assim, trata-se de um dos quase inumeráveis embates entre Vingadores e X-Men que se deram ao longo das décadas.

Publicada por aqui em 1991, foi a revista Épicos Marvel n. 2 – X-Men versus Vingadores, exemplar da época do saudoso formatinho da Abril.

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Filmes formadores de caráter (parte 1) – 8° episódio da S02 de Viciados em Quadrinhos

A lista de filmes que impactaram a forma como vejo o mundo são dos anos 80, quando o politicamente correto ainda não tinha sido inventado e não existia essa obsessão pelo realismo que é tão cara nos dias de hoje. A metáfora visual ainda era um conceito concreto e por isso mesmo a catarse resultante era mais profunda. Por limitações técnicas o público aceitava fantoches e bonecos mecânicos como personagens (Star Wars, Labirinto, Gremlins), e quando nem isso era possível, o personagem fantástico era apenas insinuado na maior parte do tempo (Tubarão). A imaginação de quem assistia a tudo isso era estimulada a preencher as lacunas e a cumplicidade era maior, já que aceitávamos conscientemente uma representação relativamente frágil do real. Não era possível enganar o público, apenas iludi-lo de forma consentida.
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Mas aí em 1985 o filme O Enigma da Pirâmide trouxe o primeiro personagem criado e animado digitalmente: o Cavaleiro de Vitral, e então tudo começou a mudar:

A partir dali o CGI (Computer Generated Imagery) passou a fazer parte da maioria dos filmes e na década de 90 a representação cada vez mais perfeita do real foi dando lugar a uma narrativa menos inocente (Jurassic Park, Exterminador do Futuro II). A ilusão ainda tinha seu espaço nas animações da PIXAR (Toy Story) e da Disney (O Rei Leão), mas desenhos animados (digitalmente ou não) são uma ilusão consciente e por isso estabelecem uma relação de honestidade/inocência com o público).

Hoje já não é mais possível saber o que é ou não real. Filmes de fantasia usam esse recurso à exaustão (Matrix, Senhor dos Anéis), mas o que mais me chama a atenção é o quão imperceptível é o uso dessa tecnologia. As câmeras digitais e os programas de edição de vídeo cada vez mais poderosos ampliaram muito o uso desse recurso. Passamos da ilusão consentida ao engano inconsciente.

Por mais que os novos tempos sejam promissores – e todos os filmes de heróis Marvel e DC só foram e são possíveis por causa do CGI – ainda prefiro um bom e velho truque de mágica. Vejam como sem o realismo do CGI, a forma a princípio estranha vai se naturalizando na cabeça do espectador, e poucos segundos depois a história simplesmente flui nesse filme de Edson Ota – Malária (aliás não é por acaso que a linguagem dos quadrinhos é dominante nesse curta).

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Das histórias que não se deve esquecer: “Passos” de Alan Moore

Pra quem gosta de quadrinhos, poucas coisas são tão dolorosas quanto selecionar aqueles que devem sair ou ficar na estante/armário/arquivo. Pra evitar problemas com a vigilância sanitária, a inveja dos arquivos públicos ou da pura e simples hostilidade familiar há uma necessidade periódica, digamos anual, de descarte. Os critérios para tanto variam: das razões passionais, como o entusiasmo que alguma história induziu, às racionais, como o potencial financeiro de alguma edição rara.

Na falta de um critério, aí vai uma sugestão. Tente lembrar: qual quadrinho o fez mudar de opinião sobre alguma coisa? Que história o levou a pensar num tema que você nunca mais conseguiu esquecer? Que histórias definiram como você se relaciona com o mundo? Continue lendo

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Ideia boa / execução de merda – 7° episódio da S02 de Viciados em Quadrinhos

Filmes, séries de TV,quadrinhos, a indústria do entretenimento sofre de uma patologia aparentemente sem cura – premissas interessantes que desembocam em finais pífios. Pensem no final de Guerra Mundial Z por exemplo, ou no mais do que comentado final de LOST! Claro que existem exceções como o desfecho da trilogia do Batman do Nolan ou o final de A Origem (também do Nolan), mas finais abertos ou inconclusivos tem o hábito de incomodar, de deixar os consumidores fora de sua zona de conforto e talvez por isso sejam menos apreciados (em números absolutos).

Histórias com roteiros mirabolantes e finais consistentes sem perder uma certa surpresa de última hora, como em Fringe do J. J. Abrams, quase são cancelados por falta de audiência. Apesar do mundo ser cada vez mais complexo e as possibilidades se multiplicarem exponencialmente, escondidos atrás de nossos teclados e monitores nós queremos algo simples e reconfortante. E se não tiver pode ser algo anestesiante mesmo. A homogeneização das gerações embalada pela massificação da cultura pop ainda vai nos dar muitos produtos culturais apenas satisfatórios porque é isso que achamos que queremos.

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Por tudo isso Mark Millar está no panteão dos novos deuses de Hollywood, emplacando um filme atrás do outro, mas entregando finais fracos e sem criatividade. Isso não significa que ele não seja um bom escritor. Significa ele não é um grande escritor, mas sabe o que o público consome. Se alguém ainda duvida, assistam essa versão em vídeo de Nêmesis e avaliem o desfecho da história (e comparem com LOST).

Tem a versão em espanhol no canal do Elantraxxx.

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