Porque Phoenix Resurrection é melhor que Watchmen e Cavaleiro das Trevas

É preciso coragem e esforço para se contar uma uma narrativa seriada na indústria dos quadrinhos de super-heróis.

Fazê-lo exige do(s) narrador(es) uma ordem, perseverança e direção criativa que apenas ele(s) conhece(m), apesar da expectativa de quem escuta/lê. Lançada no último dia 30/01/2018, Phoenix Resurrection n.5, diferente dos clássicos Watchmen e Batman: Cavaleiro das Trevas, pensadas para ter um começo, meio e fim, está no campo da história seriada.

Com roteiro de Matthew Rosenberg e desenhos de Lenil Francis Yu e Joe Bennet (o paraense Bené), a última edição de Phoenix Resurrection, como sugere o nome da revista, traz o retorno de Jean Grey, membro dos X-Men que estava falecida desde o final da passagem de Grant Morrison pelo título em 2004.

Que fique avisado, a partir daqui há spoilers das cinco edições de Phoenix Resurrection.

 

Ainda aqui?

Pois bem.

 

As edições de Phoenix Resurrection mostram como os X-Men passam a reconhecer diversos sinais de que a entidade cósmica Fênix, com poder de provocar holocaustos planetários e cuja última visita levou à morte do Prof. Xavier, voltou à Terra. Mais que isso, que a própria Jean Grey, sepultada anos antes, foi revivida e encapsulada num ambiente protegido pela força Fênix.

Neste “ovo” de realidade onde tudo é calmo e ameno, Jean tem apenas fragmentos das suas memórias mais traumáticas ao lado dos X-Men, e busca um significado para estas sensações e lembranças. Liderados por Kitty Pryde, os X-Men encontram o “ovo” no Novo México e percebem rapidamente a importância simbólica e concreta do que estão enfrentando.

Para quem critica a inconsistência das linhas temporais nos filmes dos X-Men, a configuração atual do grupo nos quadrinhos é de uma complexidade que desafia a dedicação do leitor mais fiel. Além de Fera, Homem de Gelo, Anjo, Psylocke, Vampira e Kitty Pryde, fazem parte do grupo a versão mais jovem do Ciclope (o “atual” morreu), Anjo (com asas “normais”), Fera (ainda humano) e Homem de Gelo (que assumiu ser homossexual), além da versão mais velha de um futuro alternativo de Wolverine (o atual está “morto”, sepultado numa escultura de adamantiun derretido).

É justamente por ser um vetusto e ressentido herói que Wolverine torna-se o indicado para adentrar no “ovo” da Fênix e tentar um diálogo com Jean Grey. Diferente do jovem Ciclope, apaixonado pela versão mais jovem de Jean Grey, Logan amou Jean Grey e apenas ele sabe a dor de tê-la perdido.

Desperta pela realidade do que está passando, revivida por uma obsessiva Fênix que anseia pela intensidade de estar viva, Jean faz uma coisa jamais feita antes nas histórias dos X-Men: conversa com a Força Fênix diretamente e toma uma decisão.

Eu devia ter morrido naquele ônibus espacial anos atrás. Eu sei disso agora. Mas você fica me trazendo de volta. Você quer que eu seja algo que eu não sou. Algo que eu nunca vou ser. E eu quis coisas de você. Coisas que ninguém mais deveria ter.

Você devia esquecer que eu cheguei a existir.

Assim como o leitor, nesta história Jean Grey se lembra da longa sucessão de eventos que a levaram até este momento de sinceridade com a Fênix e chegou à única conclusão que a personagem poderia: se decidir.

Esta seria a única forma de contar este episódio? Claro que não, nem significa que outros roteiristas no futuro estejam impedidos de alterar tal decisão. Característica da indústria de quadrinhos de super-heróis, é a colaboração entre editores, artistas e roteiristas ao longo de décadas constrói a singularidade das edições.

O que chama atenção aqui é o esforço claro de restaurar não apenas a personagem Jean Grey, mas o que os X-Men têm de melhor: a evolução dos personagens, isto é, seu   desenvolvimento, as razões que os movem de um lado ou outro no enredo, que os levam a decisões que nenhum outro personagem poderiam assumir. Ou, nas palavras de Chris Claremont, um dos maiores responsáveis pelo sucesso dos X-Men nos anos 80 e 90,

Criar um personagem é construir seu caráter, acompanha-lo ao longo da vida dele. Este o trabalho do autor. Ou você faz isso ou não faz.

A vantagem de ser o criador de um personagem é que você o conhece melhor que ninguém. Mas a realidade que alguém tem que lidar numa mídia colaborativa como os quadrinhos é que você não é o único que escreve o personagem. Num nível, todos os personagens em Game of Thrones surgiram da imaginação do George R.R. Martin. Nesse sentido eles são dele. Enquanto estiverem nos livros eles são dele. Mas no momento em que eles passam para a tela de TV, os personagens são filtrados pelos showrunners. No sentido comercial, é a mesma coisa com os quadrinhos.”

Claro, nem todo quadrinho de boa qualidade é uma longa e bem amarrada narrativa. Muitos deles, os mais lembrados, são praticamente uma exceção, encerrados e autocontidos, planejados para arrebatar leitores.

Os citados Watchmen e Batman: Cavaleiro das Trevas são dois grandes pesos pesados nesse sentido. Marcos referenciais, obras pensadas para serem auto-contidas (talvez por isso a qualidade duvidosa de suas continuações), parentes das manchetes de jornais ou singles de sucesso, alcançam outros públicos além daqueles que já acompanham o segmento em que atuam.

X-Men, como bem mostrou este post, tem mais importância para a indústria dos quadrinhos que outros hits uma vez que é um autêntico romance de folhetim, uma narrativa que alterna seus piores momentos com os melhores sem desconsiderar nenhum dos dois, impulsionando novas histórias no futuro.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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2 respostas para Porque Phoenix Resurrection é melhor que Watchmen e Cavaleiro das Trevas

  1. Olavo Lima disse:

    ta de sacanagem né aspira? é um fanfarrão, foi uma das piores hqs que já li, uma merda, pior do que isso só o aumento dos preços da panini

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