Teria sido Conan o primeiro esquerdo macho?
A figura icônica de Conan, o Cimério, costuma ser reduzida no senso comum a uma caricatura de testosterona e violência gratuita, uma relíquia de uma era de força bruta sem nuances, muito por conta dos filmes com Arnold Schwarzenegger. No entanto, um olhar atento à obra original de Robert Ervin Howard revela um cenário muito mais complexo e politicamente carregado. O título provocativo deste texto “O Primeiro Esquerdo Macho”, tenta capturar a tensão fundamental entre a defesa das classes oprimidas e o individualismo hiper-masculino em que Conan parece se situar. Pode me acusar de click bait e de anacronismo. O ponto é que o criador de Conan construiu uma crítica visceral à modernidade, ao Estado e às estruturas de poder que ele viu emergir e colapsar no Texas do início do século XX.
Para compreender o peso político de Conan, é preciso mergulhar no solo texano onde Howard foi forjado. Nascido em 1906, o autor testemunhou o impacto devastador dos surtos petrolíferos em pequenas comunidades agrárias. Filmes como Sangue Negro e Assassinos da Lua das Flores retratam bem isso. Ele viu, em primeira mão, como o advento da ordem comercial e burocrática frequentemente vinha acompanhado de uma criminalidade explosiva e de uma corrupção institucional que ele considerava parasitária. Essa experiência gerou um desprezo profundo pelo que ele chamava de “civilização”. Para Howard, a sociedade civilizada era um estado transitório e fundamentalmente frágil, uma camada fina de verniz sobre a selvageria primordial. Ele argumentava que a civilização permitia que os homens fossem descorteses porque sabiam que podiam contar com a proteção da lei em vez de arriscarem ter seus crânios partidos por uma ofensa pessoal.
Essa dicotomia entre a barbárie primal e a decadência urbana é a espinha dorsal de sua obra. Howard acreditava que o “homem civilizado” havia trocado sua autonomia moral por uma segurança ilusória garantida pelo Estado. Conan surge, portanto, como o símbolo dessa vitalidade primordial que sobrevive em meio às ruínas de impérios corrompidos, servindo como o antídoto de Howard para o enfraquecimento que ele acreditava ser inerente à vida moderna. Em sua visão, a barbárie era o alicerce natural da humanidade, um estado de respeito mútuo imposto pelo risco físico e pela honra pessoal, em contraste com a artificialidade de uma ordem imposta por leis burocráticas e costumes hipócritas (para aprofundar esse tema sugiro COLLARES, Marco Antonio Correa. Nas Fronteiras entre Civilização e Barbárie: as narrativas dos ciclos de Conan, de Robert Howard. 2017. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2017).
A classificação política de Howard desafia as polarizações contemporâneas. De um lado, ele era um defensor ardoroso do individualismo radical e do antiautoritarismo. Howard possuía um ódio visceral por qualquer forma de autoridade institucionalizada, descrevendo policiais como vândalos sob o manto da lei e o sistema judiciário como uma falácia usada pelos fortes para oprimir os fracos. Esse aspecto de seu pensamento o alinha ao libertarianismo (não confundir com anarquismo) radical de Ayn Rand, onde a liberdade individual é o único ideal que realmente importa.
Contraditoriamente a esse pilar individualista, Howard foi um apoiador entusiasta de Franklin D. Roosevelt e do New Deal, no sentido de entender que o Estado deveria mitigar desigualdades no contexto da Grande Depressão de 1929. Esse apoio não derivava de uma crença no estatismo em si, mas de uma profunda empatia pelas classes trabalhadoras que sofriam com a Grande Depressão. Ele via nos “barões do crime” industriais e nos monopólios gananciosos inimigos tão perigosos quanto o Estado despótico. Sua posição pode ser descrita como Jeffersoniana: uma preferência por um governo pequeno e descentralizado, focado na justiça agrária e na proteção do pequeno produtor contra as grandes corporações. Ele detestava a “tirania do dinheiro” e via a exploração econômica como uma das faces mais feias da civilização decadente, o que o coloca, curiosamente, em uma posição de esquerda econômica pragmática enquanto mantinha uma ontologia de direita individualista.
Sobre a questão da desigualdade, na história O Estranho de Preto, escrita em algum momento da década de 1930, Conan diz:
“Sei o que é não ter um centavo nas terras hiborianas. Em meu país, às vezes temos fome, mas isso só ocorre quando não há comida em lugar algum. Já no mundo civilizado, vi pessoas doentes de tanto comer, enquanto outras passam fome. Sim, já vi homens caírem e morrerem de fome recostados às paredes de lojas e armazéns entupidos de comida. Às vezes eu também ficava faminto, mas sempre tomei o que precisava usando a ponta de minha espada” (HOWARD, R. E. Conan o Bárbaro vol.2. São Paulo, Pipoca & Nanquim, 2018, p. 320).
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A recepção da obra de Howard é frequentemente marcada por acusações de machismo, muitas vezes justificadas pela estética e das pressões mercadológicas da literatura pulp da época que exigia heróis hiper-masculinos. No entanto, uma análise mais profunda revela que suas visões sobre as mulheres eram consideravelmente mais progressistas do que a superfície de seus contos sugere. Howard projetava em suas personagens femininas o mesmo desejo de rebelião contra a ordem social que sentia em si mesmo. O exemplo mais contundente é Agnes de Chastillon, a “Sword Woman”, uma personagem que rejeita violentamente o papel doméstico e submisso, preferindo a vida de mercenária à escravidão do casamento arranjado. O discurso de Agnes é um manifesto de autonomia, afirmando que jamais seria amante de homem algum por obrigação.
Mesmo no ciclo de Conan, Howard introduziu mulheres que eram forças da natureza. Bêlit, a Rainha da Costa Negra, era a comandante absoluta de uma frota de piratas, e Conan a tratava com um respeito que beirava a devoção emocional. Valeria, em “Pregos Vermelhos”, é uma guerreira que luta lado a lado com o bárbaro em pé de igualdade marcial. Howard frequentemente contrastava a atitude de Conan (que respeitava a autonomia e a força feminina) com a de “homens civilizados” que abusavam sistematicamente das mulheres sob sua proteção. Para o autor, a vitalidade e a “fibra” não eram exclusividades masculinas; elas eram qualidades do espírito que a civilização tentava castrar em ambos os sexos. O machismo de Conan pode ser atribuído muito mais aos seus pastiches feitos por Lin Carter e L. Sprague de Camp ou aos quadrinhos na Marvel do que propriamente à obra de Howard (LOUINET, Patrice. O Guia Robert E. Howard. Fortalzea: Red Dragon, 2019, p. 174).
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Por fim, seria Conan defensor de alguma “meritocracia”? Afinal, ele começa como um nada sua jornada, um bárbaro e passa por muitas aventuras sendo pirata, ladrão, mercenário, entre outras atividades, até tornar-se rei da Aquilônia. Conan seria um emergente, uma espécie de “self-made man” da Era Hiboriana? Se fosse o caso, Howard estaria fazendo um elogio da própria civilização que critica. Afinal, que meritrocaria poderia existir em uma civilização corrompida?
O pesquisador Patrice Louinet também parece não concordar com a concepção de um Conan meritocrático, conforme o trecho abaixo que pode ser lido nos extras de Conan – O Cimério Edição Definitiva volume 1, coletânea de versões de quadrinistas europeus dos textos de Howard:
“As histórias de Conan, portanto, não são uma sequência de narrativas que contam a lenta ascensão de um bárbaro até a realeza. Não se trata de uma “saga” como já pudemos ler em outros lugares. Essa imagem de um Conan que sobe cada degrau do poder até chegar à mais alta posição foi, por anos a fio, veiculada por aqueles que se preocupavam com o destino editorial das histórias de Conan.
Para tanto, eles reescreveram, complementaram e modificaram alguns textos de Howard, comprometendo a integridade das narrativas. Isso contribuiu de forma significativa para que a percepção que se tinha do personagem fosse alterada em proveito de uma visão simplista. Interessada em fazer de Conan uma espécie de emergente da Era Hiboriana que, sendo inicialmente menos que um nada (bárbaro e ladrão), é alçado ao topo da hierarquia social e do prestígio (rei de um país civilizado).
Quando Conan ascende ao trono de Aquilonia, ele não o faz por linhagem divina ou direito de nascença, mas por sua força e percepção da podridão que corroía a dinastia anterior. Sua governança é marcada por um minimalismo administrativo e um desdém profundo pelas intrigas palacianas. Conan é o “Rei Soldado” que lidera da frente, recusando-se a delegar a defesa de seu reino enquanto se banqueteia. Howard utiliza a Aquilonia como um microcosmo da corrupção civilizada, onde os nobres preferem o caos à autoridade de um homem que os obriga a serem honestos e produtivos.”
O problema da leitura meritocrática de Conan é que ela simplifica uma obra muito mais contraditória. Mesmo quando se torna rei, permanece um estrangeiro dentro daquela ordem. Da mesma forma, reduzir Conan a um personagem “machista” ignora as ambiguidades presentes em Howard: embora escrevesse dentro dos limites e fetiches da literatura pulp de sua época, suas histórias também apresentavam mulheres fortes, autônomas e frequentemente mais livres do que os homens “civilizados”. Conan, assim, não cabe confortavelmente nem como símbolo de uma masculinidade reacionária simples, nem como herói progressista. Sua força como personagem talvez esteja justamente nessa tensão.







