Baiacu – o custo da vanguarda

O projeto da dupla Angeli e Laerte virou livro, mas entre expectativa e resultado, onde se encaixa a Baiacu no mercado nacional de quadrinhos?

 

 

 

 

O efeito do baiacu está aí! Inflado o peixe, ele já não rasteja nas profundezas do mar. Já falamos um pouco sobre as expetativas da revista aqui, com direito a vídeo de cobertura do lançamento do projeto.

Passados alguns meses, chega a hora de avaliar os seus efeitos reais.

A revista não é um efeito solto de um só processo ou apenas um projeto, e sim consequência de um contexto mais amplo. Muitos esperavam uma nova Chiclete com Banana, ácida, dolorosa e inquietante. Mas Baiacu não o que saiu. E, bem visível, isso nem foi buscado.

O cenário brasileiro de quadrinhos, infelizmente, abandonou as bancas. Não encontramos um volume considerável de publicações originalmente brasileiras. Fora a “Turma da Mônica”, não temos uma grande publicação regular a baixo custo para o leitor. O que encontramos, seja nas livrarias ou nas poucas lojas especializadas que progressivamente tem sumido, são os grandes e caros encadernados. Lustrosos, bem editados e dignos de serem expostos como troféus na sala de estar.

Isso não tira nem um pingo da excelência dessas produções. Recentemente me deparei com a obra “Mensur” de Rafael Coutinho. Leitura saborosa, faziam anos que não se encontrava obra tão provocante, com o traço ou mesmo com uma história inesperada em terras tupiniquins. Talvez o material mais próximo tenha sido a edição do “Av. Paulista” de Luiz Gê, que já comentado aqui.

mensur

Em que pesem a qualidade material, ou a experiência que a leitura proporciona, a edição ocupa uma lacuna que não preenche sozinha. São raras as produções de baixo custo com boa qualidade, que poderiam ser porta de entrada para novos e inovadores quadrinistas. Canal mais próximo disso são as páginas no Facebook ou as contas no Instagram. Mas há uma deficiência no consumo. Um dos prazeres da leitura, e em especial dos quadrinhos, é sentir o toque do papel jornal, de saber o que impulsiona na leitura não é o status que ela causa, mas sim a própria história.

Interessante que mesmo esses mesmos produtores de trabalhos mais caros podem fazer experimentações interessantes. Um caso emblemático é o de Paulo Crumbim e Cristina Eiko, com os Quadrinhos A2. Não tem como emplacar o trabalho deles nas bancas, mas não por falta de qualidade ou de capacidade. O entrave está na distribuição desse material a um custo acessível. O casal, pensando em saídas melhores, consolidou no site deles a venda do material por um preço super legal de R$15,00 por edição. Infelizmente haverá um aumento, mas mesmo assim, ainda continua dentro de um padrão de consumo mais próximo do acessível a um grande público do que outras produções.

A2

O obstáculo central dessas produções nacionais está na complexa rede de situações a partir da distribuição do material. Se de um lado temos essas edições caras, mas de altíssima qualidade, que estão cada vez mais focadas em histórias mais maduras e intrigantes, do outro temos os quadrinistas e fanzineiros que se esforçam a fundo para divulgar suas produções de teores menos consolidados. Amiúde elevam seus trabalhos para patamares de maior visibilidade, mas não é tão fácil quanto aqueles mais alinhados ao que já se tornou convencional. Enquanto o primeiro grupo de publicações consegue ter uma distribuição relativamente boa tanto nacionalmente como internacionalmente, o segundo fica refém de uma publicidade boca a boca ou de grandes oportunidades como financiamentos coletivos e divulgação em blogs.

Poderia-se esperar que Baiacu pendesse para o segundo grupo. Uma experimentação mais dentro do estilo e mais focada em elevar para um grande público trabalhos que não encontraria em livrarias. O que encontrei foi um grande compilado de experimentações incríveis de linguagem, extrapolando o que é quadrinho, misturando estilos, propostas e narrativas.

inflado

As proporções e os conceitos são maiores do que se pensa

Baiacu é o resultado de uma vanguarda dos quadrinhos, mas não é acessível, nem em linguagem nem em preço.

A leitura exige um pouco do leitor não iniciado. Em diversos momentos o leitor sente a necessidade de pesquisar sobre o autor, ou correndo para o final da edição onde está o índice com os nomes dos autores para cada trecho. Mas sem demérito é uma obra de arte, dialogando com diversas técnicas e propostas gráficas, desde poesia concreta até apenas esboços que valem pela sua beleza e riqueza. O modo como foi estruturada a produção aponta isso. Ao invés de uma criação “sob demanda”, num formato convencional de produção, foi realizada uma residência, algo característico do mundo das vanguardas artísticas. Os quadrinhos dentro dos padrões mais convencionais estão ali também, postos como parte desse grande livro de arte. Mas eles não são protagonistas na produção. Da mesma forma que isso tudo se confirma no preço de R$84,90 , valorizando todo o processo, mas excluindo parte dos leitores de quadrinhos, que talvez não devam estar dispostos a arcar com esse custo.

Diferente de uma revista em quadrinhos (ou de quadrinhos), encontramos uma grande e necessária revista de arte, que conta com a editoria dos dois maiores quadrinistas brasileiros da atualidade.

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