Um personagem megalópole: seu lugar e sua identidade

Seja Gotham City, Smallville, Coast City ou Nova Iorque (ou tantas outras cidades) todas elas tem um ponto em comum: mais do que serem apenas o cenário das histórias e as casas de seus respectivos heróis, ela são personagens das histórias muitas vezes. Seja através da massa de moradores dessa cidade ou através da cidade em si, quem importa é essa pulsação em vida que chamamos de cidade/metrópole.

Não deixei de lado a Sin City, e ela por si só vale uma discussão a parte

Recentemente saiu no Brasil o arco do Homem-Aranha chamado “Ilha das Aranhas”, o que me chamou a atenção e me fez pensar este texto. <spoiler alert> Um dos personagens centrais são os novaiorquinos em geral, ou seja a cidade e o amor que cada um tem por esse espaço, com seus vínculos afetivos, sociais e econômicos. A ilha das aranhas é a própria Manhattan, ou seja, o eixo e foco da história é a partir da cidade.

Até nas notícias o personagem central é a cidade

Na lata lembrei do Fell, que já comentei aqui, e, é claro, do “Nova York” do Will Eisner, ambos retratando, cada um a sua maneira e maestria, uma cidade e seus habitantes. Mas isso também me fez lembrar de exemplos na literatura como o livro a “Cidade e as Serras” do Eça de Queiroz, no qual os valores estão introjetados nas cidades na qual Zé Fernandes mora. Quando está em Paris, a vida é a mais alta civilização e sofisticação tecnológica, o progresso a todo vapor. Uma cidade que estava imersa na Belle Epóque por todos os lados. Mas ao se mudar para Tormes a vida se torna outra, bucólica. Ou seja, a cidade e as pessoas, que são o que tornam o espaço o que ele é, é que fizeram as mudanças em Zé Fernandes.

Uma Paris que dança! Todas as noites! Esse era o espírito da Belle Epóque. Frenético, acelerado, pomposo e rebuscado

É legal reparar como esse efeito das cidades e a sua importância são diferentes em cada uma das grandes (Marvel e DC). Pensando nos conceitos fundantes de cada uma delas podemos ver como há essa relação. Enquanto a Marvel quer apresentar as maravilhas e heróis fantásticos (aqui no sentido de fantasia) a DC quer criar e trabalhar com o que chamarei aqui de “theo-heróis”, ou seja, heróis muito mais mitológicos e arquetípicos que são quase deuses, quando não o são de fato.

Mais de uma vez esses três personagens receberam esse apelido de trindade, uma referência direta à sacralização. Mais de uma vez foram escritas histórias dos três em conjunto sob esse título.

Essas diferenças ficam ainda mais claras quando pensamos na territorialidade desses heróis fantásticos e dos theo-heróis. Enquanto o fantástico é uma perturbação ou alteração no cotidiano e na realidade “convencional”, o theo é mitológico e, portanto, deve fazer parte da nossa realidade ao mesmo tempo que não se encaixa com o espaço da nossa realidade. Um mito se passa em uma localidade própria. Não podendo então ser colocado em um plano puramente real, devendo assim criar o seu próprio espaço e tendo dificuldade de se encaixar em outros, pois nasceu para aquela realidade. (E aqui tem muito pano pra manga)

Somado a isso podemos ver a territorialidade, na qual a própria cidade constrói parte do personagem e das suas características individuais e vice versa. Um exemplo interessante é a história “Melhores do mundo”, de 1991, com roteiro de Dave Gibbons (só para refrescar quem é esse cara, clique aqui), arte do Steve Rude, arte-final do Karl Kessel e Steve Oliff nas cores. Colocar Batman em Metrópolis e Superman em Gotham, sendo que os vilões também trocaram de cidade deixa muito clara essa territorialidade, uma vez que a troca não ocorre perfeitamente, e as demandas de cada uma das cidades não podem ser plenamente sustentadas pelos heróis que não são originários dali. Vale e muito a leitura!

Territórios, territorialidades, lugares e não lugares. Tá aí um bom modo de entender essas relações

Voltando um pouco à idéia inicial de cidade como personagem, queria chamar a atenção a dois exemplos que são relativamente pouco conhecidos, e que tratam da minha terra natal: São Paulo. Um fez parte de sua época mas mostra muito bem o sentimento paulistano, já o outro mostra muito bem a história percorrendo o espaço proposto, um recorte geográfico de um tema e não um recorte histórico.

A imagem resume bem o caos! (tira do Angeli)

O primeiro é o quadrinho “Gente como a gente”, de Gilberto Maringoni, publicado na revista KYX93 de Julho de 1989. Em uma sátira única fala um pouco sobre o morar, o espaço, a relação com o trânsito (um personagem a parte na vida de um paulistano) e a monstruosidade que chamamos de Minhocão e que oficialmente tem o nome do general que começou a chamada “Linha Dura”, Costa e Silva. Leia-o na íntegra aqui!

A segunda obra que queria chamar a atenção é a “Avenida Paulista” de Luiz Gê, autor que já comentei aqui , que foi republicada em 2012, mas originalmente de 1991. A preocupação nesse caso é clara, recontar e remontar os processos históricos-arquitetônicos pelo qual a artéria central de São Paulo passou. Abarcando desde a sua fundação até os anos 90, Gê interpreta essas mudanças de maneira menos ortodoxa em alguns momentos, abrindo espaço para essa conversa entre as sensações quanto o espaço e o que é a realidade. Trazendo mais uma vez a linguagem que já vimos no “Tubarões Voadores”, não existe assim uma limitação do que se conta e o que se sente. Uma das imagens que mais me impactou é a dos antigos casarões atravessando os modernos prédios. É como se fosse a própria cidade expelindo nos seus póros a sua história, que neste caso é o foco e tem a metrópole como personagem central. A cidade foi colocada nos quadrinhos ali como ente vivo e pulsante e não apenas como coadjuvante das mudanças humanas, valorizando assim também a evolução do espaço no tempo. Veja o Preview oficial aqui e a imagem da capa que dá uma baita idéia do que tem dentro.

A capa com diferentes trechos da história do coração paulistano

O que vale tirar disso tudo é que não necessariamente o personagem precisa ser algo tão claro, ou mesmo algo literalmente vivo. A cidade é objeto de estudo da sociologia, da história e da antropologia, assim como já foi o centro de obras consideráveis. O Inferno de Dante, um dos pedaços da “Divina Comédia” de Dante Alighieri, ganhou tanta vida própria que o espaço ali apresentado é mais conhecido do que a obra como um todo. Logo um espaço como uma cidade, com seus moradores e história própria, suas afetividades e formas, pode sim por si só contar uma história.

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