Doomsday Clock e a genialidade de Johns e Moore

O prenunciado crossover entre os universos Watchmen e DC com roteiro de Geoff Jonhs e desenhos de Gary Frank finalmente saiu!

Dando continuidade ao DC Rebirth #1 e The Button a saga trará explicações sobre os mistérios envolvendo a cronologia do Universo DC que envolvem, de alguma forma, os personagens de Watchmen.

***SPOILERS a seguir. Leia por sua conta e risco***

Até agora, as pistas relevantes são escassas.  O Dr. Manhattan é de alguma forma responsável pelo universo criado a partir dos Novos 52 e o button do Comediante encontrado por Batman e Flash emite a mesma energia da máscara do Pirata Psíquico, único personagem da DC que se lembra da cronologia pré-Crise Nas Infinitas Terras.

A maior revelação de Doomsday Clock é insinuação de que a “galáxia menos complicada” que o Dr. Manhattan procuraria ao final de Watchmen seria o Universo DC.

Mas o ponto principal na HQ não é tanto a conexão entre os dois universos e sim a continuidade do universo de Watchmen.

O final de Watchmen era um final aberto. Ao que tudo indicava, o plano de Ozymandias havia dado certo, a não ser pelo diário de Rorschach enviado a um jornal. A partir daí o leitor poderia tirar suas próprias conclusões a respeito do que aconteceria e Moore soube com maestria deixar muitas pontas soltas para que um leitor interessado soubesse preencher com sua própria subjetividade. Dr. Manhattan anuncia quando diz para Ozymandias: Nada termina, Adrian. Nada nunca termina”.

Johns foi um desses leitores que ascendeu à indústria e hoje é um dos mais renomados roteiristas da DC. O que vemos em Doomsday Clock é uma possibilidade de leitura após o final de Watchmen, que fecha o final que Moore havia deixado em aberto.

Nele, sabemos que o plano do vilão não deu certo e que o mundo mergulhou num caos muito pior do que estava. Johns deixa claro no início: o fim não está próximo, ele já chegou.

Mas só isso já implica em negar algo já estabelecido por Moore: a inteligência suprema de Ozymandias, capaz de ludibriar até o Dr. Manhattan, não é tão suprema assim, pois ele não foi capaz de antecipar todas as possibilidades.

Mais que isso. Johns inverte os papéis estabelecidos em Watchmen. Na narrativa de Moore, Ozymandias é o vilão e Rorschach o herói; agora é Rorschach quem se revela como vilão por ter mergulhado o mundo no caos e Ozymandias o herói que tentou – e tenta – reestabelecer a ordem em meio ao caos.

Ao mesmo tempo esta inversão empobrece e enriquece a narrativa de Moore. Empobrece porque tínhamos várias possibilidades para a continuidade de Watchmen, e ela permaneceria ali, intocada para gerações de leitores que poderiam encontrar finais que nem podemos imaginar, pois Watchmen é sem dúvida nenhuma um clássico. E entre os vários atributos de um clássico o mais interessante deles é que as mudanças históricas vão revelando na obra aspectos marginais, negligenciados ou mesmo desconhecidos. Cada geração acrescentando uma camada de interpretação, enriquecendo ainda mais a obra.

É como se Moore dissesse “O final eu deixo nas suas mãos”. Johns aceitou a missão.

Claro que ainda será possível fazer isso com Watchmen, mas agora que Johns fixou sua própria interpretação à cronologia do Universo DC, o final aberto foi perdido para sempre, empobrecendo a quantidade de interpretações.

Mas, por outro lado, também temos um enriquecimento da narrativa. Não de Moore, mas de Watchmen.

É sabido que originalmente a saga estava prevista para ser feita com os personagens da Charlton Comics, cujos direitos haviam sido adquiridos pela DC. Com a publicação de Crise Nas Infinitas Terras houve a decisão editorial de incorporar aqueles personagens à cronologia oficial da editora, então seu uso foi vetado à Moore. Foi assim que o Questão tornou-se Rorschach, Besouro Azul, o Coruja e Capitão Átomo, Dr. Manhattan e assim por diante.

Portanto aqueles personagens já existiam antes de Moore, mas suas novas versões foram canonizadas numa obra prima, não por uma decisão criativa e autoral, mas por uma imposição editorial. Imposição editorial que, aliada ao brilhantismo de Moore, só a enriqueceu.

Agora Johns faz o caminho inverso. Tem a missão de trazer aqueles personagens de volta para a continuidade da DC e articulá-los num todo coerente. Uma missão nada fácil, mas que está executando com competência. É assim quando se opta por trabalhar dentro das amarras narrativas de um gênero ou de uma indústria. E é nisso que consiste o enriquecimento do universo de Watchmen, de certa forma não criado, mas continuado por Moore.

Na indústria dos quadrinhos de super-heróis nada verdadeiramente termina. O último ato, o final, é sempre momentâneo, sempre postergado. Estamos sempre no meio e isso pode ser interessante.

Nem todos os escritores querem ou gostam de trabalhar dentro dessa amarra. Moore abandonou os super-heróis há muito tempo e não são poucos os escritores e artistas que se mostram descontentes com essa espécie de ditadura da continuidade. No entanto, não há menos genialidade em se trabalhar fora ou dentro delas. São decisões diferentes, e deve-se encontrar beleza em cada uma delas.

Geoff Johns e Alan Moore permanecem mestres em seus estilos.

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