A trágica piada do amadurecer: algo sobre roteiros com final aberto

Ahoy!

Porque este blog é um espaço de diálogo, dialogando dialeticamente na dialógica dos diligentes culegas, mais um fantástico, místico e misterioso (ui!) capítulo da inútil celeuma sobre a Piada Mortal!

Mais uma: sorriiiiaa!

Mais uma: sorria!

[era pra ser “Destruindo clássicos: Watchmen”, mas o tema precisa de mais cuidado do que o tempo que tenho aqui para escrever]

A questão é sobre o significado do fim daquele clássico, certo?

Morrison diz que o Batman mata o Coringa; Sidechute diz que herói e vilão se dão um beijaço de língua na garganta; Nerdbull-te-dá-asas diz que isso é tudo uma perda de tempo já que nenhuma das duas coisas é visualmente estabelecida.

Todos concordam que é uma história de final aberto? Que há várias interpretações possíveis (ao contrário do que infere Morrison)? Se não for, finja que é e segue abaixo.

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Ou as duas coisas juntas

É uma covardia matemática tentar lembrar de quantas outras HQs usaram o mesmo recurso, o final aberto. A Marvel, desde 1960, se especializou nisso, quase tanto quanto o gênero “super-heróis com problemas humanos”.

A meta é simples: encadear curiosidade, inserir a expectativa de resolução. A consequência mais direta desse artifício é a fidelidade do leitor. Ele vai procurar o número seguinte da revista. Se for como A Piada Mortal, que é auto-contida, ele vai buscar um gênero semelhante ou histórias com os mesmos personagens.

O cinema, mais abrangente, tem outros exemplos bem claros de finais abertos:

… E o Ventou Levou (1939)

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Inception (2010)

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Matrix (1999)

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Shane (1953)

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De Volta para o Futuro 1 (1985)

Nroads

O Império Contra-Ataca (1980)

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Claro, há variações de gosto, mas alguém consegue chamar algum desses filmes de ruim? Algum deles te desapontou, causou mal-estar ao final? Se eles tivessem acabado ali (como foi o caso de Shane, Inception e …E o Vento Levou) você acha que o final comprometeu a qualidade das histórias?

Se for só um tantinho inteligente já sabe que não se trata de um juízo de valor entre bom e ruim. Trata-se de quando você assistiu esses filmes (ou leu certos quadrinhos de super-heróis). Jovem ou adulto, faz toda a diferença.

Lembrando das lições do Campbell, do “monomito” e da função do herói (aqui descrito por Junito de Souza Brandão):

Separando-se dos seus e, após longos ritos iniciáticos, o herói inicia suas aventuras, a partir de proezas comuns num mundo de todos os dias, até chegar a uma região de prodígios sobrenaturais, onde se defronta com forças fabulosas e acaba por conseguir um triunfo decisivo. Ao regressar de suas misteriosas façanhas, ao completar sua aventura circular, o herói acumulou energias suficientes para ajudar e outorgar dádivas inesquecíveis a seus irmãos” (BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, Vol. III, 1992. p. 23).

monomito

Um quadrinho convencional centra sua história nos 3 primeiros quadrantes no sentido anti-horário.

Certo? Todos de acordo? É aquele ciclo básico: partida-iniciação-retorno. É nesse ponto que se concentram as revistas de super-heróis (e dos filmes citados). É quando acontecem as aventuras, as partes mais excitantes e catárticas da história.

Eis a questão embutida em A Piada Mortal: essas são histórias que não terminaram.

De novo, Brandão:

“[O herói] Retorna à sua tribo ou a seu reino, após façanhas memoráveis, vinga-se do pai, do tio ou do avô, casa-se com uma princesa e consegue o reconhecimento de seus méritos […] Mas, após tantas lutas, o fim do herói é comumente trágico. A grande glória lhe será reservada post mortem.” P. 21

Em outras palavras, a história de um herói é uma história trágica. Mas como assim? Por que ele morreria? Ora, porque a vida de um herói é uma vida exemplar, de sacrifícios, um mito ocorrido no passado que fixa os valores que inspiram e orientam as condutas de todos aqueles que virão depois. De outra forma: o herói é um fundador de sociedades (ou de cidades). O culto de sua memória e de suas ações tem um caráter cívico.

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[daí a razão de ser difícil criar boas histórias do Thor. Elas geram um mal-estar inconsciente; o lugar dele como herói – e deus – é num passado longínquo, quando ancorou as noções de certo e errado ao lado de outros deuses e demônios. Ao lutar junto dos Vingadores no presente, implicitamente se está dizendo que vivemos uma espécie de pré-história; e mais, que um deus – portanto onipotente – não é assim tão poderoso se pode levar uma coça do Homem de Ferro]

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Em 1988, quando escreveu A Piada Mortal,  Alan Moore sabia bem disso. Ele sabia que o herói tem que morrer no final quando escreveu “Whatever happened to man of tomorrow?”, a última história do Superman antes da revisão do John Byrne em 1986.whatever-happened-to-the-man-of-tomorrow4

 

Mas ele “matou” o Superman da Era de Prata de uma forma suave, amortecida, desarmou aquele trauma na criança que lia a revista do super-herói favorito. Moore concedeu a Kal-El uma aposentadoria anônima casado com Lois Lane.

Ok, mas e o Batman da Piada Mortal? No vídeo abaixo, dissecamos a obra:

Batman ainda estava longe do fim da própria história. Ou melhor: nós, como leitores jovens, ainda não estávamos prontos pro fim do Batman. Ou seja: a Piada Mortal é uma narrativa concebida pra leitores jovens pois é uma narrativa de “memoráveis façanhas” e não de edificação de cidades.

No caso, de A Piada, foi a superação do mal, na pele do insano Coringa, pelo bem virtuoso do Comissário Gordon e do racionalista Batman. A catarse da história é uma espécie de “eu tenho razão!” de Batman antes de matar/prender/beijar o Coringa. Mas e depois?

Sem dúvida ele riu da piada do Coringa e desarmou a couraça de frieza e objetividade, afinal isso é mostrado na revista. Mas será que seu jovem eu, o leitor, ia lidar bem com isso? Você estava pronto para rir com seu pior inimigo?

Inseguro, Luke tem que enfrentar o pai. Mimada, Scarlett tem que aprender a viver sozinha. Consciente, Neo tem uma guerra pra lutar. Curioso, Marty tem filhos pra salvar.  Redimido, Cobb tem que despertar. Os finais dessas histórias inspiram ações posteriores, atitudes de amadurecimento pois todos eles – estes heróis que nos mostram “como fazer” – sabem que são caminhos inevitáveis.

A narrativa trágica é mais comum na literatura ou em filmes de apelo menos comercial. Mas por que? Pois exigem um repertório de sensibilidades mais sutis, distinções delicadas de valores, emoções, experiências às quais um público jovem ainda não está atento. Não por má fé ou “rebeldia”, mas pela simples falta de, digamos, quilometragem. Cabem às histórias mostrar o caminho.

DeathAlan Moore, Gaiman (e até o Morrison, quando não se enrosca todo no próprio delírio) são caras que se dispõem a apontar a direção certa, a direção da tragédia, sem que isso pareça uma tortura.

Ora, não há na existência companhia mais doce do que a Morte.

promethea

Promethea, mãe e prostituta, mapeou todas as rotas do vil ao sublime, do erótico à guerra.

O Asilo Arkham não é nada mais do que porão de nós mesmos, um lugar que sempre podemos chamar de lar.

arkham

A Piada Mortal puxa o freio de mão quando você estava quase se virando sozinho.

O mago barbudo te mostrou a porta. O resto do caminho é com você. 

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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10 respostas para A trágica piada do amadurecer: algo sobre roteiros com final aberto

  1. Petrus disse:

    Minha opinião:
    O Batman matar o Coringa iria contra tudo que o Comissário e a Bárbara falaram para ele. Sem duvida, ele ainda poderia fazer, ainda mais se for um Batman de Frank Miller, mas acho que esse Batman é muito mais um Batman de Dennis O’Neil, (supondo que não exista algo como um Batman de Alan Moore, pois eu não li muito Batman pelo Alan Moore, e eu tenho que trabalhar com o que eu tenho) e o Batman do Dennis O’Neil (O Maior Detetive do Mundo) não me parece um assassino. Sendo menos preto-e-branco, não me parece alguém que mataria, não por ser incapaz, mas por puro repudio ao ato. Na história O Filho do Demônio ele luta ao lado de assassinos, os ensinando métodos de luta não-letais.
    Já o Batman de Frank Miller (Cavaleiro das Trevas), certamente mataria o Coringa naquele momento. Não preciso ir muito fundo nessa, acho que todos concordam que no Ano Um Bruce é bem “militar”, e em O Cavaleiro das Trevas ele é bem sádico. Não digo assassino, nem violento, sádico mesmo. Ele sentia falta de machucar criminosos, e não tem problema em machucar civis também. Fora a surra(na minha opinião) totalmente desnecessária no Super-Homem que estava lá só pelo “massavéioismo”, mas que ainda é parte do personagem.
    Embora o Detetive não fosse matar o Coringa ali, naquela situação, pois ele tem fé na lei e no sistema legislativo, O Cavaleiro não compartilha das mesmas crenças, inclusive discorda delas. São dois “Batmans” diferentes que não gostariam muito um do outro. Se não me engano na Zero Hora tem uma cena com os dois, mas enfim.
    Eu peguei duas versões do Batman, a minha favorita, o Detetive, e a que eu menos aprecio, o Cavaleiro, e comparei a situação com ambas. Mas a verdade é que há muito mais versões do personagem, algumas capazes do ato, outras não, e em minha humilde opinião, acho que o Batman, o “meu” Batman, não mataria, nem matou, o Coringa.
    Muito longo; Não Li: Não acho que tenha matado não, mas poderia, depende muito do roteirista e do leitor…

  2. Marc Gadelha disse:

    Alan Moore quando escreveu uma vez que sua “morte do Superman da era de prata” era uma história imaginária, e completou: “mas afinal todas não o são?”
    Grant Morrison disse que Superman era uma grande metáfora, e eu completo: mais afinal, todos os super-heróis também não o são ?
    Finais abertos são o que mantêm a chama acesa. Brilhante análise, meio velho.Não é a primeira que leio sobre o assunto, mas achei essa bem mais completa e de melhor bom senso. Sensacional!!!

  3. Queops Negronski disse:

    Excelente texto!

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