Nas muralhas do exílio: os quadrinhos banidos para sempre

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É uma boa pessoa, que quer o melhor pra si, pros seus e pro mundo.

Mas lá no fundo, quando ninguém está olhando, no escuro, no silêncio, ela sabe, ela sente…  Ela despreza, ela odeia… Pode ser alguém ou alguma coisa. Ela rejeita aquilo ou aquele que é impossível aceitar, impossível tolerar, impossível acolher. E sabe que a sensação é “justa”. Sabe que é “legítimo”. É irrefutável. Ademais, o mundo concorda com ela, por que não se deixar levar?

Quando isso acontece é hora de dizer a ela “Bem vindo às muralhas do exílio”.

Em 1954, uma sub-comissão do Congresso dos Estados Unidos assumiu a responsabilidade de investigar as publicações de histórias em quadrinhos voltadas ao público infanto-juvenil. Elas eram suspeitas de instigar emoções, pensamentos e atos vis, vulgares e degenerados, como a luxúria, a preguiça, a violência, o desrespeito às instituições e autoridades. Enfim, elas eram acusadas de fomentar a delinquência de jovens meninos e meninas. A sentença: a proscrição das revistas que cruzassem o limite do correto, do certo e do adequado.

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Essa história – alguém não conhece? – é manjadíssima. O psiquiatra alemão Dr. Frederick Wertham publicou uma série de artigos alarmistas “denunciando” a publicação de histórias em quadrinhos nos Estados Unidos. Isso culminou com a publicação do infame livro “A Sedução do Inocente”, e a investigação do subcomitê do Congresso. Um dos resultados foi a criação do Comics Code, que engessou o conteúdo das histórias da Era de Ouro decretando seu fim. Por outro, o que é paradoxal, engendrou a Era de Prata, uma das fases mais criativas e prolíficas que os quadrinhos já tiveram.

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Mas o exílio dos quadrinhos acabou ali?

De forma oficial e institucionalizada, até onde se sabe, sim. No caso do Brasil, que é outra história, quem pode responder isso com informações valiosíssimas é o Gonçalo Jr. no seu “A Guerra dos Gibis”.

Já “informalmente”, casos de quadrinhos banidos não são bem uma exceção. Algumas revistas que já saíram, são simplesmente impublicáveis nos dias de hoje. Histórias e páginas que deliberadamente são evitadas ou até esquecidas.

Em 1976, por exemplo, uma tentativa de ação afirmativa nos quadrinhos teve um resultado desastroso, o personagem Tyroc, que mais reforçou estereótipos, invés de dissipa-los.

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Ou então, o caso recente da capa produzida pelo Rafael Albuquerque, que discutimos aqui.

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Isso sem falar nos extremíssimos casos de terrorismo contra os autores do Charlie Hebdo, que igualmente abordamos.

Deve-se lembrar, muitas vezes “os banidos” são materiais, aliás, que jamais tiveram muita qualidade ou visibilidade, como as incontáveis “Tijuana bibles” ou os embaraçosos quadrinhos de apelo político.

Em outro sentido, uma das coisas mais “inequivocamente abjetas” já produzidas foi “Hansi: the girl who loved the swastika” que, apesar do que sugere o título, mostra como a personagem abandona seu afeto pelo nazismo em nome da fé religiosa.

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Mas pense… Imagine quantos quadrinhos Robert Crumb pode ter produzido antes de ser “O” Robert Crumb e que jamais teremos conhecimento porque eram muito (mas muito) baixas para serem impressas?

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Não essa. Essa tá light.

Páginas assim, revistas como estas nos fazem perguntar: o que é tão ultrajante a ponto de concordamos que é melhor serem rejeitadas?  Cabe à nós, leitores, decidirmos as sentenças dos autores que produzem essas obras?

Ou então, cabe “às autoridades” fazer isso por nós?

Uma leitura dessas questões poderia dizer que o “proscrito”, o banido, aquele que elegemos ignorar ou odiar tem uma função clara: ele é o bode expiatório, um “mal necessário”, um foco de “senso comum” que ordena e nivela toda a opinião de um grupo que se quer maioritário. Mas no fundo ele é a chave para entender aquela sociedade pois o exilado contém tudo que ela rejeita pra si.

Uma leitura, mais conservadora, poderia dizer que é irresponsável permitir que algo que incite o “mal” prevaleça, uma “erva daninha”, uma praga, ou uma “doença” que se alastra. Se um câncer pode ser extirpado com um procedimento certeiro, criminoso é esquivar-se de salvar o organismo.

Certo?

George Orwell advertiu sobre as deformações que a censura provoca num mundo obcecado pelo “corretismo” das palavras, das ideias e das intenções. Nazistas queimavam livros em praça pública e ensinavam as crianças a denunciarem seus pais às autoridades.

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O acesso a livros, quadrinhos, filmes, jornais, sites e blogs, aulas, professores, leis, ensinamentos e informações, tanto os bons quanto os ruins, jamais foi tão amplo e irrestrito quanto nos últimos dois minutos que você levou para chegar a esta linha.

Então você pensa…

De qual lado da muralha você está?

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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3 respostas para Nas muralhas do exílio: os quadrinhos banidos para sempre

  1. PC disse:

    Apesar de usar a questão “Wertham” para falar de outros exemplos de censura, mencionar a investigação do Congresso dos EUA como parte da “cruzada contra os quadrinhos” continua a ser uma reacção emocional e falaciosa. Basta ler as transcrições das audiências para entender que o verdadeiro foco da investigação era a ligação das distribuidoras de bancas ao crime organizado, e a prática de concorrência desleal designada como “vendas associadas”. Apesar da histeria causada por Wertham junto das donas de casa, ele não tinha assim tanta influência para banir ou censurar seja o que for. E foram as próprias editoras que criaram o Comics Code com o objectivo específico de tirar a Lev Gleason e a EC Comics das bancas.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Tudo verdade. Tudo bem conhecido, inclusive as gravações do Subcomitê, que escutei quando visitei o National Archives em Washington. Só escolhi não explorar o assunto neste texto, que tinha outro enfoque.
      Sugiro que abra os links.
      Abraços.

  2. Pingback: Super-heróis e a função da catarse heroica | Quadrinheiros

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