Super-heróis e a função da catarse heroica

pintura-fiskQual é a catarse que os quadrinhos provocam? Esclarecimento? Ou esquecimento?

Como acontece todo ano é hora de começar de novo. É chegada a hora dos maiores lançamentos dos filmes de super-heróis no cinema.

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Puro filé da adoração nerd, os filmes ensejam debates, posicionamentos, quebra-paus, fins de amizade – ou muito antes pelo contrário, eles aproximam, alinham, fortalecem pessoas, grupos e ideias.

Claro, os filmes são adaptações de histórias que vem dos quadrinhos. Na essência são as mesmas histórias. Guerra Civil não dá margem para dúvida. As versões obedecem aos formatos e formalismos de cada meio. Mas o objetivo – além de gerar lucro – é sempre o mesmo, a narração de uma história épica. E não importa como se manifesta, a epopeia sempre tem um mesmo fim: a catarse.

“Hein?”

Para quem faltou nessa aula, “catarse” (em grego “κάϑαρσις”, “khátarsis”) é um conceito usado por Aristóteles para descrever uma “essência pura”, ou alcançar uma “purificação” promovida pelas narrativas poéticas. Quando aqui se diz que os quadrinhos são “uma narrativa épica”, a referência é aos ensinamentos do filósofo. Se você chegou aqui agora, entenda que as ideias do cara são influentes na casa.

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Como ele descrevia, a narrativa poética era realizada de duas formas, como tragédia ou como comédia. A “epopeia heroica” se aproxima do campo da tragédia, mas tanto quanto a comédia, ambas levam o público a um mesmo “lugar” emocional, a catarse, ou seja, à manifestação de um sentimento puro, despido de ruídos, livre de obstáculos, isento de manchas de significado.

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Por exemplo, quando o leitor, envolvido com a narrativa, acompanha a batalha do Superman contra o Apocalipse na saga A Morte do Superman, ele não está preocupado com a qualidade do roteiro, com a seleção dos autores, com o preço da revista. Ele está, sim, atento aos eventos mostrados ali, cada soco desferido contra o vilão, cada ferimento sofrido pelo herói, cada detalhe que, o leitor sabe, reluta em aceitar e sofre ao assistir, vai levar à um fim inexorável: o Superman vai morrer. É inevitável.

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A catarse, aqui, é a dor da certeza da morte.

Ou não?

Há aqueles que diriam que o tesão da história foi a batalha do Apocalipse contra Superman, finalmente enfrentando alguém com poder à altura dele. Outros diriam que a história é boa porque revelou a “verdadeira natureza” do último filho de Krypton, um órfão que morreu protegendo o único lar que conhece. Outros ainda diriam que a Morte de Superman é a melhor narrativa sobre o amor do Homem de Aço por Lois Lane, dolorosamente exposta em seus momentos finais.

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Qual deles têm razão? Todos? Ou nenhum? Este é um dos efeitos da narrativa épica. Ela incita as mais diversas interpretações. E elas são sempre subjetivas.

No entanto, quando o valor desses julgamentos é acoplado a critérios formais, objetivos, (por exemplo, a proporcionalidade dos desenhos, um roteiro livre de clichês, no caso dos quadrinhos) sejam eles quais forem (a “fidelidade” ao material original no caso de adaptações para o cinema), eles vão provocar um quebra-pau interminável entre o público. E por que? Porque os defensores dessas “regras”, cientes dos seus próprios critérios em nível sub-atômico, vão se comportar como “apóstolos” de uma verdade. Quem não vê essa verdade seria simplesmente cego ou obtuso demais para reconhecer a pureza do significado.

Ora, esse comportamento não surgiu nos quadrinhos nem tem poucos exemplos. Uma das mais barulhentas incidências desse fenômeno foi o nascimento dos puristas cristãos na Idade Média. Chamados de Cátaros, aqueles cristãos da Trácia (uma área ao norte da atual Grécia) foram uma tremenda pedra no sapato de uma Igreja Católica que ainda tentava se consolidar como “religião universal”.

Razoavelmente mais brandos que outras vertentes da fé cristã, os Cátaros eram adeptos de uma relação menos “agressiva” com a prática religiosa. Enquanto o papado medieval celebrava a penitência (ou seja, a dor do corpo) como caminho de elevação espiritual, os Cátaros eram adeptos do puro e simples arrependimento.

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Talvez sabendo que o rebolado dos Cátaros (veja só, “os purificados”) era mais cativante, o Papa Inocêncio III autorizou a Cruzada Albigense (ou Cruzada contra os Cátaros) entre 1209 e 1244. Todos os adeptos foram massacrados.

Classificados como hereges, os Cátaros caíram no esquecimento e com o tempo ganharam a aura de “sociedade secreta”, lugar comum que se prolifera quanto maior for o distanciamento histórico e maior a necessidade de se atribuir responsabilidade por tudo que não se entende.

Até onde se sabe, nada parecido aconteceu com fãs de quadrinhos. O que não é um mistério para entender.

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Um pessoal de convivência bastante pacífica. Crédito da foto.

Enquanto a catarse de um público pode levar às mais radicais consequências, a catarse de uma pessoa pode provocar justamente o oposto, ou seja, o esclarecimento. Na psicanálise, Freud empregou o termo “catarse” para descrever uma espécie de descarga emocional, uma “filtragem” de um sentimento específico (rancor, arrependimento, desejo, medo, amor, etc).

Para Freud, a catarse também descrevia o processo de “purgação” no caminho da elucidação de emoções e sentimentos. Uma das bases da psicoterapia, essa catarse é o fim alcançado por meio da recordação de determinadas situações. Em grande parte, isso explica o apelo e sucesso dos quadrinhos, seus filmes e seus heróis.

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Quando em incontáveis edições (e filmes) a origem do Homem-Aranha ou do Batman são relembradas, o apelo catártico é o mesmo: eles carregam um enorme peso emocional porque dialogam com um dos mais primitivos – talvez o maior – pavor infantil: a perda dos pais. É um terror que todos temos guardado dentro de nós, impossível de ser ignorado, não importa a idade, sejamos órfãos ou não. Mas essa é só metade da história.

Não basta apenas a rememoração de sentimentos infantis. As narrativas dos heróis, como nenhuma tragédia ou comédia faz tão bem, projetam a força da vida adulta. Quase como uma religião, elas incitam a esperança.

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A partir do assassinato do tio, Peter Parker assume a responsabilidade por seus atos. Batman resolve se fortalecer para impedir que outros sintam a dor que ele sentiu. A Mulher Maravilha cresce para se tornar a diplomata da paz mas sempre preparada para guerra. Os Lanternas Verdes precisam superar seus medos para vencer o mal, etc, etc… A mensagem é bastante similar. A catarse dos quadrinhos é a celebração do crescer, do amadurecer, do tornar-se adulto, seja lá o que isso significar para o leitor.

Uma das críticas mais batidas, hoje em dia até bastante superadas, é de que os quadrinhos transformariam seus leitores em tapados. Algo como a antítese da escola pois alienava os jovens do verdadeiro conhecimento. Quadrinhos eram vistos como um “bloqueador” de catarses poéticas.  Obviamente, nada mais equivocado, afinal não existe concorrência entre “Educação” e “Arte” e ambos provocam descobertas de significados pessoais valiosos.

Mas não deixa de chamar a atenção o aumento significativo do número e qualidade de filmes e quadrinhos de super-heróis enquanto o prestígio das escolas e dos professores – especialmente na esfera pública –  parecem estar seguindo o sentido oposto.

A questão é: para além da purificação, da heresia ou da descarga emocional, a catarse das epopeias super-heroicas serve ao esclarecimento das ideias ou ao esquecimento da realidade, como uma válvula de escape?

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É difícil escapar à máxima de Brecht, “Pobre é a sociedade que precisa de heróis.”

Mas essa é outra história.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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5 respostas para Super-heróis e a função da catarse heroica

  1. dmarino77 disse:

    A questão é: para além da purificação, da heresia ou da descarga emocional, a catarse das epopeias super-heroicas serve ao esclarecimento das ideias ou ao esquecimento da realidade, como uma válvula de escape?
    A resposta a essa pergunta depende do teórico adotado. Alguns acreditam que a arte funciona como um dispositivo que permite a interpretação da realidade, outros que sua função catártica justifique qualquer consequência que possa surgir de uma manifestação, ainda que fira a terceiros. Também é sabidamente uma forma pela qual o indivíduo crítica uma condição…

  2. Ótimo texto, adquiri conhecimento novos e me fez pensar por um ângulo novo.

  3. Ótimo texto, me trouxe muitas reflexões! Inclusive acerca da pergunta: ” A catarse das epopeias super-heroicas serve ao esclarecimento das ideias ou ao esquecimento da realidade, como uma válvula de escape?”. Para mim as epopeias super-heroicas me transportam para um outro estado de consciência e realidade, e neste estado eu consigo interpretar e analisar (e até compreender melhor) a realidade na qual eu vivo, sendo que talvez não conseguiria fazer se eu estivesse totalmente imerso em minha realidade.

    E sobre a máxima de Goethe, eu a conhecia, mas creditada a Bertolt Brecht…

  4. Pingback: Walter Benjamin, quadrinhos e arte | Quadrinheiros

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