Walter Benjamin, quadrinhos e arte

“Nunca as obras de arte foram reprodutíveis tecnicamente, em tal escala e amplitude, como em nossos dias.”

Walter Benjamin

É célebre o texto de Benjamin A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica publicado em 1955, mas que começou a ser escrito em 1936. Desde minha primeira leitura do texto, há uns 15 anos, sempre achei curioso o fato de que Benjamin não dedique uma linha sequer às histórias em quadrinhos. Num texto voltado à fotografia e ao cinema, o autor não viu os aspectos que prenunciavam o cinema já nos quadrinhos, ainda que afirme que “em certos estágios do seu desenvolvimento as formas artísticas tradicionais tentam laboriosamente produzir efeitos que mais tarde serão obtidos sem qualquer esforço pelas formas de arte”, vendo apenas a relação entre fotografia e cinema.

O próprio

O objetivo aqui é estabelecer um diálogo entre o texto de Benjamin e os quadrinhos como obra de arte.

A aura

A tese de Benjamin é que na era da reprodutibilidade técnica da obra da arte, a aura desta obra se atrofia. Esta aura pode ser entendida como a autenticidade de uma obra. E ela, segundo o autor, é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir de sua origem, desde sua duração material até seu testemunho histórico. O que não é tão complicado como parece.

Imagine a Mona Lisa de Da Vinci. Havia uma época em que a obra só poderia ser vista em seu original, no Louvre, com as marcas de deterioração do tempo, assim como das eventuais restaurações. Hoje eu posso ver a imagem numa resolução de 4k pela internet, numa qualidade muito superior ao próprio original, e antes disso, em reproduções de posters, revistas etc. Portanto, a reprodutibilidade técnica da obra de arte atrofia essa aura que toda a obra de arte tem.

Benjamin viu na fotografia e cinema, pela primeira vez, obras de arte que surgiram já na época de sua reprodutibilidade técnica, e, portanto, a própria noção de aura ou autenticidade perderam o sentido. Afinal, qual a diferença entre um filme e sua cópia do ponto de vista da exibição?

No entanto, a aura pode até se atrofiar, mas não se perde completamente. Minha hipótese é de que os quadrinhos, os gibis, comics ou como quer que os chamemos, o objeto físico é aquele que mais resiste em perder sua aura.

Conhecemos os preços estratosféricos a que chegam uma Action Comis #1 ou uma Detective Comics #27 (primeiras aparições do Superman e Batman respectivamente) e, não obstante, sabemos que seria possível reproduzi-las identicamente como foram da primeira vez, ou mesmo ler as duas na tela do computador, com as cores mais vivas e mais nítidas que um original que sobreviveu até os dias de hoje.

Já imaginou folhear um desses?

Mas não é preciso ir tão longe. Mesmo no Brasil as versões mais antigas são apreciadas pelos amantes de quadrinhos, ainda que existam edições editorialmente melhores. Por exemplo, é valorizada a primeira edição de O Cavaleiro das Trevas no Brasil, publicado aqui em 1988, chegando inclusive a um preço mais caro que a nova edição da Panini que conta com capa dura e papel de qualidade superior.

Mesmo com os quadrinhos digitais, não são poucas as pessoas que preferem ter o quadrinho físico em suas mãos, que mesmo consumindo a história digitalmente preferem também comprar a versão física.

É um paradoxo: quadrinhos (assim como o cinema) são produto da sociedade de massas e da reprodução técnica da obra de arte. No entanto parece que sua aura resiste ao processo de atrofiamento tanto mais quanto mais se amplia sua reprodutibilidade técnica.

Por que isso ocorre?

De acordo com Benjaman, a unicidade, a autenticidade, a aura da obra de arte, é idêntica à sua inserção no contexto da tradição, e sua forma mais antiga se exprimia no culto. Há um traço ritualístico e teológico na obra de arte, mas com sua reprodutibilidade técnica ela poderia se libertar do ritual.

Será que esse culto ao original dos quadrinhos está relacionado, de alguma forma, ao fato de que é possível compreender os super-heróis como deuses modernos? Uma espécie de culto que renderíamos a esses seres? Mas e quanto aos outros quadrinhos que não tratam de super-heróis, por que esse culto?

Ou esse?

A nostalgia explicaria em parte também as origens desse culto ao quadrinho original. Via de regra começa-se a ler quadrinhos na infância e a nostalgia criada pela juventude, uma percepção de que “tudo era melhor na minha época”, faria do quadrinho um objeto físico e original resistente ao atrofiamento da aura.

Quadrinhos como arte

Benjamin afirma que muito se discutiu a respeito se a fotografia era ou não uma obra de arte, sem que se colocasse uma questão anterior, se a própria invenção da fotografia não havia alterado a natureza da arte. O mesmo vale para os quadrinhos, que por muito tempo tiveram seu status de arte negado, discutido e, mesmo hoje, por vezes, rejeitado como arte, sendo reconhecido apenas como produto a ser consumido.

Talvez seja o próprio irreconhecimento dos quadrinhos como obra de arte (na época) que levou Benjamin a ignora-los em seu texto.

A explosão terapêutica do inconsciente

O autor afirma que “o cinema introduziu uma brecha na velha verdade de Heráclito segundo a qual o mundo dos homens acordados é comum, o dos que dormem é privado. E o fez menos pela descrição do mundo onírico que pela criação de personagens de sonho coletivo, como o camundongo Mickey, que hoje percorre o mundo inteiro”. O que dizer então dos universos ficcionais da DC e Marvel construídos por mais de 70 anos a tal ponto de constituírem arquétipos reconhecíveis mesmo fora de seus universos ficcionais? Existem personagens de sonho coletivo mais emblemáticos que aqueles oriundos dos quadrinhos?

Benjamin viu nisso uma explosão terapêutica do inconsciente e sabemos do potencial catártico dos quadrinhos, sobretudo das narrativas de super-heróis.

***

Esses foram alguns apontamentos e relações possíveis entre o texto de Benjamin e os quadrinhos. Convido a todos à leitura do texto e aos mais dispostos a compartilhar suas observações conosco aí nos comentários.

 

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Sobre Nerdbully

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2 respostas para Walter Benjamin, quadrinhos e arte

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