A marca da revolução: de Pantera Negra ao Zorro

Algo está mudando. 

Em que pese a nostalgia e o sentimento de “vamos voltar ao que já fomos”, plataforma de campanha de que deu vitória a Trump em 2016, as representações – nome chique que acadêmico usa no lugar de gibi e filme pipocão – miram em outra direção.

O filme do Pantera Negra, lançado em fevereiro de 2018, é um ótimo exemplo. Como raramente acontece, o herói diz com todas as letras ao seu pai, o rei T’Chaka: “Você estava errado. Todos vocês estavam errados, de virar as costas para o resto do mundo. Deixamos nosso medo da descoberta nos impedir de fazer o que é certo.”

O pai do Pantera Negra não é um “vilão”, como era Darth Vader. Nem se trata apenas de uma crítica a uma geração anterior. Invés disso, é a afirmação de que a rigidez das tradições de Wakanda levaram à males graves para pessoas e nações. O sentimento de T’Challa pede por uma mudança de atitude em relação ao passado, algo que determinará o futuro do país de forma irremediável. Longe de um maniqueísmo simplista, estes são matizes delicados apresentados ao público.  E se sucesso comercial revela alguma coisa, sendo que renda do filme alcançou mais de 1 bilhão de dólares no mundo todo, é seguro dizer que há muita gente  que foi tocada por uma mensagem importante.

O impulso à mudança, o ímpeto por um futuro em que os pilares da tradição são rejeitados em nome do avanço e do esclarecimento são a essência dos ideais iluministas, de Montesquieu, Rousseau, Voltaire, e John Locke.

A ânsia de um porvir mais racional, mais justo, mais diverso e humanitário é, ademais, o valor implícito de cada revolução registrada pela História. E é raro quando os heróis de quadrinhos ou cinema estão alinhados com este ímpeto de forma assumida. Afinal, quando eles vão além de zelar pelo status quo e resolvem agir para a superação da situação vigente, a linha que separa um “herói” de um “vilão” fica nebulosa.

Neste caso, como saber quando um personagem rebelde é “herói” ou “vilão”? Como tudo mais, o significado está no contexto e na perspectiva do narrador.

Taí o personagem mais importante de 300: Dilios, o narrador da versão (ou seria Frank Miller?)

Em 1919 o escritor americano Johnston McCulley publicou no semanário All Story Weekly o conto “A Maldição do Capistrano”, nada menos que a primeira história do herói Zorro, “a raposa” mascarada. Já ali apareciam as principais marcas das aventuras do herói: Zorro é o alter-ego do jovem aristocrata Don Diego De La Vega, ajudado pelo fiel criado Bernardo e o veloz corcel negro Tornado, defensor dos pueblos criollos e nativos na Califórnia sob a opressão do domínio mexicano.

Uma vez que o domínio imperial se estendeu da independência do México em 1821 até o início da Guerra Hispano-Americana, em 1846, é seguro considerar que McCulley projetava em Don Diego a personificação de um criollo, ou seja, um filho de espanhol nascido na Califórnia. Os laços nacionalistas de Don Diego estavam mais ligados à terra e ao povo do que à herança familiar. Embora Don Diego fosse um realista na vida diurna –portanto, favorável ao domínio aristocrático -, se revelava um rebelde a noite como Zorro, opositor feroz ao novo estado que se impunha às comunidades californianas.

No romance de McCulley Zorro surge quase como se fosse a versão romanceada de Agustín de Iturbide, ele mesmo um criollo sob ordens do rei Fernando VII da Espanha. Em 1821 ele se tornou líder da independência do México, um processo de libertação negociada e sustentada pela aliança de Iturbide com as forças guerrilheiras de Vicente Guerrero, líder mestiço, negro e mexicano, opositor à velha ordem imperial espanhola. Na perspectiva de McCulley, Zorro/Iturbide/Guerrero, que por um lado poderiam ser acusados de brutais assassinos, graças à narrativa romanceada, passam para o lado dos heróis de outro.

Zorro, junto de outros heróis de romances de folhetim, como o Pimpinela Escarlate, da Baroneza Orczy (1905), o Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas (1844), Rodolphe, de Eugène Sue (1844) têm em comum o teor de contestação política como subtexto narrativo. Cada um, heróis cheios de virtudes, se apresenta como antagonista às velhas ordens sociais, reunidas e significadas em um vilão.

Muitas vezes de forma relutante, escondendo suas identidades verdadeiras, eles agem não apenas contra um rival, mas contra o que eles representam. No caso do Pimpinela Escarlate, o “mal” é representado pelos extremos jacobinos da Revolução Francesa. Para o Conde de Monte Cristo, o vilão é a nova burguesia liberal, gananciosa, hipócrita e corrupta. No caso de Rodolphe, o mal se espalha em todos os níveis da sociedade, do salão da aristocracia ao beco dos prostíbulos.

Convenhamos, os romances oitocentistas seriam todos mais maneiros se tivessem o Wolverine. No caso, a adaptação de Les Miserables, do Victor Hugo Fonte

Sempre bom repetir, os heróis de quadrinhos são os “netos” dos heróis de folhetim e pulps do século XIX e XX. O teor “rebelde” e “revolucionário” está no DNA de cada um deles. De forma mais declarada estão as histórias que têm um posicionamento de contestação mais claro, incluindo aí V de Vingança, de Alan Moore, Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller e The Authority, de Warren Ellis.

Não por acaso, estas são histórias menos conhecidas do público ou auto-contidas, restritas aos próprios arcos narrativos. Mas há também aquelas com um subtexto crítico mais sutil, adaptadas para o cinema, como Pantera Negra ou X-Men, que da mesma forma relembram a importância de se avançar na história. Significativo entre estes últimos é a amplitude de seu impacto.

Mas antes que se taque pedra nos gibis – ou pior, em mim –, acusando eles destruição dos valores tradicionais, quando se fala em “avanço”, “revolução”, “rebelião”,  importante relembrar as lições de Alan Moore em Miracleman:

“…embora um palácio a Albion ou a Camelot tenha sido erigido nas ruas devastadas, nós ainda mantemos esses campos de extermínio.

Estes pastos sepulcrais servem como uma lembrança, um memento mori, para jamais nos esquecermos que embora o olimpo alcance os confins do céu, em toda a história da Terra nunca existiu um paraíso,

nunca existiu um lar de deuses

Que não fosse erguido sobre ossos humanos.”

Não há revolução, nem avanço que se sustente, quando se esquece do que foi erigido e perdido até então.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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Uma resposta para A marca da revolução: de Pantera Negra ao Zorro

  1. Lair Amaro disse:

    Seu texto me deu uma ótima ideia: exibir Zorro nas minhas aulas sobre lutas por independência na América espanhola. Muito obrigado.

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