Talvez seja uma falha de percepção minha (não sou exatamente o sujeito antenado que meus amigos acham que sou), mas não me parece haver uma produção significativa (em termos de qualidade, mas também de quantidade) sobre a ditadura militar nos quadrinhos brasileiros após a redemocratização. Situação, no mínimo, curiosa, uma vez que os temas históricos sempre corresponderam a grande parte dos títulos nacionais. Essa ausência se torna ainda mais estranha se nos lembrarmos que o período ditatorial foi riquíssimo na produção de charges, tirinhas e tablóides, mesmo com toda a censura e perseguição política.
Não é que os bons chargistas tenham desaparecido. Num país como o nosso, eles têm material de sobra para trabalhar todos os dias, sem precisar recorrer a questões do passado — até porque a natureza da charge é mesmo retratar o agora. (Há momentos em que os temas são tantos que deve ser até difícil escolher). Também temos bons quadrinistas que trabalham com os mais variados temas, muitos deles bastante politizados. E fazem isso de maneira competente, sem cair numa narrativa enfadonha e que incentive o leitor a deixar o material de lado para ler qualquer outra coisa. Como se explica, então, essa ausência de publicações justamente no ano do cinqüentenário do golpe?
Joseph Campbell foi um pesquisador de mitos que escreveu livros como As Máscaras de Deus (em quatro volumes: Mitologia Primitiva, Mitologia Ocidental, Mitologia Oriental e Mitologia Criativa) que trata da mitologia antiga e moderna de todo mundo, e O Herói de Mil Faces sobre a psicologia das ideias elementares da mitologia. Já comentamos sobre sua obra aqui.
Sua análise do livro Finnegans Wake – de James Joyce – se desdobrou no que Campbell chamou de monomito — o ciclo da jornada do herói. A estrutura de partida e retorno do personagem de Joyce segue um padrão encontrado em todas as culturas de todos os tempos.
Todo tipo de narrativa produzida depois de Campbell sofreu sua influencia. O caso mais evidente é a declarada admiração de George Lucas que usou deliberadamente o conceito de monomito no roteiro de Star Wars.
Vale muito assistir às entrevistas que Campbell deu ao jornalista Bill Moyers em meados dos anos 1980, pouco antes de suas morte. No youtube estão divididas em 6 partes e essa é a que trata da Jornada do Herói:
Antes de começar a ler dê o play neste vídeo e deixe o som te contagiar enquanto você lê:
Agora sim. Estando contagiado pelo excelente som do Vince Guaraldi Trio podemos falar da notícias mais importante do ano. E do ano que vem também. Isso pode ser consequência de uma ligação pessoal/íntima com o personagem, mas acho que não sou o único. Só para vocês verem como é algo sério essa minha ligação, assistam o episódio “Orgulho de Prateleira” da série Viciados em Quadrinhos, aqui o link.
Mas eis aqui o motivo do post: Está confirmado para 2015 o filme em 3D do Peanuts!
É felicidade que não cabe só no corpo! é preciso extravasar!
A Era de Ultron nas mãos de Brian Bendis (o Stan Lee rebootado) – mestre em costurar personagens diversos, equipes improváveis e versões alternativas – e Bryan Hitch – especialista em colocar toda essa loucura em páginas duplas épicas e em ângulos cinematográficos -, nos devolve a sensação nostálgica de sagas clássicas como a Era do Apocalipse e Dias de um Futuro Esquecido, só que agora com o (também clássico) futuro dominado pelas máquinas.
Qualquer semelhança com Dias de um Futuro Esquecido não é mera coincidência…
O que é uma narrativa? Como ela é construída? Apenas uma ideia genial basta ou existem técnicas por trás de uma boa história?
Contar e ouvir histórias são a base da cultura humana. A linguagem e o seu desenvolvimento em diferentes plataformas (para múltiplas funções), desenhou o mundo que agora nos cerca. Por ser assim tão intrínseca, tão intuitiva, a linguagem nos escapa. Por sermos dela constituídos, nós a simplificamos, empacotamos e direcionamos. Usamos a linguagem quando inventamos uma desculpa, e somos indefesos frente a ela quando a pupila dilata e a voz falha.
Onde temos controle testamos, analisamos, escolhemos os melhores resultados e aí formulamos. Assim mesmo como um processo industrial. Hoje o cinema, a TV e os quadrinhos são indústrias, seguem fórmulas que vez ou outra se reinventam, desconstroem e inovam até que tudo isso vire fórmula mais uma vez.
É sobre essas fórmulas e reinvenções que essa série trata. Dos truques aos conceitos mais filosóficos, das ideias básicas à convergência de linguagens. Para quem gosta de histórias!
Craig Thompson, autor dos altamente recomendáveis Retalhos e Habib, no prefácio do não menos recomendável Daytripper de Fábio Moon e Gabriel Bá, diz que os quadrinhos podem ser divididos em duas grandes linhas, que é uma da fantasia e do escapismo, da qual o gênero super-heróis seria o expoente, e outra do realismo e do cinismo, ao mesmo tempo que chama a atenção para o equívoco que é fazer essa divisão.
Nas artes traçar a linha que separa a fantasia do realismo pode ser relativamente fácil, mas não se pode dizer o mesmo sobre o escapismo e do cinismo. Se quiséssemos traçar essa linha, onde colocaríamos A Metamorfose de Kafka? Quem arriscaria apontar ali o que é fantasia e o que é realismo, o que é escapismo e o que é cinismo? E mesmo em Retalhos, Habib e Daytripper? Tão difícil na literatura quanto nos quadrinhos.
Meus amigos me consideram cético ou pessimista, mas, desde que passei a pensar com mais seriedade no assunto (falta do que fazer, admito), sempre considerei a existência de super-vilões mais plausível do que super-heróis. É verdade que a humanidade às vezes surpreende, aparece alguém capaz de grandes gestos de honestidade, perdão, solidariedade e, pensando bem, esses casos nem são tão raros assim. Mas, talvez seja a saturação de notícias ruins que nos cercam todos os dias ou o resultado da auto-contemplação, o fato é que não consigo ver a possibilidade de haver um Superman ou Batman por aí. Não que eu fique pensando em termos de plausibilidade ética quando leio gibis. É só que vez-ou-outra aparece uma história que me faz questionar o que eu faria se tivesse os mesmos poderes e o mesmo passado de alguma personagem, mas com a minha índole e minha visão-de-mundo.
De uns tempos para cá começou um mimimi sobre a questão dos quadrinhos estarem subordinados a outras mídias, especialmente o cinema. Um dos expoentes dessa discussão foi a carta aberta de Paulo Ramos ao Superman, na qual o autor lamentava a péssima qualidade das histórias do Super e que a causa dessa baixa qualidade era justamente os quadrinhos estarem à serviço do mercado cinematográfico. Fiz um comentário a essa carta onde – entre outras coisas – argumentava que os quadrinhos são uma indústria, portanto sempre de olho em um mercado, que você pode ler aqui.
Gostaria de deslocar um pouco a questão. Não vou lamentar a influência do cinema nas hq’s, mas tentar ver como ela se coloca. Existe uma frase famosa na semiótica que diz que o meio é a mensagem. Pois bem, tomando essa frase como verdadeira gostaria de fazer outras perguntas: que mensagem é possível com os quadrinhos? E mais, que mensagem só os quadrinhos são capazes de transmitir? Quais alterações o cinema está operando nesse meio e mensagem que são os quadrinhos? Obviamente não tenho pretensão de respondê-las nesses pequeno post, mas só levantar alguns pontos para começar uma discussão, com vocês e em futuros posts também. Continue lendo →
E aí vem uma nova série do velocista, agora derivada de Arrow. A cena clássica do acidente no laboratório, dessa vez catalisada pela explosão de um acelerador de partículas, fez parte do episódio 03 da segunda temporada da série do Arqueiro. A série solo de Barry Allen já como Flash vai estrear ainda esse ano (ou no início de 2015).
A Vertigo – selo adulto da DC Comics – mudou a cara da indústria dos quadrinhos abrindo o mercado para produções mais autorais de artistas independentes ou possibilitando vôos criativos de artistas consagrados. Na década de 1990 seu impacto influenciou o mainstream trazendo abordagens mais realistas e mais sérias para a vida de personagens como o Homem Aranha e o Batman. Até hoje é uma incubadora de inovações estéticas e de estilo e mesmo com a recente saída de editora chefe original do selo – Karen Berger – o legado se mantém.