Pensando quadrinhos: cinema e hq’s

De uns tempos para cá começou um mimimi sobre a questão dos quadrinhos estarem subordinados a outras mídias, especialmente o cinema. Um dos expoentes dessa discussão foi a carta aberta de Paulo Ramos ao Superman, na qual o autor lamentava a péssima qualidade das histórias do Super e que a causa dessa baixa qualidade era justamente os quadrinhos estarem à serviço do mercado cinematográfico. Fiz um comentário a essa carta onde – entre outras coisas – argumentava que os quadrinhos são uma indústria, portanto sempre de olho em um mercado, que você pode ler aqui.

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Gostaria de deslocar um pouco a questão. Não vou lamentar a influência do cinema nas hq’s, mas tentar ver como ela se coloca. Existe uma frase famosa na semiótica que diz que o meio é a mensagem. Pois bem, tomando essa frase como verdadeira gostaria de fazer outras perguntas: que mensagem é possível com os quadrinhos? E mais, que mensagem só os quadrinhos são capazes de transmitir? Quais alterações o cinema está operando nesse meio e mensagem que são os quadrinhos? Obviamente não tenho pretensão de respondê-las nesses pequeno post, mas  só levantar alguns pontos para começar uma discussão, com vocês e em futuros posts também.

Antes de mais nada, uma pequena digressão. Há também uma discussão se os quadrinhos são arte e, se são, qual arte? Seriam literatura ou estariam mais próximos das artes visuais? Não vou entrar nessa discussão infértil. Vou partir do pressuposto que sim, quadrinhos são uma arte e sua especificidade está justamente em uma simbiose entre literatura e a pintura, onde o texto potencializa a imagem e a imagem potencializa o texto criando sentidos e significados que nenhum dos dois, por si só, conseguiria.  Podemos prosseguir.

É inegável que a narrativa cinematográfica está influenciando os quadrinhos e de uma maneira muito mais profunda do que simplesmente mudanças visuais ou nos cânones dos personagens. Essas mudanças são estéticas e narrativas. Olhem essa página de um quadrinho dos anos 80:

marvray1

Agora olhem essa do século XXI:

quadrinhos

Vocês podem notar que há muitos menos quadros e muito menos texto, influência não só do cinema, mas também dos mangás. Veja uma página do Lobo Solitário, dos anos 70:

LS

Então os quadrinhos estão se tornando mero storyboards para filmes? Se pegarmos o recente Kick-Ass e Nêmesis (cujos direitos já foram vendidos para o cinema) de Mark Millar e diríamos que sim:

92459

Kick-Ass

NmmMM3

Nêmesis

Se quisermos apontar uma mudança poderíamos dizer que antes os vácuos entre um quadrinho e outro eram preenchidos pela imaginação do leitor, que também precisava de um tempo maior para absorver o texto e a imagem,  e que hoje esse mesmo vácuo pode ser visto como um corte de uma cena pra outra num ritmo frenético, acelerando o ritmo de leitura e fazendo com que o tempo de fruição dos quadrinhos esteja mais próximo do cinema que da literatura ou do que seria “próprio dos quadrinhos”.

Bom, é isso aí, pessoal. Nada está estanque no mundo, é óbvio que as artes se influenciam mutuamente – ainda mais num mundo globalizado. Só quis mostrar que a influência do cinema nas hq’s é muito mais profunda do que o fato  do Superman usar ou não cueca por cima da calça.

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Sobre Nerdbully

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3 respostas para Pensando quadrinhos: cinema e hq’s

  1. Luiz André disse:

    Um outro tópico para um possível post é tentar discutir os prós e contras desta inter-relação entre cinema e HQs, não apenas se focando na questão de que páginas de quadrinhos funcionem como storyboards, mas percebendo que certos filmes – como Hulk, de Ang Lee e CBGB, sobre o lendário bar que serviu de palco para o nascimento do punk – têm abordado uma montagem que remete à leitura de uma HQ.

  2. jeffhonorato disse:

    Post muito interessante, vale sim toda uma reflexão sobre o assunto. Acho as Hqs de hoje muito bem explicadas, realmente os vácuos estão diferentes de tempos atrás, principalmente no chamado Mainstream. Fazendo um Link, vejo isso nos games também, onde o cinema está pegando e modificando, como nos quadrinhos.

  3. Pingback: Quadrinhos na História: bibliografia quadrinheira | Quadrinheiros

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