4 ideias que pareciam perfeitas quando você leu nos quadrinhos (mas que o tempo fez mudar de opinião)

KC_sofaReflexões de quem faz uma mudança e procura os livros emprestados dos amigos.

Sabei, óh jovem, que além da autonomia e vida sexual ativa (quer dizer, com outra pessoa), ser adulto traz inauditas surpresas. Antes que se perceba, vem a revelação que bens recônditos, um sifão de pia de banheiro ou um registro de cozinha, podem ser mais caros que uma lauta churrascada com os amigos. Para atingir sobriedade, nada mais fulminante do que cálculo para sobreviver até o fim do mês, seja o critério financeiro ou existencial.

Eis que em meio a tais indagações, imperativo é observar o passado e as histórias que o moldaram. Afinal, nossa qualidade enquanto sujeitos de bem que gostamos de acreditar que somos vem de lá. “Não aguento mais tante gente boçal!” – esbraveja você ao receber mais um link altamente tendencioso no feed do grupo da família/trabalho. E você, tal como o alpinista que chegou ao cume da sapiência, bradaria verdades: “O Batman já teria resolvido essa bagaça antes de chegar no 1º volume encadernado!

Sendo a HQ uma das várias fontes de nossa formação, âncora de nossas decisões rotineiras, vale se perguntar se concordaríamos com os heróis que endossamos cegamente enquanto xóvens e cheios de certezas.

Vale para qualquer história marcante da sua vida, mas para fins de alcance e amplitude, me atenho a quatro, a saber:  

A posição anti-estado do Batman em Cavaleiro das Trevas

Por que parecia legal

Diante da escalada da criminalidade, não há polícia que resolva a violência. Força se combate com mais força e há de se tomar a justiça com as próprias mãos. Batman é o único com fibra de caráter e uma moral inflexível diante da bandidagem. O sistema é falho e corrupto. Reagir é a única opção. Já falamos muitas vezes sobre o tema. Você pode ler aqui e aqui.  

O que a velhice revela

Que o Superman tinha razão. Era o cara mais sensato naquela história. Órfão de Krypton e adotado pela Terra, ele sabia que “heróis” e “vilões” é uma divisão tão arbitrária quanto fronteiras nacionais. Aniquilar o crime sozinho apenas tira das mãos da humanidade a responsabilidade de construir a própria sociedade. Servir ao Estado, mesmo um Estado inepto, é aceitar que o Estado detém o monopólio da violência. O Superman aceitava que a solução deve partir de dentro das forças legais e não fora delas.  

A posição anti-estado do Capitão América em Guerra Civil

Por que parecia legal

Os heróis pró-registro pareciam uma patota de vendidos e covardes. O Homem de Ferro não passava de um milionário dominado pela culpa. Invés de filantropia, se meteu em política de Estado. Ensinava o Capitão América, combater o mal, agir pela lei mesmo fora dela, isso é um direito que nenhum governo pode violar, mesmo que custe uma vida de clandestinidade. Ademais, é muito mais maneiro viver sob o anonimato do que essas panacas sem alter-ego como Reed Richards e Peter Parker.  

O que a velhice revela

O Homem de Ferro tinha razão. O nome de uma força violenta fora do controle do Estado é “milícia”. Não há qualquer forma de fiscalizar atuação ou de responsabilização. O significado de crime ou justiça recai à subjetividade de caras cujo único crivo moral é a própria experiência pessoal*. Excessos ou omissões dos heróis seriam tão impunes quanto uma provedora de internet sem Procon ou aviação sem monitoramento de radar. Não por acaso, na história em quadrinhos o próprio Capitão América reconhece a estrumagem e se rende às forças policiais.

*Diferente do Estado, sacou? O Estado é um ente coletivo e de longa memória. História, portanto, não é o “passado”, mas a memória viva e compartilhada do Estado, por isso obrigatória nos currículos escolares.  

A escola para jovens superdotados do Prof. Xavier

Por que parecia legal

Uma escola de elite, que treina pessoas com talentos especiais para se tornarem uma força tática de atuação multinacional. Além de viverem numa mansão no campo, eles andam nos jatos mais avançados, se exercitam nas instalações mais sofisticadas, usam uniformes maneiros e lutam por pessoas que os temem e odeiam. No fundo são altruístas porque são melhores que o resto da humanidade.

O que a velhice revela

O major Striker tinha (alguma) razão. Ok, não o major Striker, afinal ele era um racista utilitarista, que tinha raiva dos mutantes os usava como ratos de laboratório. MAS ele viu que os X-Men se comportavam como um bolsão de elitismo militarista. Ao invés de tolerância e igualdade, Xavier estava alimentando uma polarização contra os humanos. Sabe quantos alunos não-mutantes havia na Escola Xavier? Zero. Bolsas de estudos para alunos humanos? Nenhuma! O pressuposto oculto ali é que os mutantes devem aprender a esconder suas identidades até serem integrados pela humanidade. No mínimo, a escola Xavier servia apenas para perpetuar dois sistemas de ensino: um composto de uma elite supremacista e outro, dos “inferiores”. E que as gerações futuras que resolvessem isso, até por meio da guerra. Diga o que quiser, tolerância não é um bem alcançado no porvir, mas um exercício diário, do qual Xavier privou seus alunos. Claro, hoje em dia essas dicotomias ficaram no passado.

A criação do Capitão América

Por que parecia legal

Esses nazistas bastardos! Supremacistas brancos safados! Anti-semitas desavergonhados! Xenófobos cruéis! Misóginos apolíneos! Eugenistas desgraçados! Steve Rogers, turbinado pelo soro do supersoldado, é o antídoto para essa doença que tomou conta da Alemanha e se espalha pelo mundo. Se tornar o Capitão América não se trata de ser um herói – trata-se de uma causa justa.  

O que a velhice revela

À esquerda, o Capitão América (#1/1941). À direita, um homão da Leni Riefenstahl, the diretora nazista (Olympia/1936)

O Capitão América continha traços nazi-fascistas evidentes. Ele é um cara branco e loiro, como um ariano seria na mentalidade popular. Pilhado pela ciência eugênica – o soro do supersoldado – ele tem um corpo mais perfeito do que um colossal atleta olímpico. Nada nas histórias originais sugeriam que ele fosse anti-semita ou misógino. Mas de todas as características do herói, nacionalismo é o traço mais dominante de seu caráter. “Ah, mas ele luta pela democracia americana e a liberdade do povo”. Tá certo. E Adolf Hitler se tornou chanceler como mesmo? Uma dica: não foi via golpe militar.

Claro, há um montão de exageros aqui. Mas o propósito deste post, tanto quanto os quadrinhos permitem, é denotar contrastes e atacar nossos próprios pressupostos. Se eles são destruídos ou fortalecidos, o único beneficiado é você mesmo. Afinal, bem ensinou Alan Moore em Miracleman, toda civilização digna do nome é construída sob uma pilha de ossos. Afortunados seríamos se eles fossem apenas imaginários, como são nas histórias quadrinhos.  

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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2 respostas para 4 ideias que pareciam perfeitas quando você leu nos quadrinhos (mas que o tempo fez mudar de opinião)

  1. Mike Wevanne disse:

    Reflexões interessantes. Esse tipo de questão de certa forma sempre me lembra “O Principe” do Maquiavel. Lendo as HQs a gente condiciona nossos sentimentos a acreditar no que esses personagens representam, porque os conhecemos e sabemos suas intensões e sua natureza, mesmo que num cenário generalizado, esse tipo de poder (os sociais, não os sobrenaturais) não seja ético.

  2. geiza21 disse:

    O segundo parágrafo é perfeito, gostei da mistura das linguagens rebuscada e moderna.

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