Quando a cultura pop vira política (ou como a política se transformou em cultura pop)

Quando o espírito democrático é substituído pela paixão do fã.

 

 

 

Na corda bamba desde que vinha publicando comentários polêmicos no Twitter, a atriz Gina Carano, que interpretava Cara Dune em The Mandalorian, foi oficialmente limada da produção pela Disney/Lucasfilms.

Conforme informou o site Io9, a declaração da Lucasfilm foi categórica:

Gina Carano não está mais trabalhando para a Lucasfilm e não há planos para ela para o futuro. Ademais, os posts dela nas mídias sociais rebaixando pessoas baseados em identidades culturais e religiosas são abomináveis e inaceitáveis.” (tradução nossa)

Entre os posts mais “moderados” da atriz havia a crítica ao uso de máscaras durante a pandemia, ou incitando dúvidas sobre o processo eleitoral de 2020. A gota d’água foi uma nova sequência de mensagens, em que comparou a crítica aos apoiadores do partido Republicano à perseguição de judeus na Alemanha nazista.

Repugnante em si, a afirmação de Carano dispensaria mais críticas, sob o risco de perpetuar uma discussão inócua. Aqui se chama atenção para outro aspecto, o fato de que as críticas vieram mesmo assim, sob a bandeira do #FireGinaCarano e com a sanha do cancelamento. É um mal-estar recorrente que volta e meia dá as caras na cultura pop.

O caso dá pretexto para observar este meio cultural. Em especial, a toxidade que ele produz. Produz ou reflete? Vamos pensar.

Algumas premissas, que você pode discordar se quiser:

  • Uma forma de explicar um fã é a sensação de pertencimento de grupo provocada pelo gosto por uma franquia/personagem;
  • Os quadrinhos, em especial a partir da Era de Ferro, foram além de um subcampo artístico e se consolidaram como espaço “mainstream”, com público segmentado e abrangente. Se existe um público, ele ganhou “identidade”;
  • Os filmes e séries de super-heróis, em especial a partir do lançamento do Homem de Ferro (2008) expandiram o conhecimento geral do público que não era fã sobre a “cultura nerd”;
  • A compra da Marvel e da Lucasfilm pela Disney e da DC pela AT&T/Warner pode ser explicada pelo potencial multimídia de fontes narrativas contidas ou derivadas de décadas de histórias publicadas;
  • A cultura pop se tornou difusa nos diferentes espaços de mídia, streaming, cinema, impressos, mídias sociais. E ocupa tais espaços como qualquer objeto de interesse da sociedade, como a política. A identidade da cultura pop dialoga e se constitui junto a várias outras;
  • Os quadrinhos de super-heróis americanos têm peculiaridades. Uma das formas de definir este arquétipo heroico é entende-lo como um sujeito que age fora dos limites da lei/Estado, mas em benefício da lei/Estado. Ou seja, sob a ótica jurídica, trata-se um criminoso.  

Agora, se você concordou com essas premissas, vale lembrar alguns episódios.

Em janeiro de 2021, quando os invasores do Capitólio usaram o escudo do Capitão América…

(Vale registrar: Neal Kirby, o filho de Jack Kirby, se manifestou para deixar claro que o Capitão América representa o exato oposto do que defendiam os invasores do Capitólio)

Ou quando os manifestantes do Occupy Wall Street usaram máscaras como as de V, de V de Vingança…

Ou no Brasil, as vezes em que Sérgio Moro foi comparado ao Superman…

O que chama atenção aqui é quando as práticas e costumes de uma seara ocupam os espaços de outra, e a forma como certos posicionamentos se manifestam. São parcelas da sociedade que se colocam em torno da causa X ou Y e buscam nos heróis da ficção a representação simbólica de suas bandeiras. É como se a realidade, incapaz de fornecer concretude às aspirações pessoais mais elevadas, pega a forma mais próxima emprestada da ficção.

Assim, uma pergunta assombra aqueles que têm paixão pelos heróis dos quadrinhos: ser fã torna os fãs mais extremistas, violentos, radicais, seja qual for o espectro político/ideológico?

Ao olhar o mapa eleitoral de outubro de 2020 nos Estados Unidos, segundo informa o site da britânica BBC, 306 votos dos colégios eleitorais estaduais foram para Joe Biden. 232 votos foram para Donald Trump. Os cinco estados com maior votação democrata, a favor de Joe Biden, foram Califórnia, Nova York, Illinois, Virgínia, Washington. Os cinco estados com maior votação republicana foram Tennessee, Indiana, Missouri, Carolina do Sul e Alabama.

Seria tentador pensar que os partidários republicanos são leitores apaixonados das histórias do Batman, um herói de tonalidades mais “conservadoras”, ou que os partidários democratas fossem fãs dos X-Men, heróis que defendem pautas liberais/progressistas.

Fica a sugestão para quem tiver recursos e tempo para tanto, pesquisar quais são os quadrinhos mais lidos em cada estado nos meses que antecederam a eleição de 2020. Respeitadas as proporcionalidades, a hipótese aqui é que não haveria grandes diferenças. O mais provável é que democratas e republicanos lêem exatamente os mesmos quadrinhos.

Retomando a questão acima, a resposta óbvia é que não, quadrinhos não têm o poder de tornar os leitores mais radicais. Da mesma forma como, ao contrário do que postulou Fredric Wertham, ler quadrinhos não leva o leitor a cometer atos criminosos. Ou seja, não se pode confundir causalidade de atos com a correlação de preferências.

A menos que a percepção de “Estado democrático de direito” ou “civilização” tenham seus significados adulterados por alguma força macabra, “opinião”, “preferência” e “gosto” não podem ser tratados como contravenções ou crimes, nem mesmo como preditores. Se você é incapaz de reconhecer os limites dessa construção, vale a leitura do sempre atual O Alienista, de Machado de Assis.

Pode parecer tênue, mas não é. Impedir qualquer um de se expressar, de manifestar opiniões, de participar do debate público, é censura, pura e simples. Já quando alguém incita uma prática criminosa, ou a quebra do Estado democrático de direito, ele será responsabilizado por isso (no Brasil, a matéria é tratada no Artigo 286 do Código Penal).

Buscar na ficção, nos heróis que lá habitam, os modelos para dar sentido à realidade não tem nada de novo. No século 19, o historiador escocês Thomas Carlyle foi um defensor do culto heróico, vendo nestes sujeitos, reais ou religiosos, como Maomé, Napoleão, Lutero, Shakespeare ou o deus nórdico Odin, fontes motrizes do progresso e evolução.

Já no século 20, todo projeto autoritário, do fascismo italiano ao comunismo soviético, se amparou em maior ou menor grau no mesmo mecanismo mental. Como ensinou Hannah Arendt, o “herói” das massas é um “portador de verdades reveladas”, ocultas a um público desavisado. O brio e liderança dele está ligado à uma “luta permanente” que a sociedade é incapaz de enxergar por completo.

Quando os intérpretes das narrativas, atores, diretores, roteiristas, eles mesmos confundidos com os heróis, cometem algum tipo de transgressão, o fã/partidário se sente justificado para condená-lo ao linchamento virtual. É como se o avatar das causas mais íntimas tivesse traído os valores depositados, restando ao fã apenas o ressentimento. Assim, o ato de “cancelar” ou “linchar” intérpretes torna-se a única opção sobre algo que o fã não tem qualquer controle.

Não por acaso, o comportamento parece ter algum parentesco com a adolescência. Em especial no que se refere à recusa ao amadurecimento. O fã pode até insistir no esforço, mas hora ou outra será obrigado a aceitar que a realidade não se torce ao desejo das suas expectativas. Maturidade, dói aprender a cada dia, exige conviver também com o funesto e tentar prevenir o pior. Nunca é demais lembrar, Alan Moore descascou este paradoxo em Watchmen ao retratar Rorschach como um relutante – e doente – defensor moral.

Nessa altura resta pouca dúvida. Se a polarização invadiu conflitos de raça e cultura, a cultura pop também virou arena de disputa. Os rituais, símbolos e instrumentos dos espaços de cada um, cada vez mais, ocuparam e empregam recursos dos outros.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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