Hegel em X-Men: Jonathan Hickman e a dialética histórica nos quadrinhos

Como os X-Men ajudam a entender o idealismo alemão.

Era 2009. Estava saindo a edição encadernada de Pax Romana, quadrinho autoral de Jonathan Hickman, lançado originalmente em quatro edições pela Image Comics em 2006. No prefácio, a quadrinista Blair Butler chutou a bola pro alto: “Ele é a Próxima Grande Novidade. O próximo Warren Ellis. O próximo Alan Moore.

Importante registrar, falamos precisamente mesma coisa na frente de milhares ( XD ) de pessoas no lançamento do nosso livro em 2016.

Dez anos depois, a mini-série de seis edições X-Men House of X / Power of X (que chega agora ao Brasil como Dinastia X / Potência de X) foi um dos maiores sucessos de vendas de 2019. Falamos bastante sobre elas aqui e aqui.

Muy oportuno registrar, pra quem ficou confuso/impedido pela pandemia no Dia dos Namorados, seria um ótimo presente atrasado pra aquel@ nerd favorit@!

Segundo os registros da distribuidora Diamond, as vendas de X-Men n.1, de Hickman, só ficaram atrás de edições comemorativas com capas variantes. Invés de um sucesso pontual, a influência de Hickman se tornou esmagadora. Desde de 2019, as edições derivadas de House of X/Power of X se multiplicaram.

Ao redor da série principal orbitam Marauders, Excalibur, New Mutants, X-Force, além dos lançamentos previstos para julho, X-Factor e Empyre X-Men. Mesmo roteirizadas e desenhadas por autores diferentes, todas até agora têm uma mesma coisa em comum: elas seguem a cartilha de Hickman de esclarecer pontos da narrativa e “mapear” os acontecimentos.

O estilo de Jonathan Hickman é consistente ao longo da sua carreira. Essa forma de organizar ideias e contar histórias aparece em cada obra que já tocou. Se é possível resumir assim, tratam-se de narrativas em que os personagens, individualmente, têm menos importância do que o conjunto dos acontecimentos reunidos.

O motor da história é a processualidade dos eventos, as cadeias de acontecimentos que promovem as reações seguintes. Assim, distribuídos numa longa temporalidade, a consciência dos diversos personagens se edifica, se amplia e evolui no sentido de um “destino” final. Para Hickman sempre há uma projeção de futuro, um “ponto de fuga” radicalmente diferente da situação inicial.  

Na ocasião do lançamento de Pax Romana, em 2006, em entrevista ao Comic Book Resources, ele explicou de onde vinham as ideias usadas para aquela história:

“Eu tenho lido muito Hegel, e ‘A História do Declínio e Queda do Império Romano’, de Edward Gibbon, e todo livro sobre militaria que eu puder para aprender o que eles usavam naquela época e quais as práticas sociais tinham. Pesquisei bastante sobre as mudanças geográficas no estado romano ao longo dos 300 anos de queda do Império e tentando entender como eu faria para assegurar fronteiras e coisas assim.”

 

Se você não leu Pax Romana, não perca a chance. Mas em suma a trama é a seguinte: num futuro próximo, o Vaticano descobre uma forma de viagem no tempo. Afim de assegurar a hegemonia do cristianismo, a Igreja Católica envia ao passado uma tropa de militares altamente equipados com blindados, satélites, e até bombas nucleares.

É lá, em 312 d.C., o ponto chave para mudar a História, poucos anos antes de Constantino se tornar imperador de Roma. Mas coisas dão errado. A presença de uma força contemporânea no fim da Antiguidade arremessa o desenvolvimento da civilização ocidental num ritmo inesperado – e arriscado.

Muso de Hickman, o filósofo idealista alemão Georg Hegel (1770-1831), autor de A Fenomenologia do Espírito (1807) é o cara mais conhecido por ter desenvolvido a concepção de dialética histórica.  De que a história é o palco da evolução das ideias da humanidade, processo que se consolida a partir de três estágios, você sabe, tese, antítese e síntese.

Repetido à exaustão por dezenas de professores, para Hegel, a história se dá pelo choque de uma tese (o pressuposto de uma consciência social inicial), sucedido por uma antítese (uma segunda onda de consciência social que se opõe à tese), até atingir uma síntese (um estágio de “acomodação” de tese e antítese, mas que conduzirá a um novo choque no futuro). Assim, diferente de Aristóteles e Platão, para Hegel não haveria uma verdade absoluta e imutável, mas verdades sempre históricas e transitórias.

Por exemplo, enquanto a escravidão era justificada sobre uma concepção de “superioridade racial”, uma “verdade” para muitas pessoas até o século 19, a sociedade “evoluiu” para combater essa concepção. Assim, o Estado, expressão da consciência coletiva, teve a atribuição de agir contra essa noção socialmente deletéria.

Tudo resolvido, não é mesmo?

Parece simples, não? Mas, amig@, se nos seus momentos de bravura intelectual, de destemor retórico e inclemência no chat você se avalia um gladiador do debate, escalpelador de argumentos, um gigante do ringue mental, te convido a visitar Hegel. Talvez eu erre, mas você vai se descobrir uma criança de fralda suja e nariz escorrendo se tentar ler e entender o filósofo. O texto é agreste. Os postulados, suculentos como uma rocha marciana. Mas como o lema daqui da casa também é “rigor”, não se pode furtar do esforço.

O mais próximo do que há de dialética histórica (termos que, aliás, Hegel nunca usou) e que se pode indicar no momento é:

[A] autoconsciência pensa-se como autoconsciência: neste ponto, ela é por si, mas ainda por si em relação negativa a outro, isto é, a subjetividade infinita: parte como crítica do pensamento, em Kant; parte, como esforço para o concreto, em Fichte. A forma infinita, na sua pureza absoluta, declara-se como autoconsciência que é Eu.  […]  Este fulgor invade a substância espiritual, e torna o absoluto conteúdo idêntico à absoluta forma: a substância identifica-se com o conhecer. Assim, a autoconsciência reconhece, em terceiro lugar, a sua relação positiva como negação de si, e a sua relação negativa como posição de si, ou seja, estas opostas atividades como a própria atividade; ou ainda, por outras palavras, o pensamento puro ou o puro ser como coincidência, e esta como contraste de si consigo mesmo. (HEGEL, Georg W. Introdução à História da Filosofia In Os Pensadores – Vol. 43. SP: Abril Cultural. p. 397, 1974. Grifos do autor.)

E aqui fica uma ponderação: será que Hickman leu mesmo Hegel?

O mais certo, e é fácil evidenciar em diferentes obras, Hickman tem uma visão de mundo bem clara e ela é exposta nos quadrinhos. Como mostra em Pax Romana e em X-Men Powers/House of X, certos eventos (como Xavier fundar sua escola para jovens superdotados) incitam um antagonismo (a criação dos Sentinelas) que geram reações sistêmicas (o advento de Krakoa, guerra de humanos X mutantes).

Esse evento engendra uma próxima situação que culmina num “espirito”, um ideal de estado que congrega todas as potencialidades. Para Hickman, esse estado é a psique colméia, ente que o autor sinalizou como destino fatal da humanidade. É o mal final que os X-Men devem prevenir ao “pilotar” os eventos seguintes. Seria essa a forma de Hickman afirmar que é contra o Estado?

Nessa altura ficou claro: Blair Butler tinha razão em 2009. Talvez Jonathan Hickman não seja lá um Warren Ellis, ou um Alan Moore – cujo ponto de fuga, aliás, não se dá no tempo, mas no mundo imaterial da magia. Mais sóbrio seria comparar Hickman a Chris Claremont, como foi dito aqui, um roteirista muito mais importante pros quadrinhos do que Alan Moore. Assim, numa leitura hegeliana dos quadrinhos, ainda não houve qualquer ruptura: quem pilota os X-Men, pilota os quadrinhos mainstream.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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