A educação pode aprender com os quadrinhos: o caso Shazam! O Poder da Esperança

Será que os professores estão fadados a perder o emprego?

Para quem tem alguns anos adentro da vida adulta, não é raro indagar se todo esforço, técnica e conhecimento de um professor vale mais do que uma história em quadrinhos para ensinar uma lição valiosa para um aluno.

Não só os quadrinhos, bens culturais como episódios de séries, novelas ou filmes, podem estar educando, com mais eficiência e de forma mais duradoura, aqueles que jamais foram alcançados pelos esforços de um professor ou de toda a estrutura educacional que existe hoje.

Em outras palavras, poderiam as narrativas heroicas da ficção ensinar aquilo que os professores não podem, devem ou conseguem?

O leitor fiel de quadrinhos, sem demora, vai dizer “siiiim!”, e citar algum exemplo. Ele que crie o próprio blog. Aqui, diz-se sim e cita-se Shazam! O poder da esperança (2000), com roteiro de Paul Dini e desenhos de Alex Ross.

Longe de ser polêmica ou de provocar reviravoltas na vida do personagem (à época, ainda chamado de Capitão Marvel), a história de Shazam! O poder da esperança, em vários sentidos, é um marco do que reconhecemos como convencional. E “convencional” é um conceito importante nesta discussão.

Para quem nunca leu, na história, o pré-adolescente Billy Batson, alter-ego de Shazam, leva para casa um saco cheio de cartas de fãs do herói. Entre propostas de casamento, pedidos de favores ou de ofertas comerciais, uma vem de um hospital infantil, que solicita a Batson mediar uma visita do herói ao centro médico. Sentindo-se pressionado pelo fardo, Batson busca o conselho do mago Shazam que o ensina:

É neste momento […] que você deve ser mais forte. Não apenas por você, mas por aqueles que buscam inspiração em tudo aquilo que o Capitão Marvel representa. As crianças são as mais impressionáveis, porque elas são as que mais acreditam. Como uma chama, a fé delas no seu campeão brilha com força, mas ela precisa ser nutrida, ou irá se apagar.

É o que acontece ao longo da história, cabe a Billy Batson/Capitão Marvel fortalecer ou restaurar a esperança naqueles que mais precisam, as crianças do hospital infantil. Sendo ao mesmo tempo criança e herói, ele tem uma visão singular da função que exerce, tanto como um adulto responsável por oferecer algo essencial – proteção e esperança – como uma criança, que sabe com precisão o que alguém como ele necessita.

Neste sentido em especial, o “adulto” Capitão Marvel dá lugar ao jovem Billy Batson para conversar com Bobby Bronsky, um dos garotos do hospital que foi vítima de violência do próprio pai e teve a perna quebrada. Ao entender o que aconteceu, o Capitão Marvel faz uma visita ao pai de Bobby e o “adverte”:

Estou dando a você uma chance que você não merece, de se acertar com o Bobby. Vá vê-lo. Peça desculpas. Prometa ao meu amigo que você nunca mais vai machucá-lo. Porque certamente eu vou voltar se você o machucar.

Mensagem principal dos autores, este é o fardo do Capitão Marvel, hoje Shazam. O herói pode não vencer todas as batalhas, mas ele, com sua dupla consciência, deve oferecer algo que as crianças precisam muito, esperança.

O que pode ser visto como algo piegas, traço ingênuo ou tolice quando visto desta forma (nas páginas de quadrinhos) o sentimento que foi retratado na edição tem potencial de se tornar convencional para aqueles que tenham lido esta história, em especial, as crianças. Como talvez seja difícil para um adulto ensinar, ficou claro que é errado (moral, ética, legal ou emocionalmente) praticar violência contra crianças e jovens. A narrativa em quadrinhos ensina este complexo valor sem ameaçar uma criança nem constranger algum adulto. A lição é transparente, óbvia, direta. “Natural” até, não? Tentador, mas não é verdade.

Sob uma perspectiva historiográfica mais rigorosa, todo documento, como o quadrinho Shazam! O poder da esperança, é portador de um determinado discurso, uma correlação de forças ideológicas, de poderes implícitos, que não são muito transparentes se vistos e lidos “por si só”, separados de sua temporalidade histórica. O que o quadrinho reforça como valor, “violência contra crianças e adolescentes é errado”, tornou-se regra na sociedade a partir do momento em que a ideia não representava nenhuma deformação das condutas sociais consideradas “normais” ou “adequadas” e previstas em atos normativos oficiais. O quadrinho, narrativa ficcional de amplo alcance, livre de uma agenda estatal/partidária, e cujo sucesso vem da aderência que tem com o público, tem o potencial de acentuar esta mensagem, fortalecer os valores sociais que são exibidos na história.

Como ensinaram Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas:

Fixemos, pois, uma primeira ‘profissão de fé’: considerar o conteúdo histórico do texto dependente de sua forma não implica, de nenhum modo, reduzir a história ao texto, a exemplo do que fazem os autores estruturalistas ou pós-estruturalistas, que negam haver história fora do discurso. Pelo contrário, trata-se antes, de relacionar texto e contexto: buscar os nexos entre as ideias contidos nos discursos, as formas pelas quais elas se exprimem e o conjunto de determinações extratextuais que presidem a produção, a circulação e o consumo dos discursos. Em uma palavra, o historiador deve sempre, sem negligenciar a forma do discurso, relaciona-lo ao social. (Domínios da História, p. 378, 1997)

Confuso? Vamos tentar de outra forma.

Entre os postulados que o público pode considerar “convencionais”, por exemplo, “é errado violentar mulheres”, torna-se inadmissível uma vez que são retratados graficamente na série Handmaid’s Tale. Ou então, o que o público pode considerar natural, por exemplo, “é errado a discriminação por cor de pele”, torna-se indefensável uma vez que assistiu em Pantera Negra.

Existem discursos, debates, forças ideológicas nos subtextos e entrelinhas de cada concepção do “convencional” que são trazidos à tona nas obras de ficção que acompanham nosso cotidiano e opções de consumo. Ademais, igualdade de gênero, de raça e combate à violência de menores, na falta de um termo melhor, são forças “positivas” para nosso convívio mútuo. E, por meio das páginas de quadrinhos ou episódios exibidos essas forças são ressaltadas. Muitas delas acabam ocupando um espaço e importância que talvez as vozes “oficiais” de condução da sociedade, como leis, escolas e os professores, talvez jamais tivessem chance de ocupar.

Pô Velho, quer dizer que os professores, as escolas, as infames secretarias, ministério, coordenadorias e órgãos de educação estão fadados a sucumbir nos estertores do crepúsculo futuro??” – indagaria você,  abraçado ao seu dicionário revisado e ampliado.

Não, quer dizer apenas aquilo que os Quadrinheiros já vêm falando há anos, de várias formas: os quadrinhos são nossos aliados. E, diria o mestre Yoda, aliados poderosos eles são.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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Uma resposta para A educação pode aprender com os quadrinhos: o caso Shazam! O Poder da Esperança

  1. Acho que essa extrapolação (no melhor sentido da palavra) que vocês fazem do contexto social e histórico dos quadrinhos é importantíssima pra mostrar o quanto a arte em geral vai muito além do entretenimento.

    Isso não significa, é claro, que ela deva ser utilitarista, mas sim que, como dizia Joseph Campbell, a arte ocupa hoje o papel que antes era do mito. E, como Campbell também dizia, uma das quatro funções do mito é justamente a de caráter pedagógico.

    Obrigado pela análise, que só fez aumentar ainda mais a minha vontade de ler não só essa história, mas também as demais dessa série do Paul Dini com o Alex Ross.

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