O vaqueiro da liberdade : Capitão América e o destino manifesto

Sim, essa semana não vamos falar de outra coisa. Nosso correspondente de Washington DC nos deixou ainda mais pilhados com esse novo filme da Marvel. Mesmo eu, um Bat-fã assumido e de carteirinha, estou ansioso para ver a estrela dos marveletes. Se você ainda não leu a resenha do Velho Quadrinheiro, seria legal, leia aqui antes de ler este texto. Vou puxar uma reflexão a partir de considerações que ele fez, mas dá para ler aqui sem ler lá.

Até os posters tem um tom mais pesado...

Até os posters tem um tom mais pesado…

Estava pesquisando algumas informações para este post e acabei me deparando com uma saga do Capitão América que cai como uma luva. Em 1976, ano que os EUA completavam seus 200 anos de independência, Jack Kirby recebeu um senhor presente, e soube usá-lo de maneira sublime. Teve total liberdade e pode publicar a história como bem entendesse. “Bicentennial Battles” foi o resultado disso. Descobri que foi uma história pouco popular no Brasil, mas mais do que a história em si eu quero trazer a tona o modo como Kirby utilizou o personagem. Steve Rogers, com um empurrãzinho do Mr Buda, viaja pelo tempo e se depara com as mais diferentes batalhas da história dos EUA. Assume sempre o lado mais “correto”, ou seja, o lado que defenda os valores mais básicos do ser americano. Inclusive, de acordo com a história apresentada, ele acaba sendo a base sob a qual Benjamin Franklin cria a bandeira americana. Que simbolismo maior que esse para dizer o quanto o capitão representa os pressupostos dos EUA? Ele então é “O” herói americano!

CapColonial

Qualquer semelhança com a roupa de um colono que fundou os EUA não é mera coincidência. O caveira vermelha com esse chapéu papal também foi mero acidente…

Mas aí nos vem algumas perguntas do tipo: Quais são esses valores fundamentais? Esses valores são válidos apenas aos EUA? Se ele é um herói ele segue os fundamentos que Campbell propõe ou não? Como você pode afirmar que ele é um herói americano e não apenas um herói? Vou tentar, dentro do possível, responder algumas delas… Diferente desde a sua raiz, os EUA foram o primeiro país a adotar uma democracia e tinham uma teologia protestante, mesmo que laicizada, em sua base. Ou seja, os pressupostos que Weber vai indicar na sua obra mais conhecida, “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, estão de fato presentes nos pensamentos dos fundadores dos EUA e na história americana, mesmo que de maneira laica. Quem tiver interesse em comprovar isso, e se aprofundar na discussão, vale ainda complementar a leitura com o “Da democracia na América”, de Alexis de Tocqueville.

Ele não usa meramente as cores, ele usa a bandeira americana

Ele não usa meramente as cores, ele usa a bandeira americana

O mais chocante do livro do Weber é a habilidade com a qual ele conseguiu mostrar a conexão entre uma teologia e uma ideologia, que aparentemente não tinham nada a ver. Partindo da idéia básica de que um católico não poderia adquirir lucros (lembrem das aulas de história e das medidas do Vaticano contra essa prática) e que esta teologia era de aristocratas e nobres, não de burgueses e trabalhadores, o  ato de trabalhar não é algo bem visto, é coisa de “ralé”. Um terreno fértil para a construção do “selfmade man” e a idéia de que “o trabalho dignifica o homem” é esse protestantismo, fruto dos burgueses que queriam crescer e serem reconhecidos no sistema nascente. Lembrem que aqui burguês é algo um bom tanto diferente do que a gente vê hoje em dia no populacho. Eles eram oposição aos nobres e não oposição aos proletários e por aí vai…

O conceito do Self Made Man é parte do ethos americano, mas em Westminster, no Colorado, ele tem uma representação artística

O conceito do Self Made Man é parte do ethos americano, mas em Westminster, no Colorado, ele tem uma representação artística

O que Weber argumenta então é que capitalismo, como conhecemos hoje, só poderia florescer em um ambiente no qual o acumulo de capital e a mais valia fossem aceitas, praticadas e favorecidas inclusive pelo discurso religioso. Foi então justamente nos EUA, somado a democracia, que esse capitalismo pode se fortalecer e criar fortes raízes. É esse um dos fundamentos do Capitão América! Vejam só se ele não é o exemplo do bom cristão que defende os valores da democracia?! Autores acadêmicos clássicos, como os que falei aí em cima, que puderam conhecer e acompanhar os primeiros momentos dos EUA nos mostram como o fato dos americanos nunca terem, em seu território, um outro governo com a mesma duração que a democracia foi um formador de visão único. O inimigo da democracia sempre foi externo e estranho. Por isso que precisavam de grandes defensores, que enfrentassem o Oeste Selvagem e os dominassem com esses ideais de democracia. Esse é o Destino Manifesto dos americanos, levar essa democracia ao mundo todo! É um chamado de Deus! Mesmo sendo um Estado Laico, o mote dele é “In god we trust”… E sem dúvida, mesmo com um senso laico, é isso que Steve Rogers acredita do fundo da sua alma.

Seja a nota de 1 ou de 100 sempre estará lá "In God we trust"

Seja a nota de 1 ou de 100 sempre estará lá “In God we trust”

Mas um ponto, que tanto o novo filme mostra assim como o quadrinho do Kirby, é a defesa pela individualidade. Essa é uma pauta atual da política americana. Até que ponto pode-se ferir a sua privacidade e individualidade para defender o interesse da democracia e a segurança desse sistema? O pressuposto americano de liberdade anda sempre de mãos dadas com a democracia. Mas qual é essa liberdade individual? Temos desde um extremo como o libertarianismo do Rambo (quem tiver interesse, segue este texto discutindo mais a fundo a questão) até um Estado ultra intervencionista, como é acusado o governo Obama. Tem um negócio que eu queria chamar a atenção antes de seguir: os americanos se entendem como os protetores-apóstolos da democracia, cabendo a eles expandir e divulgar essa “palavra”, junto é claro dos valores cristãos protestantes de trabalho e esforço. Essa mistura é que vai criar o chamado americanismo, que é potencializado quando confrontado ou colocado em cheque. Nada melhor do que criar o mito da fronteira, que é mais do que o sentido de limite político ou geográfico, mas sim um limitador da própria existência, para incentivar o crescimento de um país, que tinha muito para onde ir. Essa idéia vai ao encontro da proposta do Destino Manifesto, impulsionando os peregrinos a entrarem em suas carroças e rumarem para o Oeste, buscando povos a “catequizar” e terras a conquistar.

A imagem da "Deusa" Columbia, criada para representar esse manifesto... Muito pode ser analisado...

A imagem da “Deusa” Columbia, criada para representar esse manifesto… Muito pode ser analisado…

Mas quem pode ser o protetor desse grupo? Quem pode assumir a responsabilidade por resguardar os valores mais basilares e mesmo assim enfrentar os principais desafios? Quem poderá fazer o front, mas ser sempre respeitado e admirado? O Chapolin Colorado? NÃO…. o COWBOY O cowboy é o suprassumo da defesa desses valores americanos, e por essência segue o monomito do Campbell (Veja nosso vídeo explicando o monomito aqui).

CapWestern

Jack Kirby, no “Bicentennial Battles” cria essa imagem, que nos mostra tanto essa relação.

Fazendo o paralelo com alguns pontos chave do conceito e com a idéia americana: Justamente por ser um individuo que busca a liberdade, o cowboy não se encaixa na sociedade (o estranhamento do Campbell). Como opta por se tornar esse protetor, tem que aprender diversas habilidades, que só podem ser adquiridas com outro cowboy mais experiente (O mestre). Vive em uma constante jornada de busca, uma vez que sua função é guiar e arrebanhar o gado. Sempre retorna como um louvado, uma vez que trás o gado e volta vivo, o que por si só já é uma proeza em um ambiente hostil (O retorno). Essa construção, mais do que de fato real ou não, é reforçada e apresentada em diversos filmes, e que é apenas repetida no Capitão América. O grande mérito do filme é o modo como é contada a história e a sua atualidade na discussão política. E no quadrinho do Kirby é o inquietamento deixado ao final, quanto à alienação de muitos americanos à todas as consequências desse americanismo.

"Duzentos anos de pensamentos antigos em jovens mentes... Duzentos anos vistos através disso. Esse é o modo como um grande país e uma grande pessoa, que se põe lado a lado contra as flechas e ataques do amanhã ameaçador..."

“Duzentos anos de pensamentos antigos em jovens mentes… Duzentos anos vistos através disso. Esse é o modo como um grande país e uma grande pessoa, que se põe lado a lado contra as flechas e ataques do amanhã ameaçador…”

Esse modelo de arquétipo, em função dessas diversas questões, é específico dos EUA. O Capitão é apenas uma das roupagens mais descaradas. Seja no Astronauta, ou no policial, seja na literatura popular ou nos quadrinhos, esses ideais de liberdade e de coragem, de democracia e de Destino Manifesto, vão se reapresentar. E o mais interessante é a destreza com a qual a cinematografia hollywoodiana soube tratar e apresentar, assim como apresenta até hoje, esses valores. O exemplo que mais gosto, e é um marco na história do cinema e na vida de muita gente, é justamente de um filme infantil, que por natureza visa incutir conceitos de imaginário, mas que na real está trabalhando com um imaginário já construído. É o caso da dupla Woody e Buzz Lightyear da série de filmes “Toy Story”. Enquanto o primeiro é um xerife, o que representa o Estado e o único capaz de controlar um cowboy, o segundo é o cowboy no seu sentido mais amplificado, pois extrapolou toda e qualquer limitação de fronteira. “Ao infinito e além” não é a toa…

É desde pequenino que a gente vai aprendendo isso...

É desde pequenino que a gente vai aprendendo isso…

Outro exemplo nerd e que muita gente ignora, pela ausência da violência explicita é a série Star Trek. Logo na abertura, pode-se ouvir a frase: “Espaço, a fronteira final”. Apesar de serem cientístas e pessoas muito avançadas intelectualmente, não há como negar que o Capitão Kirk é um cowboy em trajes estelares. Ficam agora as milhões de pulgas e inquietações até a gente ver o filme e poder saber o que fizeram com o herói americano. Essa nova roupagem vai colar?

Estamos na espera

Estamos na espera

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Sidekick e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

7 respostas para O vaqueiro da liberdade : Capitão América e o destino manifesto

  1. Já dizia o velho Gene Roddenberry que seu “Jornada nas Estrelas” sempre foi uma Caravana para o Oeste no espaço sideral. E virou marca registrada o termo “Diplomacia de Cowboy” cunhada na série seguinte “Jornada nas Estrelas A Nova Geração” num diálogo entre o então Embaixador Spock e o Capitão Jean-Luc Picard, numa referência clara ao Capitão Kirk.

  2. Pingback: Melhores posts até agora – 2 anos de Quadrinheiros | Quadrinheiros

  3. Pingback: Os desafios do balde de gelo mais legais para os nerds: entre ética e heróis! | Quadrinheiros

  4. Pingback: Cinema, quadrinhos e violência: o sintoma Sniper Americano | Quadrinheiros

  5. Pingback: 10 (+5) referências de histórias em quadrinhos | Quadrinheiros

  6. Pingback: Vingadores – 5 momentos que você não verá no cimema | Quadrinheiros

  7. Pingback: Da Grécia à Cleveland, a comédia pede passagem | Quadrinheiros

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s