Battlestar Galactica e a longa noite hobbesiana

Um exercício da ficção para interpretar o Brasil.

Antes de começar, importante tirar algumas coisas do caminho. Sem muita enrolação, aqui, e outra vez já dissemos, a ficção tem a mesma função pro cérebro do que uma academia tem pro marombeiro. Ela prepara, fortalece e esculpe nossas concepções, inferências, repertórios.

Mas não há como virar um Hércules do intelecto, um The Rock da bibliografia, um Arnold do saber, sem levantar muito Nietzsche, Weber, Arendt e Barthes na barra fixa da leitura.

Por outro lado, se você para de ler/assistir, o cérebro retorna ao chassi de frango mental e as digressões ganham a consistência de uma barriga de Nutella.

Desta feita, grata redescoberta é assistir Battlestar Galactica, releitura da série criada por Glen A. Larson em 1979, executada em uma minissérie e quatro temporadas por Ronald D. Moore entre 2003 e 2009.

A série tem mais de 10 anos, mas de todo modo TEJE AVISADO!

Quintal do faz de conta, a série se aventura em arquipélagos da política. Temas instigantes, passíveis de reflexão ao timbre dos eventos reais que invadem nossa rotina de quarentena, pandemia e bolsonarismo.

Dos vários assuntos tratados em Galactica, chamo atenção para um deles, a tensa relação entre três entes institucionais: o Estado, a federação e as forças armadas. Estas três figuras são os “sujeitos” atuantes na relação de tensão/distensão na comunidade de pessoas que, após sobreviver um holocausto, busca um novo lar. Na série, cabe às forças armadas, de forma titubeante e errática, exercer o protagonismo. Nesse tom, estranho como acordar de um sonho, assistir Galactica é como assistir o Brasil.

Agora é a sua vez de dizer “Hein??”

É. Ó.

A premissa de Galactica é de que os Cylons, uma raça de seres artificiais criados pela humanidade, foram exilados por 40 anos das 12 colônias. São 12 planetas que correspondem a estados, com tradições e costumes próprios e dotados de governadores locais. Todos eram unidos numa única república, governada por um presidente eleito, comandante das battlestars, poderosas naves encouraçadas equivalentes a imensos porta-aviões.

Ao se infiltrar e desarmar o sistema de defesa das colônias, os Cylons desferem um ataque brutal, exterminando toda a humanidade. A exceção são os pouco mais de 50 mil sobreviventes espalhados em naves maltrapilhas. Estas passam a ser defendidas pela Galactica, a mais capenga das battlestars (que resistiu aos ataques justamente porque não tinha conexão com a internet das 12 colônias).

Sem opção de voltar, perseguidos pelos Cylons, eles recorrem a um mito religioso: escapar para a Terra, destino de uma desgarrada “13ª tribo”, desaparecida há mais de 4 mil anos.

Última representante do governo das 12 colônias, Laura Roslin (Mary McDonnell), ex-secretária da Educação, se torna a presidente da frota de sobreviventes. Com pouca legitimidade e quase nenhuma experiência, cabe a ela dissuadir o primeiro impulso de William Adama (Edward James Olmos), o comandante da Galactica.

Militar veterano, na mente de Adama não existe outra opção além de retornar para Caprica (planeta “capital” das colônias) e expulsar os Cylons. Pedagógica, a presidente esclarece a Adama, “Nós perdemos. A guerra acabou. Somos tudo que restou. Para a humanidade sobreviver é melhor começarmos a fazer novos bebês.

A partir daí, por necessidade e conveniência, a aliança entre o Estado (ou seja, a presidência) e a as forças armadas (ou seja, a Galactica) é forjada. A missão primordial da battlestar é a proteção da frota contra os Cylons. Mas na ausência de qualquer força policial para manter a ordem, cabe mais uma tarefa à tripulação da Galáctica. Composta de pilotos e alguns poucos fuzileiros, a eles recai também ser o monopólio estatal da violência. O que gera uma das afirmações mais esclarecedoras já produzidas pela ficção e que explica o mundo que vivemos (e muito bem lembrada pelo Nerdbully):

Existe uma razão para separar os militares e a polícia. Um luta contra os inimigos do estado, o outro serve e protege a população. Quando os militares se tornam os dois, os inimigos do estado tendem a se tornar a população.

Mas a durabilidade da aliança entre Estado e forças armadas é testada o tempo todo. Pior, são temperadas de acordo com as razões de ordem pessoal de Adama e Roslin.

Ao fim da primeira temporada, a presidente se convence de que é a personagem de uma profecia, de que será aquela que levará a humanidade à Terra. Para tanto, depende de um artefato religioso, a “flecha  de Apolo”. Investida do status de “ungida”, Roslin convence uma das pilotos da Galactica a buscar o objeto. Isso viola a cadeia de comando das forças armadas, induz a desobediência de uma ordem direta do superior hierárquico, no caso, Adama. O comandante da Galactica, prontamente, declara a ilegalidade da presidência de Roslin, o que levará à deposição dela e à lei marcial entre a frota. Esta sequência culminará com resultados funestos, com a morte de civis e a rebelião da população.

Em outro episódio, Adama lidera um motim contra a Almirante Cain, comandante da Pegasus, outra battlestar que sobreviveu ao ataque Cylon. Apoiado por Roslin, Adama conspira ativamente para assassinar a almirante, militar linha dura, que prendeu e julgou dois tripulantes da Galactica. Vale contextualizar, a Almirante Cain mal escondia sua intenção de canibalizar a frota de naves sobreviventes e continuar a guerra contra os Cylons. Drama afora, a situação revela quão vulneráveis estão as naves civis quando a relação entre Estado e forças armadas se estremece. O que leva ao terceiro vértice da relação, a federação.

Além de reunir sobreviventes das 12 colônias, as naves da frota maltrapilha traziam engenheiros, agricultores, jornalistas, advogados, assim como presidiários, traficantes, agiotas e prostitutas. Não apenas separados fisicamente por suas naves, eles também se distinguiam por suas convicções religiosas, políticas e tradições, unidos apenas pelas privações de comida, água, habitação e demais condições básicas de vida.

Volta e meia eles se organizam em rebeliões. Episódio sim, episódio não, é a exigência dos civis por melhores condições, por mais apoio do Estado ou das forças armadas, que legitima as tendências “privatistas” das naves da frota. Mineradores que fazem greve. Mafiosos que requerem o controle do mercado paralelo. Todos requerem água e comida. Um estado permanente de tensão entre os entes confederados locais, o Estado e as forças armadas.

Sem nenhuma surpresa, os civis votaram em peso em Gaius Baltar, um dos vilões da série, para presidente. Afinal ele prometeu o assentamento de todos em “Nova Caprica”, um planeta estéril, mas que trazia uma alternativa melhor do que viver confinado no interior de uma lata espacial. Claro, não demorou para esta solução se revelar trágica. Baltar acaba sendo o primeiro a aceitar a rendição irrestrita diante dos Cylons. Nova Caprica se tornou, assim, uma espécie de Kabul ocupada por forças invasoras.

O que leva a pensar sobre nossa terrinha, tão sujeita ao messianismo político de soluções rápidas, a tensão entre os entes federados, o governo central e seus eleitores. Para compreender o porquê das relações entre Estado e federação se darem da maneira que são no Brasil, Oliveiros S. Ferreira chamava atenção para a forma de nossa colonização:

Ora, do ponto de vista da morfologia, é preciso ver que as capitanias não se comunicavam e que a população das diferentes capitanias poucos contatos mantinham entre si. Era mais fácil, no século XVIII, ir do Brasil para Lisboa do que de Santos a Olinda. Nas Cortes de Lisboa, em 1820, os deputados brasileiros não se identificavam como tais, mas sim como paulistas, fluminenses, baianos, pernambucanos e assim por diante. Não tendo contatos criadores, de que modo as populações das quais eles eram os representantes – ainda que fossem de pequena parte dela, a elite dirigente, – poderiam esperar que tivessem comportamento de ‘brasileiros’ quando o pernambucano nada sabia do que se passava em São Paulo e vice-versa?” (FERRIRA, O. S.. Elos Partidos, 2007, p.7)

Ou seja, assim como acontecia no Brasil colonial, os representantes da frota (ou seja, a federação, os estados) em Battlestar Galactica pouco tinham em comum. Era mais fácil para eles se posicionar em relação ao governo central (até de forma antagônica) do que entre si, afinal eles não dividiam espaços comuns. A excepcionalidade que unificou aqueles entes federativos foi uma autoridade presidencial leniente com os Cylons. Uma calamidade pública legitimada pelo Estado.

A “lição” de Galactica, ou a posição que a narrativa assume naquele momento, é que a vitória dos interesses privados dos entes federados, a busca por “milagres” dos eleitores de Baltar e a esperança de um alívio rápido das necessidades, levou todos ao desastre. E que coube às forças armadas, estas sim, zelosas de sua importância e missões, “resgatar” as instituições, a presidência e a população.

O que, na série, convenhamos, foi vibrante!

Sentimento semelhante, de que cabe às forças armadas “resgatar” ou “sustentar” a integridade nacional, volta e meia emerge ou são insinuadas nas exortações jornalísticas em momentos de crise no Brasil. Hoje, desde o início da pandemia, não é diferente. Conforme argumentou o Prof. Oliveiros:

“Durante todo o Segundo Reinado, para não dizer todo o Império, foi o Exército, que garantiu, nos momentos de erupção dos privatismos, a unidade territorial, condição sine qua non para a existência do Estado ‘brasileiro’. Compreende-se assim, porque o general Lyra Tavares (que será um dos membros da junta militar que em 1969 impede a posse do vice-presidente Pedro Aleixo) pôde dizer , em 1965: ‘O Exército, já o assinalamos, foi, desde o início da nacionalidade, a grande armadura que sustentou a unidade da Pátria, preservando-a das ameaças de fragmentação, assegurando a coesão daquela espécie de arquipélago de províncias que tendiam a isolar-se, em compartimentos autônomos, dentro de suas peculiaridades, sob a ação de forças desagregadoras muitas vezes alimentadas pelo inimigo externo.” (Idem, p. 10)

Na obra citada, a tese do Prof. Oliveiros, é que este elo, que garantia a sustentação da unidade nacional, se partiu depois de 1964. Foi quando as forças armadas quebraram os vértices dos três sujeitos institucionais. Ou seja, quando elas tomaram para si a função de Estado e federação.

Em Galactica, a advertência sobre os riscos dessa confusão de papeis foi expressa de forma didática pelo comandante Adama e mostrada de formas diferentes repetidas vezes.

Respeitadas as proporções, a série oferece um ensaio de realismo. A série tolera o flerte com o militarismo, mas para denotar a importância da força armada estatal, submetida e harmônica com um governo civil. A ausência, ou a adulteração das funções das forças armadas, levaria ao surgimento e à selvageria de milícias armadas, uma “longa noite hobbesiana”, como diria Oliveiros.

Battlestar Galactica não cai na tentação de eleger um sujeito singular como portador da “salvação”, seja ela religiosa, militar ou política. É, assim, um instrumento para interpretar a realidade e enxergar os sinais do desastre. Um exercício intelectual dos mais intensos.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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