O fardo da liberdade – heróis condenados ao vazio existencial

Talvez você não goste muito do que vai ver se for bem a fundo nessa busca.

Logo ao lado da igualdade de expressão, poucos sonhos concebidos pelo senso comum de hoje são tão bocós quanto a liberdade. Dito como meta, valor vigiado com quartel, formulário e “Fale Conosco!” na internet, pouco se pensa sobre o que a liberdade traz como realidade objetiva. Confundida com conforto, casa própria ou viagem de navio, a liberdade, pelada, sem agenda nem orçamento pré-determinado, pode ser um teatro de horrores ou um marasmo paralisante. Ser livre implica conhecer-se e, só talvez, você não goste muito do que vai ver se for bem a fundo nessa busca.

Nos quadrinhos, quando Galactus, o ente cósmico que precisa devorar planetas para sobreviver, chegou à Zenn La, pouca ou nenhuma razão havia para poupar o lugar. Para todos os efeitos, Zenn La era uma utopia, o ápice de uma civilização social e tecnologicamente avançada. Toda necessidade material, emocional ou ética foi satisfeita para toda a população. Zenn La se tornou uma jóia rara no universo, mas nem por isso imune ao vazio existencial imposto pelo seu sucesso.

Pensemos: não havia mistério do universo indecifrável aos cientistas de Zenn La; não havia doença ou diferença de opinião que provocasse uma morte ou uma guerra, seus habitantes eram praticamente eternos. Todos os objetivos, fossem de uma única vida ou de uma civilização, foram alcançados.

A rigor, o único obstáculo para os habitantes daquele planeta era a consciência deste vazio, o que poderia deixar a população tanto apática quanto aterrorizada. E com a chegada de Galactus, a reação de Norrin Radd, representante exemplar do planeta, foi reveladora: para evitar o holocausto, submeteu-se como arauto de Galactus na busca de outros mundos e poupar Zenn La, tornando-se o poderoso Surfista Prateado.

Ok, parece legal, singrar as marés do universo visitando diversos planetas e civilizações e, com sorte, apontando apenas planetas inabitados para saciar o apetite de Galactus. Zenn La continua viva, segura e exuberante, em troca de um custo individual pequeno. Mas importante ressaltar: Norrin Radd escolheu abrir mão da sua liberdade, ele quis se submeter aos grilhões de Galactus, o que foi aceito de bom grado em contraste à segurança de outras pessoas. Mas, talvez, a escolha de Radd tenha sido algo a mais, um ato pseudo-altruísta em busca de sentido existencial.

Claro, existem inúmeras histórias em que o Surfista revê estas escolhas e finalmente se reconcilia com o sentido que parece ter sido perdido em seu planeta natal. Curioso é que esta mesma temática, as ambiguidades da liberdade, tão claras quando os personagens são lançados ao espaço, sejam a base de ícones culturais tão presentes no nosso cotidiano.

Um exemplo é a narrativa da origem do Superman que se tornou cânone nos quadrinhos e cinema. Fácil de lembrar como Pai Nosso, diz ela: O “último filho de Krypton” foi enviado para a Terra por seu pai, Jor-El, pois aquele planeta estava prestes a ser destruído. O destino fatal é fruto da negligência de seus habitantes em ignorar a iminente implosão da estrela vermelha daquele sistema solar. Kal-El, adotado por Marta e Jonathan Kent, cresceu para se tornar o Superman, o mais poderoso entre todos os heróis.

E aqui chama-se a atenção: Superman é um herói que protege a Terra segundo a concepção do seu pai alienígena, uma “segunda chance” para os kryptonianos.Você dará um ideal para buscarem. Eles vão segui-lo, vão tropeçar, eles vão cair. Mas com o tempo eles vão se juntar a você no sol, Kal. Com o tempo você vai ajudá-los a realizar maravilhas.”, diz Jor-El, em Homem de Aço. Estas não são apenas palavras de incentivo, são a normativa de um desespero existencial, o pedido de um pai para que o filho realize aquilo que ele não foi capaz.

Outro exemplo do impacto filosoficamente devastador que a liberdade pode ter se esconde nas entrelinhas de Star Trek. Ou talvez nem se esconda, como visto no ultimo Star Trek: Sem Fronteiras, que afirmou a questão com todas as letras:

Diário do capitão, data estelar, 2263.2...

No que se refere a mim, as coisas começaram a se tornar um tanto… episódicas. Quanto mais longe avançamos, mais eu me vejo indagando o que nós estamos tentando realizar aqui. Se o universo é realmente infinito, então não estamos tentando alcançar algo que é inalcançável?”

Star Trek: Sem Fronteiras (aliás uma gratíssima surpresa para a franquia) mostra esta indagação, dotada de um significado profundo, sendo degolada junto com a Enterprise, abalroada pelo vilão Krall nos recôncavos mais distantes da galáxia. Em nome da segurança da tripulação, Kirk abandona o que parece ser uma digressão infantil, abandonada de vez ante ao possível genocídio de uma estação espacial da Federação de Planetas Unidos.

Krall, ele mesmo, se tornou um reflexo distorcido da missão da Federação, uma monstruosidade que vê apenas na guerra, ou seja, na supressão da liberdade alheia, uma força existencial digna. Ao final do filme paira um sabor amargo: os atos de Krall renovaram o espirito de Kirk, ávido para continuar desbravando fronteiras…

O mesmo tema permeia qualquer episódio das diversas séries de Star Trek e ao reuni-los, se prestar atenção, fica claro um mosaico, com o perdão da palavra, “fascinante”. As viagens da Enterprise, indo audaciosamente onde ninguém jamais esteve, são investidas para preencher um vazio autoimposto graças ao avanço social e tecnológico da Federação, exatamente como Zenn La e Krypton.

Depois da criação dos replicadores de matéria, que criam roupas, alimentos ou qualquer utensílio que os cidadãos da Federação de Planetas Unidos necessitem, habilidades artesanais, como a culinária ou a marcenaria, por exemplo, deixaram mesmo de ter sentido. Viajar do Himalaia aos anéis de Saturno, da mesma forma, perderam significado, uma vez que podem ser alcançados via teletransporte ou então simulados nos ambientes virtuais do Holodeck da Enterprise. Pode-se interpretar assim, a sociedade da Federação está numa crise existencial severa. Por esta razão investe seus melhores recursos técnicos e humanos na exploração espacial, na busca por um significado que foi perdido com o alcance da liberdade para realizar um projeto que já foi alcançado.

Tome-se como exemplo o episódio “Primeiro Contato” de Star Trek: a Nova Geração. (Ep. 15/T.4). Nele, a tripulação comandada pelo Capitão Jean-Luc Picard encontra uma civilização que está prestes a fazer a primeira viagem espacial com o uso de motores de dobra, como aconteceu na Terra séculos antes. Tal capacidade técnica é a 1ª credencial para que novas civilizações sejam convidadas a integrarem a Federação, uma vez que o encontro com diferentes povos é inevitável.

Picard, como representante da Federação, busca criar laços diplomáticos pacíficos com a “jovem” civilização, caso os habitantes daquele planeta assim desejem. Seria uma forma de evitar um desastre, como a sangrenta guerra com o Império Klingon, fruto de puro desentendimento inicial. Ao que responde o chanceler daquele planeta:

– A história do meu mundo está repleta de conquistadores que chegaram com as palavras “nós somos seus amigos”.

– Nós não somos conquistadores, chanceler, diz Picard.

– O que você quer?

– Um início. Mas como procedemos depende inteiramente de você.

– E se meus desejos conflitarem com os seus?

– Não haverá conflito.

– E se eu pedir para vocês partirem, e jamais voltarem ao meu mundo?

– Nós vamos partir e nunca vamos retornar.

E ao final do episódio é justamente o que acontece. Uma vez que a sociedade daquele planeta se revelou politicamente instável, ou seja, ainda muito “imatura” para ingressar na Federação, o chanceler pede que Picard e a Enterprise partam. Diz o chanceler, “Nós temos que abrir mão desta arrogância, esta noção de que somos o centro do universo. Mas o tempo não é agora. Por enquanto nós teremos que aguentar nossa doce inocência”.

Dito de outra forma: o chanceler reconheceu que seu mundo ainda vive preso às suas próprias diferenças, e que a liberdade é um fardo que aquele mundo ainda não está pronto para carregar e isto é “doce”. Antes de entrar em contato é necessário abrir mão do próprio protagonismo. Resta à Enterprise, assim como Norrin Radd, continuar singrando o espaço em busca de algo que eles sabem ser inatingível.

Vamos supor que isto fosse verdade, que a liberdade é um fardo penoso, uma verdade que os membros da Federação reconhecem e que Jean-Luc Picard seja o tenaz explorador da Frota Estelar que busca trazer um novo sentido para aqueles que se encontraram no éter da galáxia e se reconheceram livres. Picard é a expressão de uma decisão consciente, de continuar buscando o desconhecido.

Desta forma, a Federação representa o que existe de mais sóbrio, mais racional e ponderado, uma alternativa ao dilema “desespero X paralização” provocada pela liberdade total. Bem-sucedidos ou não, de todos os capitães da Frota Estelar, Picard é o mais austero, talvez porque sobre ele recaia a responsabilidade de conter os deslizes existenciais que a tripulação da Enterprise venha a ter.

Altruísta, desesperada, audaciosamente ou não, ao estilo do Surfista Prateado, Kal-El, Kirk ou Picard, perambular entre estrelas, vagar entre as latitudes das geografias do mundo físico ou metafísico, talvez este seja a maldição daqueles que sejam verdadeiramente livres.

 * PS – Claro, créditos do título, ao filósofo Bernard-Henry Lévy.

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3 respostas para O fardo da liberdade – heróis condenados ao vazio existencial

  1. Impressionante a forma com que o chanceler reconhece a própria “arrogância” de se achar o “centro do universo” como uma necessidade – ainda que temporária.

    De certa forma, remete a perspectivas muito atuais sobre a religião e o seu papel no mundo de hoje. De um lado, os ateus mais ferrenhos (como Sam Harris e Richard Dawkins), que são totalmente contra ela; e, do outro, aqueles que acreditam na importância da crença muito além da existência ou não de uma divindade (como Nassim Taleb e Yuval Harari).

    É basicamente o mesmo dilema, mas ao invés de “liberdade”, a palavra aqui é “Deus”.

  2. Pingback: Irredeemable: uma mensagem sobre pais e filhos | Quadrinheiros

  3. sergiorike disse:

    Os portugueses e espanhóis chegaram aqui com as palavras “nós somos seus amigos” e vejam o que aconteceu aos índios… Os autóctones estão extintos. O que sobrou são arremedos.
    O chanceler quis dizer: Vocês tem que abrir mão da arrogância de que são o centro do universo. O tempo da invasão não é agora. Por enquanto viveremos nossa doce inocência.

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