Visão (de Tom King): entre Philip K. Dick e Shakespeare

VJAs referências literárias da minissérie que resgata e redefine o personagem Visão.

A inteligência artificial e sua possibilidade de igualar e superar a inteligência humana é um dos temas dessa minissérie escrita pelo roteirista Tom King e desenhada por Gabriel Hernandez Walta, com as cores de Jordie Bellaire. Mas a série também fala de preconceito, bullying, normalidade, vida no subúrbio (de Washington, DC), os esteriótipos dos papéis da família tradicional e a necessidade humana de se conectar com o outro.

Na história o sintozóide Visão (dos Vingadores) constrói uma família para si – esposa e um casal de filhos gêmeos e decide viver uma vida de classe média na capital dos Estados Unidos enquanto trabalha como interlocutor entre os Vingadores e o presidente norte-americano. Sua esposa fica com o papel de “dona de casa”, e seus dois filhos vão frequentar o colegial de uma prestigiada escola de um bairro nobre.

Tudo o que o Visão quer pra ele e para sua família é viver como humanos.

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Uma das referências que Tom King coloca para marcar esse desejo dos personagens de serem vistos como “normais” é o monólogo do personagem Shylock, o comerciante judeu, vilão da peça de teatro O Mercador de Veneza, de Shakespeare (a peça é parte do currículo escolar dos gêmeos). Eu já falei desse monólogo quando escrevi sobre a nova Miss Marvel. O ponto central da fala de Shylock é uma distorção da empatia.

O comerciante está cansado de ser julgado pelo estereótipo social que pesa sobre os judeus. “Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?”, diz o personagem do autor inglês, que quer a complacência do olhar empático dos outros sobre ele para justificar suas ações motivadas pela vingança.

d3bd34d2479f0306ba3d927f8f7111f4Shylock vitimiza-se, olha apenas para dentro de si mesmo e exige que os outros olhem para ele sem julgá-lo. Os filhos do Visão discutem se ele seria de fato um vilão ou um personagem injustiçado na peça. A postura da esposa do sintozóide na narrativa funciona como um espelho de Shylock. Ela passa horas revendo as memórias implantadas em seu sistema, se sente deslocada e quer tão desesperadamente se adequar ao papel que lhe foi dado que passa a mentir, e cometer atrocidades  em nome da “normalidade”.

O filho do sintozóide se identifica com outro personagem da peça. Ele mostra para seu pai um diálogo que está ensaiando, recitando as falas da heroína Pórcia. Em O Mercador de Veneza ela salva a todos de si mesmos, com inteligência e principalmente com um forte senso de empatia. Mas o interessante é que Pórcia só pode fazer tudo isso (lembrando que a peça é do século XVII), porque se disfarçou de homem. O sintozóide adolescente se vê como alguém que tem sentimentos (que é humano e portanto é capaz de ser empático), mas que está na pele de um construto artificial.

O autor de ficção científica que Philip K. Dick acreditava que a empatia seria a chave para diferenciar a inteligência artificial da inteligência humana. Algorítimos superam os humanos na resolução de problemas complexos, mas a capacidade de sentir a dor do outro não pode ser duplicada, ainda que possa ser simulada.3

Então se na peça de Shakespeare o personagem Shylock representa uma empatia simulada, e Pórcia representa a empatia real, na narrativa de Tom King a tentativa de simular a inteligência humana é mais evidente na esposa do Visão, e os gêmeos representam a vontade dos sintozóides de manifestar uma empatia real. É essa busca pela natureza do humano que conduz a história.

 

Tanto na obra de Philip K. Dick quanto no Visão de Tom King, a inteligência artificial redefine o humano. Ao nos defrontarmos com personagens que querem entender a natureza humana para imitá-la, somo levados a fazer uma reflexão sobre nossa própria natureza e qual  a sua essência. O paralelo que King faz com O Mercador de Veneza ao mesmo tempo humaniza os sintozóides e mostra o desumano em nós.

Alem dessa reflexão profunda, a história repassa boa parte da trajetória do personagem Visão, explica sua relação com a Feiticeira Escarlate, com Ultron, com Magnum, além de outros personagens importantes.

Para quem costumava ler os Vingadores nos anos 1980 e 1990 é um passeio pela memória. Para quem não conhece muito o personagem é uma excelente introdução. Um exemplo de que bons narradores podem elevar a cultura pop, especialmente os quadrinhos, que têm no uso de referências textuais, gráficas e iconográficas, camadas de significado sem paralelo.

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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2 respostas para Visão (de Tom King): entre Philip K. Dick e Shakespeare

  1. As imagens passam uma vibe meio Beleza Americana, e a temática de questionar a natureza humana através da perspectiva de outras formas de vida parece que sempre rende né. Valeu pela resenha

  2. Pingback: Podcast Papo Quadrinheiro #5: Batman de Tom King | Quadrinheiros

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