As crônicas do exílio – Por que os mestres buscam a solidão?

Post COM SPOILERS de Star Wars – Os Últimos Jedi!

Amadurecer dói. Se não é porque envolve novas rotinas, ligadas a barbeador, absorvente, exercícios regulares e maneirar na bebida, dói aceitar que velhos hábitos, velhas crenças, rotinas antigas que moldavam uma vida, não vão mais se aplicar daqui pra frente. Quem seria você senão aquilo que você sempre fez do mesmo jeito?

Resistência a crescer, talvez essa seja uma possível explicação para tamanha divisão de opinião entre os fãs que assistiram Star Wars – Os Últimos Jedi. A cada dia após a estreia do filme no dia 15, a controvérsia ganha novas rodadas de discussão, e nós já demos nossa contribuição.

Um dos principais desconfortos foi a forma com que o roteirista e diretor Rian Johnson mostrou Luke Skywalker no Episódio VIII. Ao invés de um enérgico mestre Jedi, Luke tornou-se um velho recluso, amargurado por seus erros e relutante em se envolver na guerra que se propaga pela galáxia. Foi o próprio ator Mark Hamil quem deu o tom da crítica, uma vez que discordava de essencialmente de toda escolha que o diretor Johnson fez para o personagem de Luke Skywalker.

No entanto, ao contrário do ator, o personagem que destruiu a Estrela da Morte e venceu Darth Vader tornou-se um sóbrio observador da história dos Jedi. Foi a arrogância dos cavaleiros que provocou a derrocada da velha República. Foi Obi-Wan Kenobi, o mais exemplar guerreiro da ordem Jedi, quem iniciou Vader nos caminhos da Força. Ora, a Força não é mera arma a ser empunhada pelos Jedi como um sabre de luz.

O auto-exílio de Luke permitiu uma análise fria e realista dos acontecimentos que levaram à guerra civil entre o Império e a Rebelião. Prestes a matar Ben Solo, com o potencial para ser um novo Darth Vader, Luke vislumbrou este ciclo recomeçar e, para impedir, escolheu simplesmente se abster de uma vez por todas.

Com esta escolha, rejeitando o poder do mito que o transformou em herói, Luke juntou-se à uma nobre classe de personagens: o mestre exilado.

Ao lado de Luke estão grandes professores do universo cultural nérdico. Um deles é o mestre Kame, criação de Akira Toriyama para Dragon Ball.

Nessas histórias, o maior artista marcial da Terra vivia tranquilo e contente na sua ilhota, fumando seu cachimbo e vendo filmes de sacanagem, até a chegada de Goku e Kuririn ainda crianças, ávidos por aprender a técnica invencível do Kamehameha.

Dono de um poder imensurável, ao mesmo tempo é um mestre irreverente e rígido para os garotos, e serve como verdadeira referência para Goku, que reconhece em Kame a presença paterna do seu avô falecido.

Outro personagem célebre, também um dos maiores mestres das técnicas de luta, o Mestre Ancião oferecia seus ensinamentos, no alto dos Cinco Picos Antigos de Rozan, àqueles que alcançassem o inóspito desfiladeiro que ele escolheu como lar, como Shiryu, o Cavaleiro de Dragão.

Um dos guerreiros de Atena nas histórias de Cavaleiros do Zodíaco criados por Masami Kurumada, o Mestre Ancião – ou Dohko de Libra – é mais um recluso por opção. Há mais de 200 anos, havia lutado na última “guerra santa” e tornou-se o grande mentor da cruzada de Seiya e os cavaleiros de Bronze na batalha das doze casas para salvar a deusa Atena da morte certa. Sem jamais romper sua postura de meditação, Dohko ensina, direciona, lamenta e consola, sendo ele o único verdadeiro santuário de paz para os heróis.

Se para você que não assistia os episódios, os heróis das animações japonesas parecem um exagero para entender por que um mestre busca o exílio, basta ficar no universo de Star Wars. A despeito da visão cética de Luke em Os últimos Jedi, Obi-Wan viu no seu exílio em Tatooine a única redenção para seus erros.

Sim, Obi-Wan foi responsável pelo treinamento de Anakin Skywalker, mas não pelas opções do “escolhido”. A reclusão no deserto de Tatooine ensinou ao velho general, assim como a Luke, analisar seu passado, reconhecer suas fraquezas e acima de tudo, proteger o filho de seu amigo Anakin.

Até onde se sabe, só existem dois momentos em que Obi-Wan rompeu seu voto de reclusão. Um deles foi quando Darth Maul sugeriu que poderia ameaçar a segurança de Luke Skywalker:

A segunda vez foi quando R2-D2 trouxe uma mensagem desesperada, o apelo por ajuda da outra filha de Anakin Skywalker, Leia Organa.

Assim como Obi-Wan, o mestre Yoda é o grande modelo do sábio em exílio, quase uma súmula de todos os outros. Em sua solidão em Dagobah, Yoda reviu seu passado. Após 800 anos como mestre Jedi, aguardava o momento de sua sublimação na Força ao morrer, até a chegada de Luke, a procura de um grande guerreiro.

Grande guerreiro? Guerra não faz ninguém grande, ensinava o mestre.

A retidão, a calma estoica como reação à adversidade e a astúcia como alternativa ao confronto eram os maiores – e mais simples – recursos para alcançar uma sabedoria mais verdadeira. Aventura? Excitação? Um Jedi não busca essas coisas, já havia ensinado um Yoda ranheta muito antes de Luke achar que poderia impedir os erros de seus próprios discípulos.

Para aqueles que acusam Rian Johnson de ter cometido um “sacrilégio” narrativo, é importante lembrar que uma das maiores referências para a criação da saga criada por George Lucas foi o filme Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, de 1954. O filme talvez seja o maior exemplo do Jidaigeki, ou “filme de época”, estilo cinematográfico japonês de onde Lucas tirou o nome da ordem militar/religiosa que permeia a saga de Star Wars.

 

Não apenas meros sete guerreiros, Kurosawa deu luz à sete arquétipos, dotados de personalidades e motivações absolutamente claras, por meio de breves falas ou pequenos gestos. Dentre estes personagens, aquele que é a verdadeira força moral por trás de todo o enredo é Kambei Shimada, o ronin acanhado que se recusa a ter discípulos.

Em dado momento do filme, em estratégia que Yoda teria adotado, Kambei aceita o pedido de ajuda de uma família, que teve seu bebê sequestrado por um ladrão, e se disfarça como um monge. Ao vencer o vilão, outro jovem samurai, Katsushiro, impressionado com a astúcia de Kambei, pede para se tornar aluno do mestre ronin. O velho exilado descobriu com o tempo que não existe nada que ele tenha que possa ser ensinado. Você pode caminhar comigo, como um amigo, se quiser – esclarece o mentor ao inquieto guerreiro.

Em Star Wars – Os Últimos Jedi, Luke simplesmente descobriu aquilo que Kambei, Mestre Kame ou Yoda já sabiam há muito tempo. Força ou sabedoria não estão retidas sob a experiência de um grande mestre guerreiro, mas são resultado da quietude, frutos de uma incessante auto-descoberta. Em se tratando de Star Wars, uma franquia que resiste à mudanças, esta é uma das mais corajosas afirmações narrativas do nosso tempo.

Que a Força esteja em cada um de nós.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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