O fetiche da resistência

O inebriante desejo de ser especial.

Em algum lugar do passado, antes da vida se transformar em prazo pra entrega, boleto pra vencer e roupa pra lavar, havia um “eu” de você que achava tudo isso – digo, a vida adulta e o conformismo – o símbolo de uma vida vazia, uma derrota espiritual, o fim de feira da existência. E lá, naquele tempo, você descobriu um lugar, um espaço, uma linguagem de gente como você, que pensava como você, que recusava esse destino pavoroso.

Bem sabia, você não era “apenas” mais um. Não era como todos os outros. Você era um rebelde. E como sabia disso? Ora, só poucos como você entenderam tão bem a maré dos acontecimentos, a mensagem dos grandes, os ícones, você sabe, os heróis que resistiram a “este estado de coisas que está aí”. Indo do mais sutil ao mais escancarado, exemplos da resistência ao conformismo não faltam.

Mas que são puro Schadenfreude

Claro, essa descrição serve para praticamente qualquer meio, cinema, quadrinhos, rádio, televisão, pintura, nos ambientes de trabalho, na política. As vanguardas, as grandes inovações, partiram das iniciativas isoladas de gente que não aderiu ao status quo. Ao darem sentido aos anseios de uma parcela de pessoas, os “desajustados” ganham a aura de “gurus”, tornando-se eles mesmos personagens. O que chama a atenção é o sucesso se dar acerca da rebeldia, do surgimento de uma unidade de pessoas que se ligam a partir do não-conformismo, da lealdade pela ideia de “rebeldia”.

E para se reconhecerem, basta buscar pelos sinais exteriores da “resistência”, os objetos, os instrumentos, os sinais visuais da “rebeldia”. A busca por estes objetos gera um tipo especial de anseio, aqui chamado de fetiche da rebeldia, um segmento vitaminado pelas teorias de mercado e pelo marketing.

Nas palavras de Philip Kotler,

Marketing é um processo social por meio do qual pessoas e grupos de pessoas obtêm aquilo de que necessitam e o que desejam com a criação, oferta e livre negociação de produtos e serviços de valor com outros. […] Vemos a administração de marketing como a arte e a ciência da escolha de mercados-alvo e da captação, manutenção e fidelização de clientes por meio da criação, da entrega e da comunicação de um valor superior para o cliente. (KOTLER, Philip. Administração de marketing: a edição do novo milênio, 2000, p. 30, Apud CZARNOBAI, Fernanda C. A.. Uma Análise Das Práticas De Marketing Cultural E Sua Percepção Pelo Consumidor Final. São Paulo: FAAP. TCC, p.6)

Dito de outra forma, enquanto “mapeia” certas necessidades de consumo, o marketing  também induz o desejo de um certo público-alvo por um determinado valor.

Conforme descreveu Czarnobai, “[…] Definimos valor como a razão entre o que o cliente recebe e o que ele dá. O cliente recebe benefícios e assume custos. Os benefícios incluem benefícios funcionais e emocionais, os custos incluem custos monetários, de tempo, de energia, e psicológicos.” Este valor, cujo lastro encontra-se na mente do que busca o produto, está baseado em necessidades, das quais “[…] Kotler identifica cinco tipos […]: declaradas; reais; não-declaradas; de ‘algo mais’; secretas. Quanto mais as empresas conseguirem antever essas necessidades latentes de seus mercados-alvo, mais sucesso ela terá naquele ambiente.  (CZARNOBAI, op. cit., p.9)

Para entender melhor, dois exemplos recentes do cinema, Pantera Negra (dir. Ryan Coogler, 2018) e Coringa (dir. Todd Phillips, 2017).

No último ato do filme, o herói Pantera Negra, líder da nação de Wakanda, faz uma declaração em reunião das Nações Unidas:

Wakanda não vai mais ficar olhando sob as sombras. Nós não podemos. Nós não devemos. Vamos nos empenhar para ser um exemplo de como nós, como irmãos e irmãs nesta terra, devemos nos tratar. Agora, mais do que nunca, as ilusões de separação ameaçam nossa existência. Todos nós sabemos a verdade: existem mais elos que nos unem do que nos separam. Mas em tempos de crise construímos pontes, enquanto os tolos constroem barreiras. Devemos buscar formas de cuidar uns dos outros, como se fôssemos uma só tribo.

Pra quem não captou as entrelinhas, as palavras do rei T’Challa são uma crítica frontal à plataforma à administração de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. Trump prometia aos seus eleitores erigir um muro separando o país do México, para ele, gargalo da afluência tanto de imigrantes ilegais quanto de moléstias globalizantes.

Já a versão que narra a origem do arqui-rival do Batman impõe ao espectador um penoso exercício de empatia. Sem dar spoilers, diz o vilão no trailer, a partir de 1’27’’:

Por toda a minha vida, eu não tinha como dizer se até mesmo existia. Mas eu existo. E as pessoas começaram a perceber.

Juízos morais à parte, cada personagem simboliza uma visão de mundo de quem, de alguma forma, se reconhece com as palavras ou com a interpretação da mensagem que eles trazem. No caso de Pantera Negra, ele se tornou uma espécie de “prova” de que o Marvel Studios tem uma visão “progressista”, “liberal”, ou até “rebelde” em seus filmes. No caso de Coringa, o filme parece ter nascido para incitar discórdias e induzir posicionamentos.

Tanto um como o outro (e o mesmo vale para praticamente qualquer outro bem cultural), o fetiche da resistência coloca os sujeitos na posição de fã/seguidor. E, além de ávidos para assistir o próximo filme do herói favorito, fica ansioso por vestir algum adereço como aquele do personagem, por carregar um objeto que alude e celebra o próprio inconformismo. Claro, bem sabe o especialista de marketing, cada um destes objetos pode ser vendido a troco de um rim ou olho da cara.

Nunca é demais lembrar, o velho Marx já tinha comentado sobre o tema:

A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho social total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu próprio trabalho (MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. 6 vols. Rio de Janeiro: Bertrand, 1994, p. 81)

Antes que você entre em parafuso, importante pontuar algumas questões: Afinal, somos menos rebeldes ao consumir produtos ligados aos heróis revolucionários? Tostar o salário num gibi, num action figure, num ingresso de cinema 3D faz de você um sujeito mais passivo ao invés de revolucionário?

É certo que existe uma cooperação/parceria entre as empresas e o rebelde, o que os pensadores da Escola de Frankfurt chamaram de “indústria cultural”. A indústria cultural precisa de novos produtos, assim como o artista precisa sobreviver de sua arte. Há uma conciliação de interesses que, para benefício mútuo, não podem se confrontar diretamente em última instância.

Embora não tenha sido inventada no século XXI, esta tênue relação permitiu o surgimento de catedrais e obras de arte que moldaram a identidade cultural, o imaginário da sociedade contemporânea, para o bem e para o mal. Mas, se nada escapa ao fetiche da resistência, talvez neutralizando sua força, como escapar desse destino fatal, o conformismo, a deformação do ímpeto de transformação?

Ao se exilar em Northampton, digo, Anch-To, Luke Skywalker sugeriu uma alternativa. Já Gandalf, mais otimista, ofereceu um alento.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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