O processo de colorização na Era de Ouro

PV-12-20-59As soluções e escolhas que transformaram a colorização pontilhada (retícula) em um ícone cultural.

Em 1937 o Príncipe Valente, de Hal Foster, era publicado em uma página inteira de jornal, e a impressão era colorida. O processo de colorização em uma máquina rotativa de impressão de jornal era bastante trabalhoso. Hal Foster preparava sua arte original com mais detalhe que a maioria dos outros desenhistas de quadrinhos, e exatamente por isso levava quase uma semana para deixar a prensa pronta para rodar.

funnies-on-parade.jpgRevistas como a Funnies on Parade (1933), que reunia tiras e histórias já publicadas, e outras revistas com material exclusivo, eram produzidas por um exército de pessoas entre roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, letreiristas, gravadores, coloristas, operadores de máquinas rotativas de impressão em quatro cores e de máquinas de dobra e refile. Tanto nas revistas quanto nos jornais a colorização dependia do uso de placas Ben Day e o sindicato exigia que esse trabalho fosse feito pelos profissionais da empresa – os homens da Ben Day.

As placas Ben Day eram placas flexíveis que tinham padrões de pontos e traços vazados de diferentes tamanhos e espessuras. Essas diferenças determinavam o quanto de tinta passaria pela placa, compondo diversos graus de combinação das cores. Como apenas pequenos pontos das cores primárias eram impressos lado a lado, as cores resultantes (secundárias e terciárias) eram, literalmente, uma ilusão de ótica. Quanto mais placas com diferentes tamanhos e concentração de pontos eram usadas, maior era a paleta de cores possível de imprimir. Mas também mais trabalhoso era o processo de impressão.

EPSON MFP image

O pacote básico de placas Ben Day possibilitava a impressão de 64 cores, mas algumas sutilezas dos experientes “homens da Ben Day” poderiam aumentar ainda mais essa paleta de cores e efeitos. Trabalhos como O Príncipe Valente dependiam totalmente desse refinamento. Na primeira camada as tintas usadas eram de tons mais leves, os pontos eram pequenos e a precisão sugere uma aplicação leve e suave durante a impressão. Os pontos maiores usavam tintas mais grossas, pressão mais pesada, com múltiplas aplicações da tela. O resultado elegante, rico e delicado, era exceção na indústria dos quadrinhos.

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Detalhes do trabalho de colorização do Principe Valente.

O uso mais básico das placas Ben Day com uma paleta mais restrita de cores e de efeitos, diminuía o número de vezes que a mesma página receberia uma nova camada de tinta, economizando tempo de produção. Em função do envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, até o papel era racionado. As revistas de super-heróis que atingiam um publico maior, como o Superman, o Batman e a Mulher Maravilha, adotaram uma paleta de cores mais restrita, para baixar o custo da produção.

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A pele magenta da Mulher Maravilha.

No papel de baixa qualidade, meio amarelado, a pele dos personagens da DC era colorida apenas com pontos de magenta/vermelho. A DC Comics manteve, até o final da década de 1960, a diretriz de não usar a cor amarela a 25% para suavizar determinadas tonalidades de laranja e verde. Esse corte de custo é a origem de um visual mais “sombrio” da DC se comparado a explosão de cores da Marvel da década de 1960.

Esse visual pontilhado (reticulado), as dificuldades técnicas de “encaixar uma camada de cor na outra (registro), e a baixa qualidade do papel que absorvia a tinta de forma irregular, que definem os quadrinhos da Era de Ouro, se fixaram no imaginário do público. Artistas como Roy Lichtenstein nos anos de 1960, levaram esses elementos para a pintura e as paredes das galerias e museus. Hoje a publicidade recorre a esses mesmo elementos quando quer atingir determinados públicos alvo.

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Oh Jeff (1964) de Lichtenstein e um modelo genérico de publicidade.

Fonte:  https://legionofandy.com/2016/08/26/ben-day-dots-part-8-1930s-to-1950s-the-golden-age-of-comics/

***

Esse post é apenas uma pequena parte da pesquisa realizada para nosso livro Quadrinhos através da História – As Eras dos Super Heróis. Se você quer saber mais sobre como evoluíram as técnicas de colorização e impressão dos quadrinhos através da Eras de Ouro, Prata, Bronze, Ferro e hoje na Renascença, e qual o impacto dessa evolução nas histórias, ele está à venda no site da editora Criativo e também na Comix. 

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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8 respostas para O processo de colorização na Era de Ouro

  1. Um bom artigo. O processo de aplicação de cores em retículas sobre uma arte a traço num fotolito em negativo era bastante complexo e exigia grande habilidade manual e conhecimento técnico, o que tornava o sistema caro. Esta técnica coexistia com a seleção de cores de originais colorido em processo fotográfico e posteriormente em scanners analógicos, que também era trabalhosa e custava ainda mais caro…
    A informatização das artes gráficas a partir dos anos 80 mudou totalmente estes processos, mas ver um montador e um retocador de fotolitos trabalhando numa página de quadrinhos ou capa de revista era ver o significado vivo da palavra artesão. E o trabalho de marcação de cores em um overlay feito pelo desenhista ou produtor gráfico exigia uma grande capacidade de olhar para o traço e imaginar a página impressa a cores.

    • Na minha profissão de gráfico, tive a oportunidade de trabalhar como arte-finalista e como fotolitógrafo. Passaram por minhas mãos algumas publicações que requeriam a colorização pelo método do ben day aplicado no fotolito. O artigo não mencionou o uso das máscaras, para completar a explicação. Houve diferentes métodos de trabalhar, dependendo do equipamento disponível no estabelecimento gráfico que executasse o trabalho e o acordo feito entre o cliente e o fornecedor do serviço. Um detalhe importante também deixou de ser mencionado, talvez para não estender o artigo, mas o correto encaixe das cores dependia, na execução do fotolito e gravação das chapas off-set, das réguas de pino, além, é claro, das cruzes de acerto que o artista ou artesão teriam que acrescentar mas margens das páginas antes da fotolitografia das mesmas. No caso de HQ o próprio desenhista ou um auxiliar traçava sobre um overlay de folha de poliéster, mais estável que o papel vegetal (a não ser que o papel vegetal fosse de gramatura mais pesada) as áreas correspondentes às cores, em nanquim, manchas correspondentes às áreas que no impresso final ficariam coloridas. Assim, no fotolito negativo se aplicava o reticulado conforme indicado pelo colorista, nas diferentes percentagens. Por exemplo: 20% de magenta sobre 100% de amarelo daria um laranja claro. Claro que cada cor tinha seu próprio ângulo de inclinação para evitar o efeito “moire” (um efeito indesejável capaz de estragar um reticulado). Espero ter ajudado a informar, já que o assunto é realmente mais complexo do que a primeira vista. Hoje, com a informatização tudo isso se tornou automático, com o uso de programas como CorelDraw ou Photoshop. Abraço.

      • Devemos lembrar que as clássicas páginas de quadrinhos dos EUA (antes da década de 1980) não foram produzidas por fotolitografia, mas por tipografia (com placas de impressão em relevo). Para a placa preta, a obra de arte em preto e branco foi fotografada.
        Os pontos originais de Ben Day (1890s-1930s, aproximadamente) foram adicionados em tinta preta espessa diretamente a três placas de impressão de metal separadas, para as três cores, à mão. Foram então gravadas com ácido.
        A partir da década de 1930, outros métodos foram introduzidos gradualmente nas histórias em quadrinhos e nas tiras de jornal.
        Hal Foster, 1971: “Essas primeiras gravuras foram coisas bonitas. Eles tinham o processo Ben Day, então, e aqueles homens Ben Day eram artistas, eles poderiam obter as cores. Então eles ficaram mais barato e mais barato e agora finalmente não há trabalho Ben Day em tudo. Eles usam um processo diferente que é mais barato e não quase tão bom.”

        We must remember that the classic US comics pages (before the 1980s) were not produced by photolithography, but by letterpress (with relief printing plates). For the black plate, the black-and-white artwork was photo-engraved.
        The original Ben Day dots (1890s-1930s approximately) were added in thick black ink directly to three separate metal printing plates, for the three colours, by hand. They were then etched on by acid.
        From the 1930s other methods were introduced gradually in both the comic books and the newspaper strips.
        Hal Foster, 1971: “Those first engravings were beautiful things. They had the Ben Day process then and those Ben Day men were artists—they could get the colors. Then they got cheaper and cheaper and now finally there’s no Ben Day work at all. They use a different process that’s cheaper and not nearly so good.”

    • Sim, este tipo dos comics colorir era um ofício real feito pela mão; uma habilidade que fosse perdida agora pela maior parte. Mas devemos lembrar que as páginas de quadrinhos clássicos não foram produzidas por fotolitografia, mas por tipografia. Veja meus comentários abaixo.

      Yes, this kind of comics colouring was a real craft done by hand; a skill which is now largely lost. But we must remember that the classic comics pages were not produced by photolithography, but by letterpress. See my comments below.

  2. Pingback: A versão perfeita do Quarteto Fantástico | Quadrinheiros

  3. Tailon Saraiva disse:

    Excelente! Sempre quis saber como eram coloridas as hqs na era de ouro, realmente um trabalho complexo.

  4. Estou muito feliz que você tenha escrito sobre este tema fantástico!
    Como sabe, é um grande interesse meu. Obrigado pelo link para o meu blog.
    Uma pequena correção: os pontos originais de Ben Day NÃO estavam limitados a 64 cores. Como Hal Foster sabia (veja citação acima) eles poderiam produzir muito mais cores, se usado com habilidade, e tempo suficiente.
    Apenas os métodos mais rápidos e fáceis usados pelos quadrinhos criaram a gama limitada de 64 cores. (Ou 32 cores nos quadrinhos da DC antes de Neal Adams insistir em trazer os tons amarelos, em 1969.)
    Isso porque os novos métodos possuíam apenas 25%, 50% e 100% de cores.
    A maioria dos quadrinhos dos EUA adotou Craftint Multicolor da década de 1930s até a década de 1950s, aproximadamente. Isto usou linhas para 50%, como visto nos retratos da Mulher Maravilha aqui. Alguns quadrinhos de jornais gradualmente adotaram o Craftint Multicolor.
    E depois o novo método de acetato dos anos 50. Detalhado no
    http://www.legionofandy.com
    BEN DAY DOTS Part 9a: 1950s and 60s — the ‘Silver Age’ of comics, Part 1 | LEGION of ANDY como você sabe.

    I am very happy that you have written about this fantastic topic!
    As you know it is a major interest of mine. Thank you for the link to my blog.
    One small correction: the original Ben Day dots were NOT limited to 64 colours. As Hal Foster knew (see quote above) they could produce many more colours, if used with skill, and enough time.
    Only the faster, easier methods used by the comic books created the limited 64-colour ‘gamut’. (Or 32 colours in DC comics before Neal Adams insisted they bring in the yellow tints, in 1969.)
    This was because the new methods only possessed 25%, 50% and 100% colours.
    Most US comic books adopted Craftint Multicolor from the 1930s to the 1950s, approximately. This used lines for 50%, as seen in the Wonder Woman pictures here. Some newspaper comics gradually adopted Craftint Multicolor.
    And then the new acetate method from the 1950s. Detailed at
    http://www.legionofandy.com
    BEN DAY DOTS Part 9a: 1950s and 60s — the ‘Silver Age’ of comics, Part 1 | LEGION of ANDY as you know.

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