The Gifted: a fauna clandestina dos X-Men

Uma forma convencional de se falar sobre o que não é convencional.

Do rádio da polícia vem um alerta: a suspeita foi avistada numa rua próxima. Trata-se de Clarice Fong, a mutante Blink, que corre pela noite, fugindo dos policiais. Ao se esconder num depósito, ela é rastreada por Marcus, John e Lorna, mutantes como ela. “Venha com a gente. Podemos ajudar.”, diz Marcus “Você está com a gente agora.”

É assim, como dezenas de edições dos heróis mutantes da Marvel, que começou o primeiro episódio de The Gifted, série criada por Matt Nix, produzida pela Fox Television e lançada no último dia 2 de outubro. A produção do primeiro episódio ficou a cargo de Bryan Singer, que também o dirigiu, trazendo a marca de um universo do qual ele é o principal criador, a franquia dos filmes dos X-Men.

Por razões diferentes, a série faz lembrar outras do mesmo gênero, como Marvel Agent’s of SHIELD ou a finada Heroes. Da primeira, se assemelha por conta de um orçamento limitado – mesmo que os efeitos especiais, bem pontuais, não deixem nada a dever àqueles vistos nos filmes. Além disso, assim como Agentes da SHIELD é um apêndice dos filmes da Marvel, The Gifted situa-se numa “periferia narrativa”, nos arredores das “grandes” histórias e maiores personagens dos X-Men.

Tal como a série Heroes, The Gifted focaliza os aspectos “domésticos” da presença de pessoas dotadas de superpoderes num cotidiano realista. Mostra os impactos provocados pelos mutantes nessa realidade, como preconceito, perseguição, intolerância, e os riscos da “vontade popular” quando o assunto é segurança pública. Nenhuma novidade para quem acompanha as histórias dos mutantes nos quadrinhos. São elementos frequentes, mas que aqui despertam a atenção na forma em que são dispostos na história.

Nos episódios apresentados, é feita a alusão a um “incidente de 15 de julho”, conflito protagonizado por diferentes facções mutantes, os X-Men e a Irmandade de Mutantes. Entre as baixas o embate atingiu pessoas inocentes. O incidente teria provocado uma reação do governo, como a aprovação de “leis anti-mutantes” e a criação de forças-tarefa especiais contra mutantes, os Sentinelas, destacamento policial equipado com robôs rastreadores. Ao invés de gigantes metálicos, os robôs aqui parecem aracnídeos feitos de aço.

Neste contexto, os X-Men, a Irmandade, assim como outras facções mutantes, desapareceram, não se sabe por que. Para todos aqueles que possuem o “gene X” ou são entes queridos de mutantes, só resta fugir ou ser encarcerado.

A narrativa dos primeiros episódios está focada no resgate de Blink pela “Resistência Mutante”, no despertar dos poderes do adolescente Andrew Strucker, e sua fuga junto com a família das autoridades, e a prisão de Polaris, grávida do filho de Marcus, o mutante Eclipse.

A família de Andrew poderia ser um modelo de vida americano: a mãe, Cate, uma médica preocupada com o bullying sofrido pelo caçula; a irmã mais velha, Lauren, que repreende o irmão por usar termos preconceituosos (“mutunas”) e o pai, Reed Strucker, um procurador de justiça municipal determinado a processar “pessoas que machucam pessoas”, em especial, mutantes. A vida da família vira no avesso quando Andrew é atacado por colegas, devasta a escola e é protegido pela irmã, que revela ser também uma mutante. É de se imaginar se os dois, em algum momento, vão se revelar os irmãos von Strucker, letais vilões da Marvel.

A “Resistência Mutante” tem no termo original, “mutant underground”, um significado interessante: underground railroad era o nome da linha clandestina em que milhares de escravos que estavam nos estados sulistas escaparam para os estados do norte até a Guerra de Secessão nos Estados Unidos (1861-1865). Prática ilegal, estas linhas eram apoiadas por algumas das famílias mais ricas daqueles estados, e tornou-se célebre por seu significado humanitário. A alusão na série não foi despercebida: o destino final considerado pelo fugitivos são países com leis anti-mutantes mais brandas, como o México. Em tempos de intolerância política nos Estados Unidos, não deixa de ser uma provocação interessante.

Sem grandes ousadias, a série poderia ser uma narrativa genérica de ficção sobre distopias, a perseguição injusta de inocentes, uma reflexão sobre preconceitos, ou até sobre heróis com poderes sobre-humanos. Mas o fator de interesse aqui é ela estar inserida no universo dos X-Men, ou seja, existe uma carga narrativa considerável, que precede e cerca os acontecimentos que se desenrolam na vida dos personagens, provocando no espectador a curiosidade de localizar esta história em relação a outras que lhes são caras e familiares. Por enquanto, se é que existe uma linearidade nos filmes dos X-Men, parece que The Gifted existe em algum ponto entre X-Men: O Confronto Final e Logan.

Ou antes disso acontecer nos quadrinhos.

Em que pesem as críticas negativas, The Gifted tem seus bons momentos. Grata surpresa, Stan Lee faz sua breve passagem saindo de um boteco suspeito. O toque de celular de Marcus é a música de abertura do desenho clássico dos anos 90 dos X-Men. Mas o mais interessante são os diálogos entre Reed Strucker e o “Sentinela”, Jace Turner. Preso, disposto a proteger os filhos, que ele acabou de descobrir serem mutantes, Reed recusa responder ao agente, reivindicando seus direitos legais, garantidos pela Constituição. Ao que Jace torna bem claro: em nome da “segurança”, aqueles direitos valeriam pouco.

“Eu nunca vou saber se explosão de energia que matou minha filha veio de um mutante bom ou mau. E eu não me importo.”, esclarece o sentinela.

The Gifted tem sido apresentado pela Fox ás terças-feiras, às 22h.

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